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Barraca da Boa Vista, 20 anos depois: Entre a pobreza e a esperança em dias melhores 29 Outubro 2016

Vinte anos após o seu surgimento, o bairro mais populoso da Boa Vista - Boa Esperança -, continua a viver dias terríveis. As chuvas de Setembro deixaram a comunidade por semanas debaixo de água, sujeira e mau cheiro. Uma prova clara de que, mesmo deixando para trás as construções toscas de papelão e lona para assumir-se como um bairro de “pedra e cal”, a Barraca, como é conhecido o bairro, é ainda uma “bomba relógio”, pronta a explodir.

Por: Sílvia Frederico

Barraca da Boa Vista, 20 anos depois: Entre a pobreza e a esperança em dias melhores

É um cenário triste, que se repete todos os anos na Boa Vista - uma comunidade inteira alagada. Nas ruelas, a água das chuvas atingiu uma altura razoável e depois invadiu as casas. Para ir trabalhar os moradores tinham que meter o pé na poça e ainda driblar toda a lixarada, que ficou acumulada por dias, e o mau cheiro. Muitos alunos sequer puderam assistir às primeiras aulas. Os munícipes pedem socorro - mais uma vez - pela localidade de onde sai mais de 80% da mão-de-obra para os hotéis da ilha.

“Todos os anos é assim. Passamos semanas com água e lixo por toda a parte. Muitas casas são completamente inundadas e o cheiro é insuportável. Vivo na Barraca há 15 anos e sempre que chega a época das chuvas clamamos aos céus para que não chova muito”, diz Maria Ernestina, uma santiaguense que deixou Santa Cruz em 2001 para trabalhar no sector da construção civil na ilha da Boa Vista.

Hoje Dona Titina, como é conhecida, trabalha num dos hotéis da ilha como funcionária de limpeza. O salário de 18 contos mal dá para custear todas as despesas, pois Boa Vista tem um dos custos vida mais caros do país. Daí que em 15 anos de labuta longe de sua terra natal só conseguiu construir uma casa de betão de apenas dois cómodos e sem casa-de-banho, como a maioria das moradias da comunidade.

Este ano, Titina não sofreu com alagamento como nos anos anteriores. “Escavamos a rua para ficar desnivelado e junto à porta da minha casa levantamos uma parede e fizemos uma espécie de passeio. Assim a chuva não entra. É a experiência de anos de sofrimento”, gaba-se.

Já Luzia Lopes não teve a mesma sorte. A sua casa ficou completamente alagada, apesar de seu marido ter inventado uma engenhoca para impedir que a água entrasse. Mas o maior problema foi sair de casa: “por dois dias não consegui ir trabalhar porque era muita a água, dentro e fora de casa e estava sempre de vassoura e balde na mão a limpar. Não dava para sair nem para comprar pão. É um tormento todos os anos”, lastima Luzia, que mora numa casa de dois quartos com o marido, os quatro filhos e dois primos.

20 anos de esperança

Dona Luzia vive esta situação desde que as primeiras barracas foram construídas. É uma das primeiras moradoras do bairro. Reza a historia que a primeira casa de papelão e pedaços de madeira foi construída à entrada de Sal Rei por um pescador santiaguense. Aos poucos, foram surgindo mais e mais, até que em 2002, após dois graves incêndios, as autoridades transportaram a comunidade para uma zona mais afastada da então vila de Sal Rei.

Sobre uma salina foram construídas na altura 170 barracões para albergar pescadores e peixeiras. Hoje, 20 anos depois, Barraca é o bairro mais populoso da ilha das dunas, mas também um dos mais problemáticos de Cabo Verde. Duas décadas depois, os moradores vivem sem nenhuma condição de habitabilidade. Falta-lhes todas as infra-estruturas de base e não dispõem nem de rede eléctricas nem de rede de esgotos.

Apesar da autarquia fazer recolha de lixo em pontos fulcrais – já que as ruelas não permitem a circulação de viaturas, principalmente de grande porte ­– o bairro continua todo ele cercado de lixo. Sem casas de banho, as crianças defecam nas ruas, correndo sérios riscos de contrair doenças como diarreia, febre-amarela ou cólera.

Um barril de pólvora social

Anos se passaram e as preocupações com o bairro só aumentam. Quase todas as semanas acontecem brigas e agressões com armas brancas. A polícia Nacional confisca todos os anos, em média, cinco armas de fogo, sobretudo pistolas de fabrico caseiro, conhecidas por boca-bedjo. Há também casos de apreensão de munições.

O bairro Esperança é um gueto, descreve José Silva. “Nós que morámos aqui sabemos o que é viver com medo, mas já foi bem pior. Aqui já aconteceram mortes por agressão à facada. Quem sobreviveu à pancada, teve que ser evacuado para a cidade da Praia.

Neste gueto, os pais saem para trabalhar nos hotéis e os filhos ficam sozinhos o dia inteiro. “Jovens e adolescentes fazem o que querem, até entram para o mundo do crime sem que os pais possam fazer muita coisa”, queixa-se José Silva, que denuncia ainda o consumo excessivo de drogas.

Porém, as autoridades não consideram que este seja um problema de maior, “mas não deixa de ser preocupante e deve ser travado o quanto antes”. A principal preocupação é com outros tipos de crime. No topo da lista continuam as ofensas corporais, movidas por factores sociais, roubo e receptação.

A violência também está na lista dos crimes mais praticados. É só lembrar o motim de 2008, em que os moradores da Barraca invadiram Sal Rei, num confronto directo com a Polícia. Pedras, garrafas e até armas de fogo foram usadas para pedir responsabilidades e exigir justiça para um morador ferido por uma bala, supostamente disparada por um agente da Polícia Nacional.

O patinho feio

Por tudo isso, a Barraca é um mundo organizado às margens da legalidade, opondo-se à outra face da Boa Vista, amada pelo seu encanto, pela beleza do seu mar, praias paradisíacas, imensas dunas de areia branca, belos prédios e hotéis de luxo. Barraca é, assim, o patinho feio da turística ilha, o bairro que ninguém quer mostrar aos milhares de europeus que a visitam.

Duas décadas depois, o bairro continua a sonhar com dias melhores e pede uma intervenção das autoridades, dos poderes local e central. Pedem também uma “mãozinha” dos investidores e operadores turísticos, os principais responsáveis pelo aumento demográfico na Boa Vista, após o boom imobiliário que a transformou na ilha que acolhe mais turistas em Cabo Verde.

De promessa em promessa, os moradores vêem passar os anos. Desde 2009 que a autarquia tem pronto um projecto de requalificação do bairro. Este programa engloba infra-estruturas de base, espaços de lazer e equipamentos públicos. Até hoje, só foram feitas intervenções pequenas e pontuais. Mesmo ao lado do bairro, foram edificados o estádio Municipal e uma placa para a prática de basquetebol.

Entretanto, as entidades públicas anunciaram a regularização fundiária do bairro da Boa Esperança a partir de 2015, mas tal ainda não aconteceu.

Da Barraca ao Bairro da Boa Esperança

Quem cumpriu a sua promessa foi o padre Paulo Vaz, que construiu, bem no coração do bairro, um Centro Social Multi Funções, que alberga uma escola e um jardim infantil. O Centro ajuda a responder à superlotação de alunos da escola primária local. Actualmente acolhe cerca de 500 crianças de dez nacionalidades, muitas delas oriundas de países da costa ocidental africana. Quando a escola abriu, em 2010, eram apenas 90 alunos, mas desde então não param de chegar novos alunos.

No mesmo espaço também passou a funcionar a escola nocturna para adultos, que dá aos adultos que trabalham durante o dia uma oportunidade de prosseguir com os seus estudos à noite. No entanto, faltam professores. O centro ecebe também alguns alunos do Ministério da Educação e voluntários.

A fazer fé nas informações recolhidas no terreno, é justamente através do padre Paulo que nasceu a ideia de se baptizar o bairro com o nome de Boa Esperança. Na altura da inauguração do Centro Multi Uso em 2010, o clérigo explicou: “Apesar de todos os seus problemas, os moradores têm que ter esperança num dia melhor. É isso que estamos a trazer a este bairro e aos seus moradores. E nada mais justo este nome”.

A Barraca, onde residem mais de 6 mil pessoas, de 10 nacionalidades, também recebeu outros investimentos privados ao longo dos anos. Hoje o local acolhe visita de turistas mais curiosos, isto por incentivo de algumas agências e guias turísticos. Mas os moradores da “Vila” frequentam o bairro para convivência, porque lá há também bares e restaurantes. Houve época em que ali até funcionaram uma pizzaria italiana e uma espécie de discoteca.

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