SOCIAL

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Água canalizada e potável: A grande reivindicação da Boa Vista 29 Julho 2014

Sal-Rei, a capital da ilha Boa Vista, cresce a um ritmo assustador, impulsionada sobretudo pela enorme pressão exercida pelos imigrantes à procura de trabalho principalmente no sector turístico. A população que triplicou na última década tem no abastecimento de água potável um sério desafio. Toda a zona de expansão urbana na cidade – Bairro de Bom Sossego Novo e Estoril – ainda não tem acesso à rede pública de distribuição de água. As autoridades alegam constrangimentos técnicos – o já gigantesco Bairro Boa Esperança (Barraca) é um quebra-cabeças de difícil solução. Os outros povoados da ilha ainda dependem todos de auto-tanques e chafarizes que, além dos custos que acarretam à autarquia, também trazem despesas avultadas e constrangimentos diversos às famílias. Os que têm menos posses são os mais afectados.

Água canalizada e potável: A grande reivindicação da Boa Vista

Os números do Gabinete Técnico da Câmara Municipal da Boa Vista apontam para cerca de 500 fogos por ligar à rede pública de abastecimento de água só nos novos bairros de Bom Sossego Trás e Estoril. Ainda não há data para tal acontecer. Assim, até lá pagam quatro vezes mais que os outros moradores da cidade pela mesma quantidade de água, da mesma qualidade.

A consequência

A consequência directa disto é o tráfico de água feito por carrinhas que vendem o precioso líquido a 1200 escudos/tonelada. Um preço demasiadamente alto: quatro vezes mais caro que a água canalizada. Mais, a cidade de Sal-Rei tem um único chafariz, que, segundo o vereador das infra-estruturas do município da Boa Vista, Xisto Baptista, abastece “suficientemente” o bairro de Santa Barbara, onde está localizado, e as pessoas que se deslocam do bairro da Boa Esperança (Barraca). E os moradores do Monte Sossego Novo, não precisariam também de um fontenário? Não tendo 1200 escudos para comprar uma tonelada de água têm que se deslocar cerca de meio quilómetro para ter acesso a esse bem vital?

Que motivos teria a empresa de Água e Energia da Boa Vista para fazer esse grande investimento na rede de distribuição pública, quando as carrinhas que lhe compram água para revender pagam cerca de 700 escudos por tonelada? Se a empresa vendesse a mesma quantidade de água através da rede pública ganharia menos que metade (291 escudos a tonelada para consumo igual ou inferior a seis toneladas). Mas a necessidade de água supera qualquer outra. Fornecida em auto-tanques ou através da rede pública, todos precisamos de água para beber, fazer a higiene pessoal, cozinhar, limpar.

As explicações da AEB quanto ao caso de Sal-Rei

Waldir Alves, assessor jurídico da Água e Energia da Boa Vista (AEB), afiança que a única razão que impede a empresa de ligar o Bairro de Bom Sossego Trás à rede pública de abastecimento “é um ponto de ruptura na conduta deste bairro que está a provocar grande perda". Segundo Alves, a AEB pretende contratar uma empresa especializada neste tipo de serviços para identificar o ponto de fuga, um processo que pode demorar.

É que a AEB, apurou A Semana, sequer contactou a dita empresa. Isto, sem contar a morosidade natural deste tipo de trabalho sobretudo quando, na ausência dos equipamentos adequados a solução é escavar cada palmo de terra para encontrar o cano faltoso.

Desde quando a AEB sabe desta fuga? Por quê Bom Sossego Trás ainda está sem água canalizada, um bairro construído há mais de cinco anos e cujos moradores já perderam a conta às vezes que escreveram aos serviços competentes para ter água? Por que motivo até agora esta empresa que tem como objectivo abastecer os boavistenses sequer contactou a empresa para resolver a dita fuga? O elevado custo de vida ao qual está sujeito quem mora na Boa Vista tem também que incluir a água que é um bem primário? Quais as responsabilidades do poder autárquico? Quais as do Governo? Quais pertencem ao AEB?

O Caso Estoril

Uma parte do Bairro de João Cristóvão, mais conhecido por Estoril, já está ligada à rede pública de distribuição de água, mas falta ainda ligar 40 casas que abrigam aproximadamente 120 fogos habitacionais, todos eles destinados à dita classe média-alta/alta da Boa Vista. Isso, sem contar os empreendimentos turísticos que vão surgindo. Ao bairro do Estoril, acresce-se ainda o Centro de Saúde da ilha que também não está ligado à rede.

A AEB informa, através do seu departamento jurídico, que vai contactar a Câmara Municipal com o objectivo de solicitar o Plano Urbanístico deste bairro com grande potencial de crescimento, e que num futuro próximo será um dos mais valorizados da ilha, e as respectivas orientações do Gabinete Técnico no sentido de definir o melhor trajecto da rede.

Entretanto investidores e proprietários desta já significante área urbana enfrentam sérios problemas de água. No período das chuvas (que já se avizinha) quando o acesso ao bairro transforma-se numa arriscada operação anfíbia, as vias enchem-se de água por alguns dias agravando assim os frequentes problemas de acessibilidade ao bairro que ainda não dispõe de estradas e onde a areia é um constante entrave para as carrinhas de abastecimento, que não têm tração às quatro rodas.

Barraca

Mas é na Barraca que o problema de distribuição de água é mais sério. Este bairro habitado maioritariamente por imigrantes da Costa de África e por pessoas das outras ilhas do país (a grande maioria de Santiago) só tem um chafariz que funciona no horário normal da administração pública, mas a água acaba normalmente muito antes, fazendo com que muitos se desloquem ao chafariz de Santa Bárbara. As filas à porta do chafariz de Barraca são enormes, muito antes de as torneiras começaram a libertar o líquido precioso. A maioria das pessoas deste bairro trabalha nos hotéis e com horários rotativos. Por causa disso, muitas não conseguem apanhar sequer um pingo de água no chafariz.

Problema para uns, oportunidade de negócio para outros

Azar de uns, sorte de outros. Há quem diga que a crise desperta o engenho. Na Boa Vista, o problema de abastecimento de água proporcionou uma oportunidade de negócio para muitos no bairro da Barraca. À porta das suas casas, vendem água colocada em recipientes de uma tonelada. Para quem não têm horas para chegar, é uma boa solução. E como preço varia segundo a lei da oferta e da procura, em épocas de crise de água, um vasilhame de 25 litros custa cerca de 100 escudos nestes revendedores. Contas feitas, a mesma tonelada de água comprada por 1200 escudos, valerá quatro contos na “rabidância” – um ganho de 2800 escudos por tonelada.

Bom negócio para quem vende, no entanto uma opção difícil de sustentar no caído das pessoas que ganham na sua maioria menos que 30 contos mensais! É que pagando 100 escudos por um vasilhame de 25 litros estes labutadores têm no mínimo que garantir três mil escudos para um boião por dia.

Outro problema desta água que custa os olhos da cara é a salubridade. Os reservatórios onde a água é armazenada são colocados na rua, debaixo de sol e sem grandes garantias de saneamento.

O presidente da Associação Comunitária Unidos pela Boa Vista (ACUB) Lamine Fati, relatou ao A Semana “a enorme frustração e injustiça que estes coitados passam”. Para este líder associativo, a situação da água consumida na Barraca não é digna de um país como Cabo Verde. Mais, vê nesta “maratona da água” uma falta de consideração para com pessoas honestas que contribuem diariamente com longas e pesadas jornadas de trabalho para o desenvolvimento da ilha e do turismo no país. Por isso, diz, merecem pelo menos, maior consideração no acesso à água potável “que é um bem de primeira necessidade”.

O caso de Rabil

Rabil, embora até agora muito mal servido em matéria de abastecimento do líquido precioso, vai ter o seu problema resolvido em Novembro próximo com a ligação de 250 casas à rede. Os habitantes daquele que é o segundo maior povoado da ilha das Dunas vão por fim ver atendida uma antiga reivindicação. A garantia foi dada recentemente pelo autarca boavistense, José Pinto Almeida, que confirmou essa intenção com o lançamento, a 3 de Julho, da primeira pedra da obra de extensão e ampliação da rede pública de água. Os trabalhos deverão durar quatro meses.

Em declarações ao A Semana, o vereador das infra-estruturas do município da Boa Vista, Xisto Baptista, afiançou que a obra de abastecimento de água de Rabil era uma grande preocupação da edilidade que agora vai ser sanada graças ao co-financiamento do Governo, através do Ministério do Ambiente.

A população de Rabil tem vindo a abastecer-se de água nos fontenários. Além dos elevados custos da água, têm de arcar com os custos do transporte, que para os mais carenciados é mesmo “em cima do corpo”. Daí muitos optarem por comprar a água dos auto-tanques que prestam esse serviço por pouco mais de 1000 escudos a tonelada – mais barato que em Sal-Rei dado ao facto de a localidade ficar mais próximo das instalações da AEB.

O caricato da situação de Rabil é que é atravessado há anos por uma conduta de água que até agora, por falta de vontade ou meios, não serviu para nada, pois não jorrou uma só gota de água na torneira.

Povoação Velha

Outra localidade na Boa Vista com problemas de abastecimento de água é Povoação Velha, no sul da ilha, perto da famosa Praia de Santa Mónica. Xisto Baptista garante que, com as obras de reparação de duas galerias – arrancaram há três semanas e devem durar 45 dias –, o problema vai ficar resolvida. Segundo o vereador, com a reparação das galerias situadas nas encostas da “Rotcha de Stancha” o povoado tornar-se-á praticamente auto-suficiente no que toca a abastecimento de água, com qualidade até para ser bebida.

Até lá o povoado continua a ser atendido pelos auto-tanques da Câmara Municipal que abastecem o chafariz. Entretanto, aqueles que compram a água à tonelada, pagam a impressionante quantia de 1500 escudos por metro cúbico.

Os outros povoados

A localidade de Estância-de-Baixo, à semelhança do Norte (João Galego, Fundo das Figueiras e Cabeça dos Tarafes), está ligada a uma rede pública de abastecimento de água. Mas o líquido que de lá sai é de “qualidade inferior”. A água, que é bombada dos furos de captação e introduzida na rede, só é usada para consumo doméstico. A água para consumo humano (para beber) é transportada nos auto-tanques directamente dos reservatórios da AEB para os chafarizes.

O caso de Bofareira é contudo mais complicado porque depende directamente da disponibilidade dos auto-tanques que a transportam, três vezes por semana. A água é armazenada num depósito e posteriormente distribuída na rede pública da localidade. No entanto, o processo é custoso, afiança Xisto Baptista.

Há anos que a ilha da Boa Vista enfrenta problemas de abastecimento de água potável. O grande desafio é como abastecer correctamente a terceira maior ilha do país em termos de extensão e com povoados muito dispersos com água própria para consumo e a um preço justo e igualitário para todos os seus habitantes, salvaguardando sobretudo os direitos dos mais “carenciados”. Afinal, estamos a falar de um dos objectivos do Milénio.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau