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Boa Vista, ilha mais cara do país para viver 06 Setembro 2016

Boa Vista é a ilha mais cara do país para viver. Quem o afirma é o presidente do Conselho de Administração da Sociedade de Desenvolvimento Turístico da Boa Vista e Maio (SDTBM), Avelino Bonifácio, que atribui parte das responsabilidades por esta situação ao défice de transporte, sobretudo na ligação marítima inter-ilhas. Isto porque faltam produtos, em particular os frescos, e os preços praticados são inflacionados em 50 por cento ou mais, consoante a demanda ou o stock existente. Os custos dos serviços são igualmente proibitivos, caso por exemplo da renda de casa ou de um simples quarto. A greve recente das lojas chinesas, que dominam o sector agroalimentar, mostrou uma ilha vulnerável e excessivamente dependente. Mas, como diz Emiliano ´Djidjuca` Santos, Bubista está a pagar esta factura porque não tem outra opção.

Boa Vista, ilha mais cara do país para viver

A população da Boa Vista está a pagar caro pelo desenvolvimento da ilha, dado o custo económico e social excessivo trazido pelo turismo. O munícipe “Djidjuca”, ouvido por este jornal, não tem dúvidas: o elevado custo de vida na Boa Vista deve-se essencialmente ao sistema de turismo, que muito pouco beneficia os residentes. Cita, por exemplo, as várias mercearias existentes na zona Norte que, diz, dificilmente conseguem vender uma garrafa de água aos turistas, que passam em comboios de viaturas em direcção às praias ou zonas mais recônditas. “Os turistas, na maior parte das vezes, nem sequer descem dos carros para comprar uma garrafa de água, porque os hotéis lhes fornecem tudo. E quando arriscam uma paragem nas comunidades de passagem, é basicamente para fazer fotos”.

Para este carpinteiro e profundo conhecedor da realidade social da ilha das dunas, quem paga a factura são os residentes, que são obrigados a comprar, por exemplo, uma garrafa de água potável de um litro e meio por 150 e até 200 escudos, quando nas outras ilhas o preço oscila entre os 45 e 50 escudos. “Temos de comprar um quilo de atum por 600 ou 700 escudos. O mesmo acontece com as frutas e hortaliças. Para se ter uma ideia, uma manga, que por estes dias abunda no resto do país, é vendida no mínimo por 60 escudos aqui na ilha das dunas. O problema é que se os residentes não compram, os hotéis acabam por absorver os produtos, pelo que dificilmente os preços vão baixar”, explica.

A prevalência das lojas chinesas na Boa Vista, que dominam o sector alimentar, também preocupa “Djidjuca”. E a recente greve que elas protagonizaram veio dar razão sobre o perigo dessa excessiva dependência. É que bastou um dia de paralisação para se sentir a falta de produtos de primeira necessidade na ilha – com os dois minimercados, não-chineses, a não terem capacidade para responder à demanda. “Djidjuca” concorda que o mercado da ilha da Boa Vista é pequeno e que não há alternativas. Mas, avisa, depender excessivamente de um grupo, que pode quando bem entender paralisar a ilha, é um enorme risco. “Reclamamos, mas não temos alternativas. Nas lojas chinesas, as balanças não funcionam correctamente e os preços dos produtos são combinados entre si, mas falta fiscalização de uma autoridade competente. Também não temos uma Associação para a Defesa do Consumidor, como existe nas outras ilhas”, desabafa.

Arrendar casa é “luxo”

Arrendar casa na Boa Vista, sobretudo para trabalhadores que chegam das restantes ilhas, da Costa Ocidental da África, mas também para quem vem da Europa, é uma aventura, que exige paciência, capacidade negocial e alguma dose de sorte. Primeiro, é preciso saber procurar porque as casas disponíveis estão localizadas, na maior parte das vezes, em zonas pouco seguras. Depois exige alguma aptidão para se negociar os preços de aluguer, que começam em valores avultados, e sorte para encontrar uma casa que satisfaça às necessidades.

“Djidjuca” conta que antes era fácil encontrar uma casa para morar, e em boas condições, na ilha das dunas. “Os preços eram muito acessíveis. Entretanto, houve um aumento do fluxo de pessoas na ilha, o que inflacionou os custos de aluguer. Isso leva a que as pessoas arrendem casas em grupo para partilhar as despesas. Mesmo assim, ainda é difícil porque as contas são pesadas. São poucos os que conseguem arcar com os valores”, explica. O nosso interlocutor lembra ainda que, por causa do custo de vida elevado e da falta de casas para arrendar, algumas famílias estão a alugar quartos nas suas casas para ajudar nas despesas.

“Muitas famílias estão a receber pessoas de outras ilhas e países nas suas casas para ajudar nas despesas. Esta situação acontece na cidade de Sal-Rei. As opções de residência são, sobretudo na zona da Barraca. As casas são boas, mas os preços são também muito altos”, acrescenta. Apesar desta “ginástica” para se driblar as dificuldades, viver na Boa Vista é cada vez mais complicado com salários que vão dos 25 aos 45 contos por mês. “Estes salários não suportam as despesas básicas com alimentação, energia, água, saúde, educação e outras coisas. A situação é ainda mais grave sobretudo para as pessoas que recebem o salário mínimo”, acrescenta este boavistense.

O quadro traçado por Djidjuca é corroborado pelo jornalista Nelvino Lima, para quem o alto custo de vida na ilha das dunas resulta de uma demanda de longe superior à oferta. Mas esta é uma situação que, afirma, vem de há duas ou três décadas. “O custo de vida na Boa Vista sempre foi maior do que na ilha de Santiago, por exemplo. Isso porque temos uma deficiente ligação marítima e, por isso, faltam alimentos e outros produtos frescos nas prateleiras das lojas. Por outro lado, este mercado é dominado por chineses. Há um monopólio, que está a prejudicar a ilha. Apenas dois minimercados não são explorados por chineses, sendo um por um italiano e outro por um indivíduo da ilha do Fogo”, frisa.

A situação repete-se a nível habitacional. É que o reduzido número de casas para arrendar fez disparar os valores cobrados. “Temos jovens a pagar 70 euros por um quarto sem grandes condições. Se acrescentarmos a esta despesa as contas de electricidade, água, alimentação e outras necessidades básicas, fica impossível para um pedreiro ou um carpinteiro, por exemplo, residir na ilha. Por causa disso, muitas pessoas que chegam à procura de emprego são direccionadas para a zona da Barraca, onde a oferta é maior” e “ o custo é menor”.

Lembra este jovem que nas obras de construção civil, por exemplo, paga-se salários baixos aos operários. Outro facto é que, se antes a oferta de trabalho era garantida, a crise que afecta o país desde 2008 por pouco não destruiu por completo este sector. Também por causa disso, os salários acabaram por sofrer uma forte erosão. “Falta fiscalização efectiva da Inspecção e da Direcção-Geral do Trabalho. Cada empresa faz o que bem entender. É quase uma escravatura moderna o que se verifica. Pagam mal e os operários não podem reclamar, sob pena de serem dispensados”, completa o jornalista nosso interlocutor.

SDTBM aponta “défice do transporte” como causa da situação

O presidente do Conselho de Administração da Sociedade de Desenvolvimento Turístico da Boa Vista e Maio (SDTBM) considera que se, nos dias de hoje, a ilha das Dunas é a mais cara do país para viver, isso muito por conta do défice de transporte inter-ilhas, em particular o marítimo.

“Não me refiro exclusivamente à pouca frequência das ligações, mas também à ausência de programação das ligações, às más condições de manuseamento e acondicionamento de produtos nos portos, particularmente em Sal-Rei, às más condições de conservação de produtos perecíveis nos próprios barcos que fazem a ligação com a ilha, à ausência de um serviço de logística eficaz, nomeadamente para embalagem, acondicionamento e contentorização de produtos, principalmente os perecíveis, nos portos de embarque”, diz Avelino Bonifácio. Essas situações, a seu ver, aumentam os prejuízos dos comerciantes, que para se compensarem aumentam os preços. E como num reflexo encadeado, segue-se que os elevados custos nos diversos serviços começam pelos mais básicos, como o alojamento.

Bonifácio destaca que o factor turismo tem também o seu quinhão de responsabilidade no custo de vida, na proporção do aumento de preços que se regista no Sal, depois de isolar todos os factores referidos. Este economista não especifica, mas conclui que é um facto que os preços dos alimentos estão até 30% por cento acima da média, que há menos competitividade e as infraestruturas são insuficientes. Conforme ele, tudo isto aumenta o risco de investimento para os empresários e encarece os serviços de hotéis e restaurantes, além de que os custos da desigualdade de rendimento auferido aqui são mais elevados.

Por: Constânça de Pina

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