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A propósito da destruição do ex-Consulado Inglês - Património histórico II 06 Novembro 2017

Paradoxos das políticas de desenvolvimento da Câmara Municipal de São Vicente: - Enquanto um grupo de empresários preparava um roteiro para trazer turistas ingleses para São Vicente e esse património histórico era um dos pontos mais importantes desse roteiro turístico, a Câmara Municipal de São Vicente mandava destruir o edifício onde funcionava ex-Consulado Inglês. A Câmara Municipal lixou o negócio. Lixou-nos a todos!

Por: Maurino Delgado

A propósito da destruição do ex-Consulado Inglês - Património histórico  II

Destruir um espaço com a força identitária, o valor histórico e turístico do edifício do ex-consulado inglês, isso é de um país atrasado, subdesenvolvido.
O nosso património histórico é uma mina de ouro inesgotável, uma riqueza que estamos a destruir, impensadamente!

Um dia São Vicente vai chorar amargamente os seus monumentos históricos!
O Dr. José Almada Dias, um conhecido estudioso das questões do turismo e que já escreveu muito sobre o tema escreveu no jornal expresso das Ilhas:
“Não há turismo de qualidade sem o envolvimento da história e da cultura. O turismo do futuro será o turismo das cidades, segundo os grandes especialistas mundiais. A comprovar essa tese defendida em 2003 na Cimeira Mundial do Turismo, os maiores spots mundiais do turismo são cidades, como Paris, Londres, Roma, Veneza, Nova Iorque, etc.”

Eu não sou um especialista na área, mas eu sei o que é um património histórico, eu sinto o património.

Pisar as ruinas do ex-consulado inglês não é o mesmo que pisar um bar do hotel que vai ser construído naquele espaço. O espaço passa a ser privado, perde o seu valor histórico, a sua força identitária, deixa de ser um ponto de atração turística e um elo de ligação entre o povo cabo-verdiano e o povo inglês.

Os muitos milhares de descendentes de ingleses que viveram e trabalharam em São Vicente, gostariam um dia de pisar as ruinas do Ex- consulado inglês e não é pouca gente, porque os ingleses estiveram em São Vicente mais do que um século. Chegaram de estar a residir em São Vicente, como funcionários das companhias inglesas, mais de cem, só de homens solteiros.

Paradoxos das políticas de desenvolvimento da Câmara Municipal de São Vicente: - Enquanto um grupo de empresários preparava um roteiro para trazer turistas ingleses para São Vicente e esse património histórico era um dos pontos mais importantes desse roteiro turístico, a Câmara Municipal de São Vicente mandava destruir o edifício onde funcionava o ex-consulado inglês. A Câmara Municipal lixou o negócio. Lixou-nos a todos!

A Câmara Municipal que devia promover o desenvolvimento económico desta Ilha, pega de um espaço rico de história que abarca muitas gerações e duas nações - Cabo Verde e Inglaterra, e também o mundo, porque barcos de todo o mundo passavam por este Porto-, manda destruí-lo para no terreno se construir um hotel. Só de atrasados!

Faz lembrar uma história que o meu amigo Guilherme contou-me. O Guilherme, era um quadro superior das empresas do Estado, foi participar num seminário de quadros, num desses países de Africa. Aconteceu que o Presidente da República do país anfitrião veio falar aos participantes desse seminário sobre os constrangimentos do desenvolvimento em Africa e a dado passo diz o Presidente: – “ Sabem, porque é que nós somos subdesenvolvidos? Vou dar um exemplo: – Se se oferece um pedaço de aço a um africano, ele faz uma flexa ou uma enxada, para caçar ou cavar a terra; – Se se oferece uma barra de aço a um Suíço ele faz relógios que vende por muito dinheiro. Isso faz toda a diferença no processo do desenvolvimento”.

É o que acontece connosco. Temos um edifício histórico que vale ouro, destruímo-lo para aproveitar o terreno. Indiscutivelmente, também somos atrasados, subdesenvolvidos, não temos capacidade de promover o nosso desenvolvimento e nem de governar a nossa terra, porque governar é saber aproveitar as potencialidades económicas do país com inteligência, para beneficiar a todos.

Podíamos ganhar muito dinheiro com o turismo cultural se mudássemos de política, salvaguardando e conservando o património histórico, estimulando toda a atividade económica à sua volta. Mas não estamos com capacidade para fazer isso. Deixamos que os interesses da maioria sejam capturados por uma minoria.

Um guia turístico contou-me que acompanhou um grupo de turistas judeus que se deslocou à Santo Antão para visitar o cemitério dos Judeus na Ponta do Sol.

Acontece que a porta do cemitério estava fechada com uma corrente e um cadeado e não havia ninguém próximo que pudesse permitir abrir a porta. Um dos integrantes do grupo insistiu que tinha que entrar no cemitério porque lá dentro tinha os seus antepassados, ele sentia que estavam lá, o seu avô tinha-lhe dito isso.

Dirigiram-se à Câmara Municipal pedindo que queriam visitar o cemitério e foram informados que só o Vereador da Cultura podia autorizar a visita. O Vereador da Cultura não estava presente, esperaram mais de quarenta minutos sem que ele aparecesse. Um dos integrantes do grupo sugeriu: vamos a uma loja compramos, um cadeado, uma corrente e uma serra, cortámos a corrente que lá está, entramos para visitar os túmulos dos nossos antepassados, fechamos a porta e entregamos as novas chaves à Câmara.

Este exemplo, de um lado, demonstra a força da identidade de um povo, todo o esforço que o grupo de judeus fez para visitar os seus antepassados no cemitério de judeus na Ponta do Sol, de outro demonstra o desinteresse da Câmara com as questões do desenvolvimento do Município. É uma oportunidade de negócio, em que podemos ganhar muito dinheiro, mas ainda não nos acordamos para a necessidade de sair da condição de pedintes e de libertar o nosso povo da pobreza.

Eu sou de Santo Antão e sempre que tenho a oportunidade de conversar com um guia turístico, para eu testar o interesse e a iniciativa dos autarcas da minha ilha nessa questão do turismo, há uma pergunta que faço sempre: -As Câmaras Municipais alguma vez tiveram a iniciativa de se reunirem com os guia turísticos para ouvir os seus problemas, escutar as suas propostas, a resposta é sempre não!

Eu, se fosse um Presidente de alguma Câmara, havia de me reunir. pelo menos, uma vez por mês com os guias turísticos, para me informar da situação dos turistas que visitam o meu Concelho, para estar atento aos problemas que existem ou possam surgir, para promover a sua resolução, estimulando essa importante atividade económica, para combater o desemprego e promover o desenvolvimento sustentável.

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