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Abate de tartarugas no Fogo e ilhéus do Rombo: Ambientalistas indignados com matança da espécie caretta-caretta 31 Agosto 2016

Responsáveis do “Projeto Vitó”, vocacionado para a preservação e conservação das tartarugas marinhas na ilha do Fogo e Ilhéus do Rombo, estão preocupados com o aumento do abate desta espécie em vias de extinção. Paulo Pina, um dos dinamizadores e coordenador da iniciativa, revelou a este semanário que há registo de capturas e matanças de um número considerável da espécie caretta-caretta, facto que, segundo diz, mostra que as medidas adoptadas em Cabo Verde para a defesa desses animais têm sido insuficientes. “Devemos relembrar que Cabo Verde tem a terceira maior população do mundo das tartarugas, sendo ultrapassada apenas pelos Estados Unidos da América e Omã (Golfo Pérsico)”, frisa Pina para mostrar o papel que este arquipélago joga na sobrevivência das tartarugas a nível mundial.

Abate de tartarugas no Fogo e ilhéus do Rombo: Ambientalistas indignados com matança da espécie caretta-caretta

Segundo este ambientalista, as medidas de conservação actuais prevêem a protecção e monitorização das praias com recurso ao voluntariado e autoridades diversas, mas isso não tem impedido actos de crueldade sistemática contra a sobrevivência das tartarugas. Como diz, nas últimas semanas tem havido uma forte afluência das tartarugas caretta-caretta às praias da ilha do Fogo e dos ilhéus do Rombo, mas tem aumentado também o nível de captura. “No passado fim-de-semana, a nossa organização esteve de visita aos ilhéus, acompanhada da Polícia Nacional, e constatámos in loco muitas carcaças de tartarugas abandonadas, o que nos leva a crer que as pessoas estão a caçá-las desenfreadamente e sem terem a noção da sua importância para a biodiversidade e os ecossistemas terrestre e marinho. Aliás, quanto maior a afluência das tartarugas nas praias sem vigilância, maior é a probabilidade de caça”, aponta.

De acordo com Paulo de Pina, as praias de Fonte Bila, Nossa Senhora da Encarnação, Salinas, Tinteira e Mosteiros, na ilha do Fogo, são as mais visitadas pelas tartarugas, pelo que, na sua opinião, merecem ser vigiadas com mais rigor. Entretanto, frisa que a falta de verbas dificulta o destacamento de vigilantes voluntários para esses locais.

Apesar da legislação criada no país, Pina critica a impunidade para quem mata as tartarugas para consumo. Para ele, isso significa que as leis não passam de “letra morta”. Este responsável de projecto esclarece que os parceiros e os ambientalistas que lutam contra o abate das tartarugas não sabem mais o que fazer “porque os indivíduos que as caçam são às vezes apanhados e soltos, sem serem criminalmente responsabilizados.” “Infelizmente, as autoridades judiciais não se mostram capazes de criar mecanismos próprios para que determinadas leis sejam efectivamente cumpridas no país”, critica a nossa fonte.

A Polícia Nacional, segundo Pina, tem dado o seu contributo nas campanhas de protecção das tartarugas, disponibilizando os seus agentes fiscais. Estes, salienta o ambientalista, já surpreenderam vendedores de carne em flagrante por diversas vezes. Para ele, isto acontece porque há quem compra, sinal de que a sociedade cabo-verdiana ainda não se consciencializou sobre a importância da preservação dessa espécie marinha. O preço da carne varia entre 300 e 1000 escudos o quilo”, informa.

Outros ambientalistas contactados por este semanário, e que pediram anonimato, alertam que, se Cabo Verde continuar sem capacidade de aplicar a lei, pode ver a sua imagem internacional em causa. É que o arquipélago recebe milhares de contos para projectos de preservação ambiental, mas, segundo essas fontes, o dinheiro não é utilizado de forma racional e digna.
Nas ilhas, sobretudo Fogo, muitos consideram que a captura e venda destes cetáceos acontecem como forma de aumentar o rendimento familiar, num contexto em que ainda há muita procura desta carne pelos consumidores. Por essa razão os ambientalistas defendem uma abordagem socioeconómica na região sobre o tema.

Para pôr cobro a esta situação, o “Projecto Vitó”, em parceria com a Agência Marítima e Portuária, a Polícia Nacional e o Instituto Nacional para o Desenvolvimento das Pescas (INDP) têm realizado periodicamente acções de sensibilização junto das escolas do EBI e secundárias, como palestras, concursos de desenhos e composições sobre o tema, com a finalidade de preparar as novas gerações para a preservação e conservação do meio ambiente.

A esse propósito, Pina aproveita a ocasião para exortar o Governo para rever a lei que criminaliza a captura, venda, consumo da carne e ovos e a destruição do habitat das tartarugas marinhas, já que só a sensibilização será insuficiente para acabar com esse problema.

Recorde-se que as tartarugas marinhas são espécies que existem há mais de 150 milhões de anos e, segundo estudos, de cada mil que nascem, apenas uma consegue chegar à idade adulta.

Celso Lobo

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