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“Bisca” continua a apaixonar mindelenses: "Grita eh pau" 06 Outubro 2016

Presente em botequins, clubes desportivos e pracetas públicas, a “bisca” continua a apaixonar os mindelenses. O jogo ainda mantem o poder de estimular a convivência social a ponto de ser considerado pelos aficionados um património cultural cabo-verdiano. Em S. Vicente, o local mais emblemático deste jogo de cartas é o “parlamento”, uma pracinha situada a escassos metros da Câmara Municipal, onde a bisca e a política se misturam.

Por: Kim-Zé Brito

“Bisca” continua a apaixonar mindelenses:

Na cidade do Mindelo o jogo da bisca continua a ter o extraordinário poder de reunir amigos e desconhecidos à volta de uma mesa. O fenómeno é visível em vários becos da urbe mindelense, mas com particular incidência na praceta “Parlamento”, junto à Câmara Municipal de S. Vicente, e ao lado da réplica da Torre de Belém, na Rua da Praia dos Botes. Nestes dois “estádios” não faltam “competições” diárias entre os aficionados dos jogos de carta, faça sol, vento ou chuva. Aliás, uma prova elucidativa disso aconteceu esta segunda-feira quando caiu uma “rabencada d’txuva” e quase ninguém arredou pé das bancas da “pracinha dos pescadores”, na rua da Praia dos Botes.

“Jogar bisca é um tónico para a mente. É um bom ‘vício’ porque nos distrai, possibilita a convivência social e ajuda-nos a exercitar o cérebro”, diz Adelino Sousa Duarte, “enfermeiro Didi” para os amigos. Considerado um dos “monstros” da bisca, “Sr. Didi”, 80 anos de idade, é daquelas pessoas que adora encarar “adversários” à altura. Quando se senta a uma mesa nem quer saber do tic-tac do relógio.

“Um belo sábado, eu e o Mário Leite começamos a jogar às quatro da tarde e terminamos às seis da manhã. A esposa dele levantou-se da cama, foi levar-nos café e voltou para a cama”, confidencia Didi, que começou a jogar carta ainda garoto. Contagiado pela magia do jogo, “casou-se” literalmente com os baralhos de carta.

O colega de “aventuras”, Mário Leite, é outro nome respeitado entre os “senhores da bisca”, na ilha de S. Vicente. Para ele não há melhor exercício mental do que defrontar um opositor numa mesa de carta. “A bisca é um jogo para gente inteligente, gente que sabe raciocinar e elaborar estratégias. Com o tempo ganha-se experiência e basta sair duas rodadas para se saber mais ou menos como é que estão distribuídos os trunfos e ‘biscas’ (as cartas mais fortes, como ases, setes e reis)”, comenta Leite, que até hoje se reúne com amigos na sua residência e noutros sítios para jogar.

A Bisca é um desporto tal como xadrez e damas, na perspectiva do jogador Augusto Neves. Porém, segundo esse condutor profissional, o jogo ainda é visto como um mero passatempo, em S. Vicente. “Uma vez ou outra aparece um torneio organizado pelos clubes sociodesportivos e sindicatos laborais. Contudo, a maioria das pessoas encara o jogo como divertimento”, entende Neves, um dos frequentadores assíduos do “parlamento”, onde se joga bisca e se “discute política”.

“Estamos a escassos metros da Câmara, da Igreja e do Tribunal, mas não é por causa disso que toda a gente sabe onde é que fica o ‘parlamento’. Somos conhecidos por causa da quantidade de jogadores de carta e apreciadores que diariamente se reúne nesta pequena praça, de manhã à noite”, explica Neves, 65 anos de idade. Nesse espaço, mandado construir pelo ex-autarca Onésimo “Cuxim” Silveira, com bancas de cimento apropriadas, joga-se bisca enquanto se fala de política, “ao contrário do outro ‘parlamento’, onde se faz ‘biscates políticos’ muitas vezes com ‘cartas’ marcadas”, realça um dos muitos assistentes que religiosamente frequenta esse já famoso “estádio de bisca”.

Pela ilha de S. Vicente são dezenas os “refúgios” onde se joga bisca por horas seguidas, com um “grogin”, um “whiskizin”, um “cervejinha” e petiscos para animar a malta. Como normalmente a regra é “quem perde sai e dá lugar a outro”, as horas passam e nem se dá por isso. Há quem passa seis horas por dia jogando ou vendo os outros jogar. Enfim, quase um dia normal de trabalho.

Por essa especial razão, os grandes jogadores de bisca são geralmente reformados, desempregados ou subempregados. Embora seja jogado mais por homens, há mulheres que também gostam de “rafincá carta na mesa”. Uma delas é Maria da Conceição, 48 anos, que nunca dá costas a um desafio de bisca. “Catadera d’traboi”, quando não tem nada para fazer pega nas cartas. “Comecei a jogar na Praça Estrela, depois passei para a pracinha dos pescadores. Enfrento homem ou mulher, quem aparecer”, diz Conceição, que é uma das quatro senhoras que costumam jogar carta na rua da Praia dos Botes.

Adoptada pela sociedade cabo-verdiana desde a era colonial, a bisca pode ser considerada um património cultural. Segundo Bitú Melo, autor do livro A Bisca, é impossível determinar o tempo certo em que o jogo começou a ser praticado pela sociedade cabo-verdiana. “Embora subsistam muitas dúvidas sobre o seu aparecimento, os jogadores mais antigos são de opinião que a bisca nasceu do ‘jogo da sueca’ (português). Pouco a pouco os cabo-verdianos introduziram outros métodos e conceitos, criando e impondo as suas regras próprias e penalizações, aparecendo assim a bisca”, diz o autor, para quem o jogo terá começado no mundo rural e nas aldeias piscatórias, como forma de entretenimento. Na ilha de S. Vicente, prossegue Melo, teve uma rápida difusão e acolhimento, espalhou-se pelos bairros, bares e botequins e entrou também nos clubes desportivos.

Pelos sinais bem presentes, o jogo continua a apaixonar os mindelenses e a manter essa capacidade de promover a convivência social, embora nem sempre as coisas terminem de forma pacífica. Os problemas surgem, até com alguma gravidade, quando os mais “destemidos” resolvem jogar “batota”, ou seja, fazer apostas em dinheiro ou bens. Para todos os nossos entrevistados, o melhor que tem a fazer quem quer se divertir e conviver à volta de uma mesa de bisca é retirar a “batota” da ementa.

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