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AfroReggae: "O jovem cabo-verdiano acredita na transformação" 22 Agosto 2014

Acrobata e palhaço. Talvez Sandro Moreira, de 25 anos, nunca tivesse pensado nesta alternativa profissional. Mas desde que o AfroReggae desembarcou em Cabo Verde com tambores e pernas de pau, há 11 meses, a vida circense revelou-se para Silva, morador em Tira-Chapéu. O mesmo bairro da Praia onde se concentram os outros 22 jovens que sonham com um projecto comum: montar uma cooperativa artística vocacionada para animação de festas. Entre ensaios e reuniões, os mambembes já fizeram a sua estreia em público, levando para São Martinho e Bela Vista, números de animação criados por conta própria. A boa aceitação popular já rendeu, segundo Sandro, "alguns convites" para que o grupo volte a actuar mas "ainda estamos a estruturar-nos", completou o jovem. O próximo passo é crescerem em termos empresariais, determinando, por exemplo, preços e formas para a divisão dos lucros oriundos das actuações.

AfroReggae:

A directora do Centro Cultural Brasil Cabo Verde (CCB-CV), Marilene Lopes, é uma entusiasta das intervenções e da herança que o grupo brasileiro está a deixar na comunidade jovem da periferia da Praia. “Se esses meninos ganharem mais técnica e se fortalecerem na liderança poderão garantir uma actividade que seja não só, ocupação do tempo ocioso, mas também uma fonte de renda fazendo coisas maravilhosas. Imagine esses malabaristas no interior da ilha de Santiago? Alguns grupos, inclusive, já procuraram o CCB-CV para apoiarmos essas ideias”, revela.

Elevar o espírito de jovens

Conhecido mundialmente pelos seus trabalhos de recuperação da auto-estima juvenil em áreas degradadas e violentas, o AfroReggae já passou por vários pontos do globo como, China, Índia e Colômbia. Em Cabo verde tornou-se a primeira ONG do mundo a adoptar um índice de medição de pobreza para traçar as suas medidas de apoio e intervenção, naquilo que pode ser considerado quase que como uma assistência personalizada.

Para a voluntária do Escritório Comum de Protecção à Criança das Nações Unidas, Alazais François, o projecto encabeçado pelo AfroReggae é inovador não só porque promove actividades artísticas, mas também porque monitoriza os riscos sociais e familiares dos jovens atendidos. "Além disso, essa proximidade com os jovens permite também identificar talentos", vinca.

Nascida na favela do Vigário Geral, depois da chacina que matou dezenas de civis inocentes, em 1993, o AfroReggae surgiu para elevar o espírito de jovens e crianças logo após o trauma local. Bruna Camargos, coordenadora de projectos do AfroReggae, lembra que, a exemplo do que aconteceu em "Vigário", no Rio, os trabalhos de intervenção artística permitiram que a comunidade da zona norte da cidade "saltasse dos boletins policiais dos jornais, directamente para os cadernos de cultura do Brasil. História que parece repetir-se em Cabo Verde. Alguns bairros, antes convencionados como reduto de delinquentes e "thugs", começam agora a ser revistos também como celeiros de jovens em processo de formação artística", orgulha-se Bruna.

Morador de Safende, o grafitter e estudante João Marcos Tavares, de 18 anos, entusiasma-se ao falar da sua aprendizagem com o AfroReggae. Em Maio, um grupo de jovens, encabeçados pelos integrantes do AfroReggae, partiram para a rua com latas de sprays e desenhos geométricos para promoverem o "Dia de colorir a cidade", intervenção urbana destinada a revitalizar alguns pontos cinzentos do bairro. O que acabou por despertar conceitos diferentes na população local. "Antes as pessoas falavam que graffiti era coisa de vândalo. Agora elas querem que a gente faça isso também na casa delas. Queremos mostrar que grafite também é arte", conta Tavares, com ensejos de dar continuidade ao trabalho "apesar das tintas serem caras".

A arte é apenas a pegada

Em entrevista ao asemanaonline, o coreógrafo e coordenador pedagógico do AfroReggae, Johayne Hidelfonso, faz questão de lembrar que “a arte neste projecto é apenas a pegada, a porta de entrada dessa moçada no AfroReggae. Usamos a arte para falar de escola, de respeito à família, de sexualidade, de higiene pessoal. A nossa missão não é, necessariamente, formar artistas. Além disso, o nosso trabalho é desenvolvido de acordo com as necessidades dessas crianças e adolescentes que atendemos”, pontua o líder do grupo.

Para a especialista do Escritório Capital Humano do Sistema das Nações Unidas, Nélida Rodrigues, o grande desafio agora é conseguir dar sustentabilidade a este projecto, com mais financiamentos e patrocinadores, para que os ganhos alcançados até aqui não se percam. “Para nós está mais do que claro que vale a pena investir nesses adolescentes e crianças em Cabo Verde. A resposta é imediata. Eles aceitam os desafios. Com o investimento humano, a capacitação e a atenção certa, é possível transformar a vida destes jovens. O problema é que, à medida que vamos aprofundando na assistência, mais problemas surgem. E nossa frustração é exactamente não conseguir garantir tudo que eles necessitam: comida e escola, por exemplo”.

Retorno do AfroReggae

Em Setembro, o AfroReggae desembarca em Cabo Verde pela última vez para cumprir a quarta etapa das oficinas, que primam também pela formação de multiplicadores para que o trabalho não se perca.

A Directora Geral da Juventude, Armanda Prado, confessa que ainda não há recursos previstos para a manutenção do projecto previsto para terminar em Setembro deste ano. “Temos de procurar novas parcerias para dar continuidade a este programa. Mesmo que seja em novos moldes, com outros ministérios, envolvendo a Educação, a Saúde, a Administração Interna. Até porque a juventude é uma tema transversal e sabemos que há o envolvimento total desses jovens. Sobretudo dos multiplicadores, que estão engajados não só na realização das actividades, mas na própria gestão do projecto”, avalia.

"Vale a pena investir neste jovens"

Para a especialista do escritório Capital Humano do Sistema das Nações Unidas, Nélida Rodrigues, o grande desafio agora é conseguir dar sustentabilidade a este projecto, com mais financiamentos e patrocinadores, para que os ganhos alcançados até aqui não se percam. “Para nós está mais do que claro que vale a pena investir nestes adolescentes e crianças em Cabo Verde. A resposta é imediata. Eles aceitam os desafios. A nossa frustração é ainda não conseguimos garantir a perenidade deste projecto, para que essas intervenções se tornem de facto sustentáveis”.

O líder do AfroReggae, Johayne Hidelfonso, com vasta experiência em periferias do mundo, diz que "o jovem cabo-verdiano é muito parecido com o indiano. Tem uma pureza incrível. Acreditam na transformação. Nos nossos primeiros 20 dias de trabalho já tínhamos em mente quais os jovens que íamos escolher para se tornarem multiplicadores na sua comunidade. Mas para nossa surpresa, 60 quiseram assumir esta responsabilidade”, explicou.

Para incentivar os jovens pupilos do AfroReggae, a Embaixada do Brasil em Cabo Verde e o Centro Cultural Brasil-Cabo Verde permitiram que os jovens grafitassem nos portões e nas paredes do órgão diplomático desenhos de expressão local. O embaixador do Brasil, João Inácio Padilha, diz que “está a reunir experiências interessantes em Cabo Verde. Por isso, queremos que isso se expanda para o restante do país, e, no futuro, se torne também um projecto piloto para África”, sugeriu. “A tecnologia social do AfroReggae é reconhecida em todo o mundo. Por isso, vamos tentar sensibilizar a iniciativa privada, inclusive fora do país, para buscarmos novas formas de financiamento”, adiantou Padilha.

Os patrocínios são muito aguardados por jovens como o líder comunitário de Achada Grande Frente, o Kundá - atendido pelo Projecto Simenti. Apoiado pelos amigos Jorge, Piquito e Patrick, Kundá restaurou e ocupou um prédio abandonado no bairro, antes usado para deitar lixo e como ponto para consumo de drogas. Uma das últimas proposições do grupo era promover aulas de reciclagem de palhetes, para fabricação de mesas e bancos, e também produção com bijuterias. Nas paredes do projecto Simenti, as figuras e os dizeres de Amílcar Cabral, o herói da independência nacional dão o peso da ideologia seguida por estes jovens.

Bárbara Camargo

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