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150 Anos do Seminário-Liceu de São Nicolau 07 Novembro 2016

Bispos conhecem história deste ícone da cultura de Cabo Verde
Os 150 anos do Seminário-Liceu, os 85 da sua transformação em Campo de Concentração e os 50 da criação no mesmo espaço do Externato de São Nicolau vão ser evocados por ocasião da Conferência Episcopal que de 7 a 13 de Novembro reúne Bispos da Região Ocidental-Africana. Bispos de Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau e Mauritânia vão em conferência dar continuidade às celebrações, que arrancaram em Abril, último. Nessa cerimónia inaugural, presidida pelo Cardeal Dom Arlindo Furtado, descerrou-se a Placa Evocativa dos 150 anos do Seminário-Liceu de São Nicolau, 1866-2016.

- Por Constânça de Pina

150 Anos do Seminário-Liceu de São Nicolau

O Bispo da Diocese do Mindelo, Dom Ildo Fortes, disse num exclusivo ao Kriolidadi que os 150 anos da criação do Seminário-Liceu de São Nicolau – que passou ainda por outras transformações: há 85 anos o edifício funcionou como Campo de Concentração, há 50 anos instalou-se aí o Externato de São Nicolau -são uma data redonda, que não podia passar em branco, até porque fazer memória daquilo que é importante interessa quer à história cultural nacional, seja à história da igreja. “São Nicolau e suas gentes têm, e bem, um orgulho muito grande do Seminário-Liceu, do seu passado, pelo berço que foi da intelectualidade, da cultura e da igreja”, realçou.

O prelado lembra que a desactivação do Seminário de São Nicolau, que há um século não exerce a função de seminário, coincide com a abertura do liceu em São Vicente, mas a sua história continua a ser actual. Cita, como exemplo, os Bispos oeste-africanos de visita que desconheciam o facto de o Seminário da ilha de Chiquinho ter acolhido também pessoas vindas de países do nosso continente. É, aliás, nesse sentido que a Igreja pretende contar um pouco desta história, por ocasião da conferência episcopal. “A Igreja de Cabo Verde está quase a fazer 500 anos – em 1533 foi criada a Diocese de Cabo Verde – e o Seminário tem uma importância fundamental na disseminação do Catolicismo na Costa Ocidental da África, na Costa da Guiné até perto da Serra Leoa, que é a nossa jurisdição. O Seminário de São Nicolau foi a primeira instituição – se quisermos, universidade – desta zona. Foi ela que formou os primeiros quadros de Cabo Verde e não só. Por lá passaram grandes figuras como o Baltasar Lopes, o Juvenal Cabral (Pai de Amílcar Cabral), e outros tantos”, exemplifica.

Cidadãos assumem as celebrações

A rica história deste que é um dos mais importantes ícones culturais de Cabo Verde torna o Seminário-Liceu de São Nicolau objecto de atenção, instituição acarinhada por todos, independentemente da sua religião. Foi isso que levou pessoas da terra, como o investigador José Cabral, o estudioso António Alves – este, com fortes ligações familiares ao Dr. Júlio José Dias, que está na origem não só do Externato, mas também de instituições como a Câmara –, a juntarem-se para celebrar esta efeméride. E a Igreja, na qualidade de responsável pelo Seminário, não podia ficar de fora.

Foi neste sentido que, no último dia 18, as partes se juntaram e, em conferência de imprensa, oficializaram a abertura das comemorações dos 150 anos do Seminário-Liceu. Houve poesias declamadas por alunos, visitas aos monumentos da cidade da Ribeira Brava, de entre outras actividades. Dom Ildo Fortes lembra ainda que antes, em Abril, aconteceu um ensaio prévio, aproveitando uma visita do Cardeal Dom Arlindo Furtado à ilha de São Nicolau.

Mas dada a importância do Seminário, tão grande que extravasa a Igreja, a comissão decidiu envolver em algumas actividades o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas. É assim que, e em concertação com a Igreja de Santiago, o programa acolhe uma conferência que, dinamizada por sanicolauenses, homens da cultura que mostraram interesse em dar mais visibilidade à história de São Nicolau, se realizará na cidade da Praia tematizando a História da Igreja Católica em Cabo Verde. Num segundo momento, Mindelo, cidade da Cultura e onde foi criado em 1917 o Liceu que sucedeu ao Seminário de São Nicolau, terá a sua vez como palco de mais uma celebração.

“Vamos fazer uma conferência mais focalizada no seminário e no impacto que teve na construção de uma identidade cabo-verdiana e, para finalizar, lá para o mês de Outubro do próximo ano, aproveitando o Dia Nacional da Cultura e as festas da Padroeira Nossa Senhora do Rosário, vamos realizar uma grande celebração de Acção de Graças, como a Igreja sabe fazer, com participação de figuras internacionais, por exemplo alguém ligado à Santa Sé, algum Cardeal ou Secretário do Sumo Pontífice para estar aqui connosco e presidir as celebrações”.

Testemunhos e vivências do Seminário

Sobre este particular, Dom Ildo Fortes explica que a ideia é mobilizar algumas memórias vivas, que apresentarão testemunhos e vivências do Seminário-Liceu. Este terceiro marco das comemorações terá como palco a ilha de São Nicolau. Paralelamente, a Igreja pondera envolver outras instituições na publicação de edições ou brochuras, inclusive aproveitando alguns escritos de Baltasar Lopes da Silva sobre o seminário e que se encontram espalhados. Tudo isso para chamar a atenção dos cabo-verdianos e do Governo para a importância do património.

“São Nicolau possui belíssimos patrimónios, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário a que no ano passado foi restituído o título de antiga catedral. Esta igreja foi a sede da Diocese de Cabo Verde até 1940 e poucos. Trata-se de um edifício emblemático e de uma beleza extraordinária. Possui altares que vieram da Itália, para além de alguns objectos e alfaias litúrgicas”, refere o Bispo da Diocese do Mindelo, que retoma o projecto do Museu da Arte Sacra, que deveria ficar no antigo orfanato, transformado em Casa da Cultura, mas nunca avançou.

Entende Dom Ildo que a Igreja de Nossa Senhora do Rosário pode acolher nas suas instalações um Museu, na sua concepção actual, aproveitando para isso os espaços subterrâneos. Estes poderiam acolher exposições temáticas. “No contexto dos 150 anos, achamos que podemos dar esse passo e instalar este pequeno museu. Estamos a falar essencialmente de valorizar o património e não esquecer aquilo que é importante. Cabo Verde é constituído por dez ilhas e cada uma possui as suas especificidades. No caso de São Nicolau, há esse património que precisamos reavivar e dar a conhecer, sobretudo aos mais jovens”.

Recuperar a vertente educativa

O Bispo do Mindelo não descarta também a possibilidade de o Seminário-liceu –que hoje serve de residência dos padres e Centro do Postulado, que recebe as actividades da paróquia, designadamente a Catequese, as reuniões de jovens, dos catequistas e outros –, recuperar a sua vertente educativa. Recorda que o edifício nunca deixou de servir a comunidade, lembrando que as escolas utilizam o seu recinto desportivo e as entidades solicitam com frequência o seu grande salão.
“O seminário continua a ser um ponto de encontro da comunidade da Ribeira Brava. Está em estudo, e sei que há vontade das autoridades locais em repor ao seminário um pouco da sua função académica ou cultural. Entendemos que o edifício pode acolher, por exemplo, um polo universitário. Fala-se que São Nicolau é uma ilha agrícola, então o seminário pode receber um centro de Estudos de Agronomia, ou em outras áreas. Temos é de nos acautelar porque tem de ser algo compatível com a vida da comunidade, mas a Igreja não está fechada. Queremos continuar a contribuir, naquilo que pudermos, para formar a nossa comunidade”.

Instado sobre se a celebração dos 150 anos do Seminário-Liceu está a “acordar” as pessoas, Dom Ildo Fortes concorda que “corremos o risco de dormir à sombra dos feitos do passado” se não fizermos nada para continuar a criar. “São Nicolau foi uma terra de cultura e continua a ser. Mas é preciso investir. No Dia Nacional da Cultura, os professores levaram os seus alunos para declamar poemas de autores cabo-verdianos, fizemos uma visita pelos espaços emblemáticos da cidade. Há que suscitar nessa juventude o gosto pela cultura. Hoje há uma grande confusão. Nem tudo o que junta povo é cultura”, frisa, esclarecendo que cultura tem a ver com beleza, história, qualidade e capacidade de ser criativo.

Refira-se que, na conferência proferida na cidade da Ribeira Brava, o destaque foi para o papel do Seminário-Liceu na evangelização e promoção do cristianismo, pela igreja católica em Cabo Verde e Costa da Guiné, na construção da cabo-verdianidade e na massificação da educação nestas ilhas. O Bispo do Mindelo lembrou que, do programa de actividades em curso, constam de entre outras, conferências descentralizadas que se estenderão pelo ano de 2017, ano em que o primeiro estabelecimento de ensino que Portugal fundou em África seria extinto, pela Lei nº 701, de 13 de Janeiro de 1917.

De recordar que o antigo seminário acolheu os deportados da Revolta da Madeira (1931), os primeiros Salesianos (1943), a Congregação das irmãs do Amor de Deus (1943) e os Capuchinhos (1955). Ainda nesse espaço, pelas mãos dos irmãos António e Abílio Alves - com apoio da esposa deste -, do Dr. Camões e outros, ensaiou-se a reintrodução do ensino pós-primário na ilha, com o Externato de São Nicolau que funcionou de 1967/68 a 1972/73, ano em que, tendo-se aberto na Ribeira Brava uma extensão do ciclo preparatório do Mindelo, todo o espólio – recursos e logística de funcionamento – foi cedido gratuitamente àquela escola.

Das memórias desse emblemático monumento, consta que acolheu, nos anos sessenta, as enfermarias enquanto duraram as obras de benfeitoria no “hospital” da Ribeira Brava. Por altura da independência, nos salões norte, do piso térreo, funcionou, durante um ano lectivo, um “internato” para alunos das zonas remotas da ilha, que frequentavam o ciclo preparatório na Ribeira Brava, enquanto no andar superior se alojavam polícias deslocados.

Nos anos noventa, já em avançado estado de degradação, o edifício teve de ser desocupado para receber obras de reabilitação, num projecto promovido pelo Estado de Cabo Verde. Depois de concluído, o edifício do seminário foi devolvido à paróquia que o utiliza em parte como residência, enquanto as dependências principais prestam-se a serviços religiosos e socioculturais.

CP

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