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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Campa de Norberto Tavares votada ao abandono: Membro de “Tropical Power” revoltado com descaso do Edil Francisco Tavares 24 Abril 2016

O percussionista do grupo Tropical Power está revoltado com Francisco Tavares, o Edil da Câmara de Santa Catarina de Santiago, a quem acusa de “insultar” a memória de Norberto Tavares ao ignorar a promessa feita há mais de cinco anos de requalificar a campa onde foram sepultados os restos mortais do artista, no cemitério de Assomada. Júnior Gregor diz-se “profundamente triste” com o “estado de abandono” a que a sepultura foi votada e exige uma explicação por parte do autarca quanto ao atraso do processo. Francisco Tavares remete-se ao silêncio.

Campa de Norberto Tavares votada ao abandono: Membro de “Tropical Power” revoltado com descaso do Edil Francisco Tavares

Júnior Gregor, que vive entre os Estados Unidos e Cabo Verde, contou ao A Semana que durante três anos pediu insistentemente a Francisco Tavares para ver como estava o andamento do processo de requalificação da cova de Norberto Tavares. Porém, segundo o músico, sempre que se encontrava com o autarca ficava com a sensação de que nada avançava sobre o lugar de memória a dedicar ao autor do “hino” Nôs Kabuverdi di Speransa.

De facto, diz, volvidos cinco anos e três meses, tudo continua na mesma. “A campa está como se Norberto Tavares tivesse sido enterrado ontem. Está completamente abandonada. Norberto é filho de Santa Catarina, ele deve estar vivo na memória das pessoas e merece um tratamento digno. Para mim é um insulto para com Norberto Tavares, que sempre defendeu o seu concelho, Cabo Verde e suas gentes”, sublinha Júnior Gregor.

O membro do “Tropical Power”, agrupamento fundado por Norberto Tavares, sublinha que os outros colegas estão também “tristes” com o estado em que a cova se encontra. “Nós sempre estivemos disponíveis para ajudar no que for preciso. Só que o presidente da Câmara disse-nos para deixarmos tudo nas suas mãos, porque tinha um plano e um arquitecto para dignificar a campa”, elucida. Segundo esta fonte, o grupo acreditou na boa-fé de Francisco Tavares, mas o certo é que as tais ideias do presidente da autarquia nunca foram concretizadas.

Mesmo assim, afirma Gregor, o grupo tem estado a ajudar na aquisição de materiais e equipamentos para o Centro Cultural Norberto Tavares, sito na Assomada, e a divulgar o legado do artista nos Estados Unidos da América, através da fundação que leva o nome do malogrado. Contudo, incomoda-o ver que a autarquia de Santa Catarina está praticamente a votar o compositor e intérprete da badalada canção Maria ao esquecimento. “Queria perguntar ao senhor Francisco Tavares: O que é que se passa com a promessa que nos fez durante uma reunião com os integrantes do grupo?”, lança desta forma a questão, na esperança de obter uma resposta do presidente da Câmara de Santa Catarina quanto aos motivos do atraso na requalificação da referida campa.

“É lamentável o esquecimento de memórias deste país”

A comunicação social também não escapa às críticas de Júnior Gregor, para quem os órgãos deviam assumir um papel de parceiros fazendo com que a memória de Noberto Tavares continue sempre viva na memória dos cabo-verdianos. “Vejo que a Televisão de Cabo Verde e a RCV estão a concentrar-se muito mais nos músicos de São Vicente. Não sou contra os artistas em si, até porque adoro o Bana, a Cesária Évora, etc. Entendo que devem ser sim lembrados eternamente. Mas acho estranho que esses órgãos não passem com mais frequência as músicas de Norberto Tavares”, constata Júnior Gregor, que considera lamentável a forma como as memórias musicais de Cabo Verde são esquecidas por parte das autoridades centrais e locais. Esse facto, nas suas palavras, aplica-se aos casos de Kodé di Dona, Vadú, Manuel Tidjena e Luís Morais, sem falar dos artistas ainda em vida.

“A rádio e a televisão devem lembrar-se de, uma semana antes dos seus aniversários, colocar as suas músicas no ar. Não é só no fim de ano, por exemplo, que devo ouvir a música de Luís Morais. Entendo que há outros programas, mas há que ter uma hora dedicada a essas pessoas”, reforça este instrumentista que, embora tenha nascido e crescido nos Estados Unidos, é um “apreciador” da música cabo-verdiana, que considera “ser rica” e de “elevada nobreza”. Porém, na sua perspectiva, “são os próprios cabo-verdianos a não dar valor a essa riqueza cultural”.

Neste quesito, Júnior Gregor critica também aquilo que chama “segregação” de artistas deste país pelos sucessivos Governos. “Sempre que um Governo toma posse, começa a afastar os artistas e grupos musicais que estiveram ou participaram em eventos de um outro partido. Os governantes devem parar de uma vez por todas com essa discriminação, pois isso só empobrece a cultura. É triste ver bons músicos e tocadores que deviam ser aproveitados, mas que foram postos de lado por razões políticas. É um absurdo”, considera Gregor, para quem os governantes devem pensar a música como uma “arte popular” e absterem-se de a misturar com a política.

Inclusive, diz, o próprio Norberto Tavares foi alvo dessa segregação, apesar de nunca ter revelado a sua preferência política. “Ele foi Cabo Verde e fez o que pôde para defender os interesses deste país. Mas todos os que estão fora do país, na América e na Europa, sentem essa discriminação”, critica o nosso interlocutor, que aproveita a oportunidade para lembrar que a Fundação Norberto Tavares celebra nos EUA mais um aniversário do patrono a 5 de Junho, com uma noite cultural em Pawtucket, com actuação da banda Tropical Power e artistas convidados.

Este jornal tentou falar com Francisco Tavares via telefone e email, porém sem sucesso. Tentámos abordar o vereador da Cultura, João Pereira, mas este disse que a situação foi tratada muito antes de ser eleito para o cargo pelo que nos remeteu para o presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina. Até ao fecho desta edição, Francisco Tavares não proferiu uma palavra sobre o assunto.

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