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Cabo Verde é uma "prisão" para migrantes africanos 28 Novembro 2015

Os migrantes africanos que usam Cabo Verde como porta de entrada para a Europa dizem que o país é uma "prisão". Encurralados no arquipélago, os migrantes agarram-se à religião para não perder a esperança de chegar à Europa.

Cabo Verde é uma

Esta é uma das conclusões apresentadas durante o workshop "Mobilidade como uma luta: perspectivas luso-africanas", que teve lugar no campus da Universidade do Luxemburgo (Uni.lu) em Esch-Belval.

"Os migrantes chegam a Cabo Verde e esperam pela oportunidade de chegar à Europa, numa espera existencial sem saber se vai algum dia terminar”, disse a investigadora da Universidade Livre de Bruxelas, Noémie Marcus, que tem acompanhado a passagem de migrantes de países membros da Comunidade Económica Dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) por Cabo Verde.

Segundo Noémie Marcus, muitos dos migrantes entrevistados por ela descrevem as ilhas como sendo "uma prisão". Mesmo assim, a espera para deixar Cabo Verde rumo à Europa "não é passiva". "Esses migrantes não baixam os braços e reinventam sempre formas de continuar a alimentar esse sonho, e muitas vezes agarram-se à religiosidade nessa espera crónica", acrescentou.

O workshop, organizado pelos investigadores da Uni.lu Kasper Juffermans e Bernardino Tavares, reuniu académicos da Bélgica, Estados Unidos, Cabo Verde, Holanda e do Luxemburgo. Segundo Clementina Furtado, investigadora da Uni-CV, o arquipélago é visto pelos países da África continental como porta de entrada para a Europa.

As estatísticas apresentadas mostram que entre 2000 e 2006 entraram no país mais de dois mil migrantes, dos quais 76 % provêm dos países membros da CEDEAO. Estes migrantes chegam a Cabo Verde com a ambição de seguir viagem em direcção à Europa ou Estados Unidos.

A investigadora cabo-verdiana explicou ainda que existe uma "discrepância entre o número de imigrantes apresentado pela Direcção de Estrangeiros e Fronteiras e pelas embaixadas", dando o exemplo da comunidade chinesa que, nos últimos anos, tem crescido em Cabo Verde (estima-se que haja cerca de dois mil chineses a viver no arquipélago).

Durante o encontro foram debatidas ainda as condições e consequências sociolinguísticas e antropológicas da mobilidade, e as migrações contemporâneas com foco em Cabo Verde e no mundo lusófono. Um exemplo concreto foi dado por Samuel Weeks, da Universidade de Califórnia, sobre a língua cabo-verdiana utilizada na Lisboa pós-colonial.

"Após a independência o crioulo era quase proibido em Lisboa. Era visto como uma língua inferior utilizada somente entre amigos. Nos dias de hoje, falar o crioulo, seja em que variante for, tornou-se numa forma de demonstração de orgulho e de patriotismo", referiu o norte-americano.

Kasper Juffermans, da Uni.lu, relatou ainda a experiência de mobilidade de cidadãos guineenses na China. "A mobilidade é fortemente influenciada pelo repertório linguístico e não está sempre ligada a factores económicos da imigração que hoje conhecemos. Dou o exemplo de guineenses que viajaram para a China à procura de conhecimento e novas experiências", disse o investigador holandês, acrescentando que a mobilidade permite um "desenvolvimento não só a nível pessoal como a nível nacional, abrindo portas ao multilinguismo dos cidadãos de um país".

Roberto Gomez, também da Uni.lu, investiga actualmente os aspectos inclusivos e exclusivos do multilinguismo nas salas de aula das escolas luxemburguesas. O académico relatou a experiência de uma criança brasileira recém-chegada ao Grão-Ducado durante a sua integração no sistema escolar luxemburguês.

Fonte: Luxemburger Bort

Foto: Gerry Huberty

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