OPINIÃO

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A propósito da destruição do edifício do Ex-Consulado Inglês, património. 31 Outubro 2017

Aqui entre nós, o Governo que tem responsabilidades na conservação do património histórico não toma posição, os Deputados ficam mudos e calados, os intelectuais e escritores ficam a ver a banda passar, os artistas fingem que nada de grave está a acontecer. Temos uma elite alheia às suas responsabilidades no processo de desenvolvimento do país.

Por: Maurino Delgado

A propósito da destruição do edifício do Ex-Consulado Inglês, património.

Em 1870 os serviços consulares já funcionavam nesse edifício.
Os Países desenvolvidos não destroem o seu património histórico. Seria inimaginável que um dia, um Presidente da Câmara de um município de um país desenvolvido, por uma infelicidade qualquer da vida, perdesse o juízo e resolvesse arranjar um projeto que destruísse o simbolismo histórico, a força identitária e a grandeza de um edifício e espaço como o do Ex-Consulado Inglês. Os protestos vindos dos vários sectores da Sociedade Civil seriam tantos que o homem acabaria por pedir demissão porque ficaria sem condições morais para governar.

Aqui entre nós, o Governo que tem responsabilidades na conservação do património histórico não toma posição, os Deputados ficam mudos e calados, os intelectuais e escritores ficam a ver a banda passar, os artistas fingem que nada de grave está a acontecer. Temos uma elite alheia às suas responsabilidades no processo de desenvolvimento do país.

Digo isso com toda a humildade de quem deseja o desenvolvimento do país e sabe que não estamos a fazer o melhor ou a exigir que façam o melhor, como é o caso da nossa passividade com o abandono e a destruição do património histórico.

Por que razão a Comunicação Social não promove o debate sobre as questões do património, convidando especialistas e pessoas conhecedoras da área, por exemplo, os ex-Ministros da Cultura, os historiadores, como o Doutor António Correia e Silva que tem distintos e muitos trabalhos sobre a história de Cabo Verde e do Porto Grande, para despertar no cidadão comum a consciência da importância do património histórico? Por que razão a Comunicação Social não confronta as Universidades, como espaços privilegiados do conhecimento, pela responsabilidade que têm no processo do desenvolvimento, ou porque elas não assumem o seu protagonismo?

Sinto-me a afundar num país subdesenvolvido, arrastado para uma vida difícil devido a nossa incapacidade coletiva de aproveitar os nossos recursos, com inteligência. Mas, se eu me sinto arrastado para dificuldades, qual não vai ser a vida daqueles que cada dia que passa vão ter maiores dificuldade de arranjar o pão nosso de cada dia? Há dias ouvia uma senhora a reclamar que levou o filho para os serviços de urgência do Hospital Baptista de Sousa e mandaram-lhe ir fazer uma ecografia numa dessas clínicas particulares e exclamava: “farto de miséria, onde é que eu vou arranjar dinheiro”!

Quando destruímos um património histórico dessa grandeza, é caso para se interrogar, estamos em condições de governar a nossa terra? Em exemplo paradigmático das nossas dificuldades de gestão: -Um amigo contou-me, após a mudança do regime recebeu um investidor estrangeiro que procurava oportunidades de negócio em Cabo Verde. À noite foi dar-lhe um passeio e ao passarem pela praia da Laginha/Matiota, o investidor viu os Armazéns de mercadorias da EMPA que tinham sido construídos não havia muito tempo. O homem pôs as mãos na cabeça e exclamou! Hó Guilherme! Vocês são doidos, como é que constroem armazéns num espaço nobre desses? Vendam-se esses terrenos! Isso aconteceu há mais de vinte anos e continuamos a cometer os mesmos erros. Destruímos um património histórico para no terreno construir um hotel. Isso é inimaginável num país desenvolvido. Alguém havia de travar o processo.

Eu não tenho dúvidas de que as próprias ruinas desse edifício valem milhares de vezes mais do que esse hotel que aí vai ser construído. (Diga-se para, separar as questões, que nada temos contra a empresa que conseguiu o contrato de conceção do espaço porque entendemos que a iniciativa privada empresarial deve ter todo o apoio institucional para desenvolver a sua atividade, porque as empresas fazem crescer a economia. Estamos é contra a falta de seriedade de uns e de competência de outros na gestão da coisa pública).

O património histórico tem potencialidades de impulsionar a industria do turismo que, por sua vez, tem capacidade de gerar emprego em hotéis, residenciais, bares, restaurantes, agências de viagem, guias turísticos, empresas de transporte e, consequentemente, faz mover e crescer a economia do País e das localidades.

É absurdo gastarmos tanto dinheiro e tempo a organizar e promover um fórum mundial sobre o desenvolvimento local, debitamos tantos discursos, os políticos entusiasmam-se, perdem a noção da realidade, fazem promessas mirabolantes e, no entanto, vamos destruindo as bases da nossa economia à volta do turismo, enquanto a pobreza cresce. Qual é o significado da palavra desenvolvimento para os nossos políticos?

A responsabilidade do desenvolvimento é coletiva, mas há aqueles que tem mais responsabilidades do que outros, aqueles que receberam a responsabilidade institucional de conduzir os destinos do país.

Estamos confrontados com o desemprego que é um grave problema social. Ou resolvemos isso ou todos nós, mais tempo ou menos tempo, vamos sofrer as consequências. Tenhamos essa consciência para agir depressa e se os políticos que temos não servem o processo do desenvolvimento. Vamos mudá-los, porque só o desenvolvimento nos poderá libertar da pobreza e dos graves problemas sociais que nos espreitam. Por uma cidadania ativa!

São Vicente, 25 de outubro de 2017

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