OPINIÃO

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A independência anunciada por via literária — e na Catalunha? 14 Novembro 2017

A literatura de cariz nacional tem, nos contextos independentistas que emergiram desde o século XVIII na Europa e a partir do século XIX e XX nas suas ex-colónias, sido utilizada como meio para reivindicar a independência. Continuará a ser veículo adequado ao século XXI?

A independência anunciada por via literária  — e na Catalunha?

No século XXI, as identidades nacionais – por vezes integradas em estados multinacionais – têm de encontrar meios próprios de expressão. E esta é uma caminhada dura, como a História mostra, e muito incerta, como o nosso presente revela.

A questão catalã, tal como ela se configura no presente, tem suscitado muitas e contraditórias abordagens. Observadores e participantes entusiastas versus Observadores participantes cautelosos.

Do lado dos literatos do país, a sua classe intelectual que se expressa através da literatura, a divisão é nítida entre os que mantêm um silêncio, quiçá prudente, e os que de outro lado se posicionam pelo “statu quo”, o lado do mais forte. Cautela dos pró-Espanha e anti-independência.

Procurei por estes últimos meses, perceber como é que os escritores catalães mais em voga se posicionam sobre a independência e, logo, a crise que está a sacudir a Espanha.

Começo por me referir aos escritores mais em voga que se tornaram ícones nacionais e além -fronteiras ao recriarem, por via literária, um espaço catalão sui generis. O de Barcelona tornada cidade mítica.

“Barcelona cidade mítica” que me atrevo a emular à “Boa Vista ilha fantástica”, aliás com ‘Chiquinho’ a única obra da literatura cabo-verdiana traduzida em catalão (além do castelano).

Tão fantástica que antes de a visitar hesito. É que temia ver desmoronar essa visão literária por força da experiência real.

Javier Cercas arrasa independentistas: “é uma ficção narcisista”

“Escrevo de um dos lugares mais priviliegiados do mundo, a Catalunha”, que “nestes dois últimos meses parece às vezes decidida a suicidar-se entre a guerra civil e a ruína económica. A causa imediata desta loucura é um (auto)golpe de Estado” assim começa um dos autores mais lidos da Catalunha o seu testemunho publicado no ‘Libération’ de domingo, 5.

Para este autor, que acompanha o governo central na acusação de ‘golpe de Estado’, os independentistas ficcionalizaram uma Catalunha diferente da Espanha. Essa ficção expressa-se através de termos antitéticos que opõem a laboriosa Catalunha a uma Espanha opressora, sanguessuga dos recursos produzidos pelos catalães.

O silêncio dum autor favorito, Carlos Ruiz Zafón

O silêncio do talvez mais aclamado escritor espanhol da atualidade, um catalão que ambienta a sua obra na capital catalã. Uma Barcelona fantástica que surge envolta no manto diáfano da fantasia sob a ditadura franquista. Depois da guerra civil, os escombros estão um pouco por todo o. O mundo dos livros é o único escape do adolescente Daniel Sempere, o protagonista.

Meu favorito. Aliás, está nos primeiros lugares, às vezes primeiro, outras segundo, nas listas de preferências nas editoras do país e da capital catalã, que é a segunda mais laboriosa no universo editorial.

Descobri-o através da tetratologia “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, iniciada, em 2002, por “A Sombra do Vento” e concluída, este ano, com “O Labirinto dos Espíritos”. As tramas do mundo esplendoroso e mesquinho da literatura e seus bastidores — onde domina Mauricio Valls, o supervilão que tutela a Cultura — estão aí retratadas ao longo de mais de mil e quinhentas páginas.

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