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Ameaça de peixe-leão em Cabo Verde 30 Mar�o 2014

A eventual presença do peixe-leão (lion-fish) nos mares de Cabo Verde está a colocar a comunidade científica cabo-verdiana em estado de alerta. O problema, segundo o biólogo marinho da Uni-CV, Rui Freitas, é que este invasor recente no Atlântico Ocidental é conhecido por ser um predador voraz, que pode ameaçar o equilíbrio de ecossistemas marinhos costeiros, por alimentar-se de moluscos e peixes juvenis em grande quantidade e num curto espaço de tempo. O animal tem capacidade para aumentar o tamanho do seu estômago e chega a dizimar as espécies que ataca numa determinada área. Além disso, está munido de espinhos venenosos, que podem ferir e provocar dores intensas a quem for picado.

Ameaça de peixe-leão em Cabo Verde

“Se for confirmada, nos próximos tempos, a presença do peixe-leão nas nossas águas, temos sérios motivos para estarmos preocupados”, afirma Rui Freitas, que já comunicou as suas suspeitas à comunidade científica, às autoridades, aos centros de mergulho e aos próprios pescadores. Ainda nenhum exemplar foi efectivamente capturado como prova factual, mas as informações recolhidas até agora indicam que esse predador típico do Índico-Pacífico pode estar a passear pelo Oceano Atlântico, mais precisamente no mar de Cabo Verde.

O sinal laranja foi accionado pelo biólogo após uma conversa com um mergulhador experiente, que lhe falou de um “peixe diferente” que observou no Ilhéu dos Pássaros, em S. Vicente, e em Pássaro de Pau, na ilha de Santo Antão. O carnívoro chamou a atenção do mergulhador pela sua elegância, a forma das suas barbatanas, as riscas espalhadas pelo corpo e a cor. Nessa conversa, o mergulhador descreveu o peixe como “as meninas dos carros alegóricos do Carnaval, enfeitadas com penas coloridas e compridas”. Acrescentou ainda que o animal tinha a cara de um “dragão”. Esta descrição foi suficiente para deixar o biólogo preocupado, pois enquadra-se na descrição perfeita do exótico peixe-leão, também conhecido como peixe-dragão.
De imediato, Freitas muniu-se de uma série de fotos de peixes, dentre os quais o peixe-leão, e pediu ao pescador para identificar a espécie que vira. A escolha recaiu nesse temível invasor. “O problema de fundo é o impacto nos ecossistemas que o peixe-leão pode provocar porque ele come as crias indefesas e influencia a cadeia reprodutiva à escala local. É um peixe que se reproduz rapidamente e que não tem predadores naturais no Atlântico. Podemos falar, neste caso, de uma epidemia que seria de difícil resolução”, explica o biólogo, que está a levar a informação do mergulhador com muita seriedade, embora defenda que a questão deva ser abordada com precaução, sem alarmismos desenfreados. Porém, o cientista considera normal a chegada a Cabo Verde desse peixe, devido ao seu estilo de vida.

Segundo um técnico do INDP, ainda não há uma prova concreta da presença do peixe-leão no arquipélago. Mas caso essa informação venha a ser confirmada, não poderia haver notícia mais arrasadora para o sector pesqueiro costeiro. “É uma espécie voraz, que compete com as espécies locais pela comida. Seria um problema de difícil resolução técnica e financeira”, reage a nossa fonte do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas, que pede aos mergulhadores e pescadores artesanais para contactarem o INDP caso vejam ou capturem um exemplar. Aliás, o INDP já tem prontos cartazes informativos para colocar nas zonas piscatórias, mas as autoridades ainda não validaram a sua distribuição, segundo consta, para não provocarem falsos alarmes.

Apesar de ser uma espécie característica da região do Índico-Pacífico, o peixe-leão já foi encontrado nalguns países banhados pelo Atlântico-Oeste. Acredita-se que tenha chegado à América do Sul transportado pela fúria do furacão Andrew, que fustigou o estado norte-americano da Florida. Outra hipótese é que ao ser transportado por coleccionadores de peixes exóticos se tenha escapado para o mar. “Entre 1999 e 2010, a espécie invadiu o mar do Caribe, o Golfo do México, o litoral da Costa Rica e do Panamá, a costa da Colômbia e chegou a Venezuela. Teme-se que chegue agora à costa brasileira”, escreve o jornal electrónico brasileiro noticias.terra.com.br.

Este órgão informa que se tomaram medidas de controlo em países que detectaram a presença do animal marinho, mas nenhum deles conseguiu erradicar esse invasor. Além disso, o mesmo jornal assegura que os esforços de combate a essa epidemia são muito caros e pouco práticos. No entanto, no Caribe e nas Bahamas há centros de mergulho que caçam esse predador com arpões, como forma de reduzir a sua população. O medo da comunidade científica cabo-verdiana, neste caso do biólogo Rui Freitas, é que o peixe-leão tenha escolhido as águas cabo-verdianas como sua casa. É que no Atlântico ele já mora, efectivamente.

Kim-Zé Brito

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