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Cidade Velha: O desafio continua 27 Junho 2014

Dona de uma história de 552 anos, de intenso trânsito marítimo, tráfico de povos, palco de personagens lendários e berço da cultura crioula no mundo, Cidade Velha continua, cinco anos depois de conseguir o título de Patrimonio Mundial da Humanidade, a sustentar os motivos que levaram a Unesco a reconhecer a sua importância na cultura mundial. Os desafios que tem pela frente são contudo muitos, grandes, diversos. E pedem investimentos de todos. Governo, edilidade, população local.

Cidade Velha: O desafio continua

Apesar de reconhecer que Cidade Velha “precisa melhorar seu saneamento e a promoção do turismo”, Mário Lúcio Sousa, ministro da Cultura, abriu o seu discurso na conferência “5 anos de desafios. Que perspectivas” nesta quinta-feira, 26, destacando os avanços já alcançados pela actual gestão.

"Hoje estou a celebrar a festa que outros armaram. E vou evocar aqui três gerações de construtores deste património. Aqueles que estiveram na causa primária desta nação, que aqui foram escravos, sofreram e ganharam a liberdade. Aqueles que se deram ao trabalho de estudar este Património, defendendo-o do esquecimento, preservando-o e lançando-o como Património Mundial da Humanidade. E os actuais gestores deste sítio”, ponderou o ministro da Cultura.

Cabe a esta equipa concretizar nos próximos meses na Cidade Velha três "reformas estruturantes”, prioritárias e que vão custar 282 mil euros. Além de formar e sensibilizar os moradores para a importância de residir num local que é património mundial, estão agendados trabalhos de realibitação de habitações e de requalificação urbana do sítio arqueológico.

Telhados e tetos das casas do centro histórico serão recuperados e uniformizados. Os muros serão pintados e a orla marítima ganhará mais dois novos pontos de exposição e venda de artesanato, bem como uma praça e um espaço para recepção dos turistas. Em 2007 eram mil visitantes por ano. No ano passado foram 80 mil. De entre estes, 22 mil estrangeiros.

O vice-presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago fala dos “saltos’’ que viu Cidade Velha dar nestes últimos cinco anos. O abastecimento de água domiciliar passou de 7% (2009) para quase 100% (2013) e melhorou a recolha de lixo. Mas Alcides de Pina também tece críticas, apontando o dedo à morosidade na concretização de projectos, como o museu de arte sacra e da escravatura. E na tomada de decisões que põe em causa o património natural da Cidade Velha, como "as esplendorosas encostas, condenadas à desertificação e desleixo, embora os muitos alertas”.

Iluminação do sítio

Para o vice-presidente da Câmara Municipal de Ribeira Grande é igualmente grave que o sítio histórico não esteja “servido por uma eficiente iluminação pública, que satisfaça residentes e turistas”. E que não tenha um programa que a liberte "dos numerosos fios elétricos" e determine que tipo de postes e de lâmpadas devem ser usados. Sonhos que “têm esbarrado em múltiplos e inconcebíveis desinteresses" e na "carência de recursos, tanto da autarquia como de privados”.

Felizmente, Cidade Velha "multiplicou amizades no mundo, granjeou uma rede de municípios geminados, sobretudo os de Portugal e dos países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

Mudanças

A tradicional criação de porcos no quintal de casa tem os dias contados na Cidade Velha. Até o fim de 2014, em Achada Forte, arredores do sítio histórico, deverá ser construída a pocilga que vai receber os animais de 60 famílias. Viaturas pagas pela Câmara garantirão o transporte diário dos donos dos suínos até a pocilga, devendo o custo ser subsidiado pela Taxa Ecológica. “Esta é uma questão de primeira necessidade”, avalia Pina.

Escavações

Mas há outros desafios, alega Jair Rosdrigues. "O património imaterial merece atenção científica”, declara o curador da Cidade Velha. No mês de Setembro, uma equipa de arqueólogos británicos da Universidade de Cambrigde desembarca de novo em Cabo Verde para entregar os resultados laboratoriais das últimas escavações feitas no entorno fértil do Convento seiscentista de São Francisco, onde o grande orador Padre Antonio Vieira teria pregado.

Entre os vestígios estudados e datados estão dentes, azulejos e moedas que serão posteriormente catalogados e descritos em um relatório. Segundo Jair Rodrigues, “a ideia é museulizar futuramente estes achados, como atrativo turístico”. Testamentos deixados por personalidades que viveram na Cidade Velha podem “revolucionar a história de Cabo Verde e da própria exploração ultra marina”, observa o curador, narqueólogo de formação, um dos cinco habilitados para a prática no país.

Património subaquático

Cerca de 100 navios naufragaram ao longo da história na costa da Cidade Velha. A exploração arqueológica subaquática continua no entanto num plano longínquo. A fragilidade ou a quase inexistência de matéria legislativa em Cabo Verde sobre o turismo e a exploração arqueológica subaquática, bem como a falta de um órgão fiscalizador explicam o pouco avanço nesse campo. “O problema é que entre 1998 e 2004 Cabo Verde teve uma experiência má. Empresas que estiveram no país a pretexto de explorar os sítios subaquáticos saquearam pertences da Cidade Velha”, recorda Jair Cruz.

Empresas de exploração subaquática do Brasil e das Ilhas Canárias já teriam demonstrado interesse nas futuras incursões de levantamento e resgate dos tesouros que, acredita-se, estarão submersos no mar da Cidade Velha. E escolas de mergulho nacionais revelaram intenções de explorar o potencial natural local. “Para isso precisamos ratificar as convenções de Património Subaquático da Unesco, além de readequar nossa legislaçáo acerca desta matéria e criar fiscalização por meio de parcerias. As Forças Armadas, a Agência Marítima Portuária, a Empresa Nacional de Portos (ENAPOR), a população local e os próprios pescadores poderão ser sensibilizados e preparados” para ajudar na defesa dos vestígios dos navios que afundaram carregados de metais preciosos, porcelanas, entre outros bens.

Na avaliação do historiador e diplomata cabo verdiano Daniel Pereira, é imperativo criar um “museu local não só histórico, mas também etnográfico. A Câmara Municipal e o Ministério da Cultura precisam dar as mãos na identificação de projectos concretos. Se Goré consegue, por que nós não?”, critica.

Para Pereira “há muito trabalho para fazer. Temos de ser mais criativos, dedicados e interessados. Já se fez alguma coisa, mas precisamos fazer muito mais”. Um plano de divulgação mais audocioso para o sítio arqueológico a nível mundial é uma das propostas do historiador. “É preciso informações diversificada em papel, postais ilustrados dos monumentos, mapas do lugar, pequenas histórias passadas em Cabo Verde, como os ataques de Francis Drake e Jacques Cassard".

Porque "há documentos para dar suporte a esta ideia. Podia ser oferecido a história digitalizada e animada do sítio. Uma vizualização, quem sabe, dos fundos do mar do antigo Porto, com os seus vestígios. Porque não um barco, estilo Caravela, com fundo de vidro ou outro material transparente?”. No entanto, a preservação do sítio histórico continua a ser um dos maiores desafios. Ou seja, a sensibilização da sociedade civil e órgãos públicos.

Texto & Fotos por: Barbara Camargo

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