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Adegas CHÃ e Sodade sem meios para processar fartura de uva 17 Agosto 2016

As adegas de vinho das marcas CHÃ e Sodade, na ilha do Fogo, estão em sérias dificuldades no tocante ao espaço disponível para receber e processar a farta produção de uva deste ano. Por isso, grande quantidade de uva corre o risco de apodrecer no campo. Entretanto, a adega da marca CHÃ aguarda com alguma expectativa a chegada de equipamentos para a instalação de uma unidade provisória com maior capacidade. No entanto, para o presidente da Associação de viticultores de Achada Grande-Relva, que produz a marca Sodade, há “discriminação” por parte do Governo, que os abandona à sua sorte ao decidir instalar apenas uma adega provisória na zona de Chã, que vai beneficiar a empresa CHÃ. Além da perda de parte da uva, perspectiva-se uma baixa também na produção de vinho nas duas adegas. Repete-se o cenário na adega de “Maria Chaves”. Mas enquanto estes lamentam, a sorte sorri aos fabricantes do vinho caseiro “manecon” famoso pelo seu aroma forte e cor intensa.

Adegas CHÃ e Sodade sem meios para processar fartura de uva

O espaço utilizado actualmente pela adega de Chã tem uma capacidade para cerca de 45 por cento do fabrico de vinho. Face à duplicação da produção de uva neste ano, espera-se medidas urgentes, tais como a instalação dos equipamentos da adega provisória com maior capacidade para salvar toda a produção dos agricultores de Chã. Caso contrário, uma grande quantidade de uva poderá ficar estragada no campo.

Há algum tempo que a associação dos viticultores prepararam o espaço e aguardam a chegada de tais equipamentos para a adega provisória. Para David Monteiro, presidente da Associação dos Viticultores de Chã das Caldeiras, é de extrema urgência a “montagem da adega provisória” que aos viticultores proporcionará meios para salvarem a produção deste ano. “Há garantias de que tais equipamentos foram adquiridos nas Ilhas Canárias e já se encontram no país”, afirma David.

Enquanto isso, a adega CHÃ providenciou a chegada de quatro barris com capacidade para 25 mil litros. “Mas falta-nos o referido espaço físico e outros equipamentos. Temos feito um esforço enorme para receber toda a produção dos viticultores de Chã, mas não tem sido possível”, observa ainda David. Mesmo assim, a estratégia da adega é recolher a uva branca, nesta primeira fase, depois arrancar com a apanha de uva preta. “Até lá, deve estar instalada a adega provisória”, prognostica.

Espera-se também o início das obras da nova adega/cooperativa, com capacidade para 500 mil a um milhão de litros de vinho e que deverá custar mais de 700 mil contos (6,5 milhões de euros). A construção física será edificada no interior da Caldeira, no espaço identificado pelos produtores.

Sodade acusa Governo de discriminação

O presidente da Associação de Viticultores de Achada Grande-Relva (Sodade),Eduíno Lopes, diz estar aborrecido com a decisão do Governo em “instalar apenas uma adega provisória em Chã, mesmo sabendo que o espaço, onde era feito todo o tratamento de uva dos nossos associados, foi engolido pelas lavas da última erupção”.

Diz aquele responsável que o governo foi injusto neste aspecto. “Devíamos também ser beneficiados. A marca Sodade foi largada à sua sorte. Vivemos uma situação dramática. Construímos um pequeno espaço para a recolha e tratamento de uva em Chã, mas não oferece as condições mínimas de trabalho. Perspectiva-se perda de milhares de quilos de uva dos proprietários filiados na nossa organização. Tudo isso, um pouco por culpa do Governo”, desabafa.

Outra preocupação de Eduíno é a escassez de água. Uma situação que quer ver ultrapassada. Já David Monteiro garante que a adega CHÃ tem feito um esforço enorme para recolher uva de todos os agricultores com propriedade dentro da Caldeira, “mas infelizmente não tem sido possível, devido à falta de meios”.

Mais uva e menos vinho no mercado

Mesmo com as dificuldades mencionadas, decorre a vindima – época de colher as uvas para venda nos mercados nacionais – e a campanha de vinificação. Até aqui já foram colhidos mais de 20 mil quilos de uva para fabricar o vinho da marca Sodade. Ainda assim, Lopes conta que está por recolher mais do dobro da produção de uva prevista.

Com menos uva recolhida, cai também a produção de vinho. Daí que neste ano só poderá colocar no mercado uma média de 16 mil garrafas de 0.75 litros de vinho – tinto e branco, longe da produção dos anos anteriores em que atingiram 40 mil garrafas em média por ano.

A adega do vinho de marca CHÃ perspectiva um total de 50 mil garrafas de vinho, uma produção que é menor em relação aos outros anos. Em causa está a falta do espaço para o processamento das uvas. Dos mais de 140 mil quilos de uvas da colheita, cerca de 75% é de uva branca, o que significa que haverá menos vinho tinto este ano. O “vinho branco tem maior saída”, afirma David Monteiro, realçando que, mesmo havendo falta de meios e incerteza sobre a capacidade de processar a produção, a adega irá, nos próximos dias, acolher toda a uva preta que os agricultores produziram.

Também este ano a empresa vinícola “Maria Chaves” baixou a sua produção. Calcula-se que estará no mercado uma média de 40 mil garrafas de 0.75 litros de vinho – tinto e branco. Mesmo assim, está muito longe da produção registada nos anos anteriores: 50 mil a 65 mil garrafas. Este ano, a “Maria Chaves” não comprou uva aos agricultores de Chã das Caldeiras. É a primeira consequência da baixa de produção. Anna Bonnamico, responsável pelo projecto da Associação de Solidariedade Social (ASDE), explica que não houve manifestação de interesse dos agricultores em vender a uva. Também o preço praticado por cada quilo de uva “não compensa” à “Maria Chaves”.

Manecon ganha mercado

Face a essas situações, os produtores apostam no fabrico do vinho caseiro Manecon. Aliás, está a conquistar terreno no mercado nacional e internacional, tornando-se num negócio rentável. Mais sofisticado e um pouco mais depurado, o Manecon ganhou uma nova roupagem – agora passou a ser engarrafado. Calcula-se que este ano a produção ultrapasse os 50 mil litros.

Um aumento que responde também a uma maior demanda. Muitos são os que hoje não dispensam esse vinho produzido em casa pelos homens de Chã das Caldeiras, Relva-Achada Grande e outras zonas altas da ilha do Fogo. Cada litro de Manecon oscila entre os 400 e os 600 escudos. O consumo do Manecon é mais local, mas não pára de ganhar apreciadores nas ilhas de Santiago e Sal.

Vindimas dão trabalho a muitos

A época das vindimas no Fogo constitui uma oportunidade de trabalho para muitos desempregados, estudantes, jovens ou donas de casa, que batem à porta das adegas e dos proprietários de terrenos a procurar emprego.

Por estes dias de apanha, de transporte de uvas, de fabrico e engarrafamento de vinho e colocação de etiquetas, a adega Chã tem garantido trabalho a uma média de 25 pessoas. "Temos ainda muitos pedidos de pessoas que querem trabalhar connosco", afirma David Monteiro.

Também a pequena instalação da adega “Sodade”, na zona de Chã, garante trabalho a cerca de 20 pessoas nesta época. Do mesmo modo se pode dizer que a Adega Maria Chaves também proporciona emprego a dezenas de pessoas durante a fase de colheita.

Por: Nicolau Centeio

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