OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Consultor insurge-se contra a peça «Turismo em Cabo Verde: A verdade sombria por trás das férias All Inclusive” 08 Agosto 2017

Penso que hoje já não há dúvidas para ninguém que o turismo, além de ter sido o motor do desenvolvimento económico e social de Cabo Verde, nos últimos 15 anos, tem trazido melhorias significativas nas condições de vida das pessoas. Nos primeiros 5 anos deste século, os dados do senso geral da população mostravam que a Boavista tinha uma tendência para perder população. Hoje passou de 4.209 habitantes em 2000, para 15.533 em 2016. Ou seja, a tendência inverteu-se.

Por: Vitor Fidalgo
(Consultor Independente, na área do investimento privado externo)

Consultor insurge-se contra a peça «Turismo em Cabo Verde: A verdade sombria por trás das férias All Inclusive”

Senhor Director do jornal “A SEMANA on-line”.

Como leitor assíduo do jornal, foi com algum espanto que li na edição do dia 24 de Julho, um artigo intitulado: “Turismo em Cabo Verde: a verdade sombria por trás das férias All Inclusive”.

Longe de mim pretender indicar ao jornal o que deve ou não escrever e que artigos de opinião deve ou não publicar. A sua linha editorial dita o que deve ou não ser feito. Contudo, eu tenho a certeza que se alguém mandar um artigo de cunho claramente racista ou fascista, o jornal recusará a sua publicação. Se alguém mandar uma reportagem denigrindo a imagem da nação caboverdiana, baseando-se apenas num acto ou comportamento isolado, o jornal de certeza recusará dar cobertura à generalização de um acto ou comportamento isolado.

Penso que hoje já não há dúvidas para ninguém que o turismo além de ter sido o motor do desenvolvimento económico e social de Cabo Verde, nos últimos 15 anos, tem trazido melhorias significativas nas condições de vida das pessoas. Nos primeiros 5 anos deste século, os dados do senso geral da população mostravam que a Boavista tinha uma tendência para perder população. Hoje passou de 4.209 habitantes em 2000, para 15.533 em 2016. Ou seja, a tendência inverteu-se. Porquê? Isso só pode ser resultado da migração interna voluntária. Do meu conhecimento, nenhum Governo de Cabo Verde decretou a migração forçada para Boavista ou Sal. Se as pessoas abandonaram as suas aldeias nas ilhas de Santiago, Fogo, Santo Antão, S. Nicolau ou mesmo S. Vicente para irem trabalhar nas ilhas da Boavista ou Sal, apesar de toda a precariedade do trabalho, é porque estão menos mal que nas ilhas de origem. Não sejamos mais papistas que o Papa. Portanto os Senhores Hans e Imra que abandonaram o seu paraíso europeu para ir ocupar-se dos coitados na Boavista, quais bons samaritanos (!!) estão a mentir e a fazer demagogia. O Órgão que os entrevistou e mandou o artigo ao “ A SEMANA” deve pertencer ao grupo de uma espécie em extinção na Europa e no mundo que já não encontra refugio nem na China nem na Rússia, porque estes dois antigos berços do comunismo, há muito que renegaram essa doutrina para abraçarem a economia de mercado. A sua mentira é tão descarada que falam de trabalhador a cavar cascalho. Mas todos sabemos que hoje mesmo para fazer a fundação de uma casa particular, as pessoas alugam escavadoras. E o jornal veicula tamanha mentira, dizendo que na construção de um empreendimento hoteleiro de grande porte, o empreiteiro vai utilizar a mão-de-obra para “cavar cascalho”? E depois se alguém trabalhar 12 horas por dia é porque quis fazer quatro horas extraordinárias.

Questão de hotéis longe dos povoados. Sejamos claros. Para o turismo balnear, os hotéis devem situar-se perto das praias. Será que Sal-Rei tem oferta para o turismo urbano? Portanto, a não ser que alguém esteja louco, ao investir num hotel para o turismo balnear, escolhe as praias de Chaves, Morro de Areia ou Santa Mónica. Outra pergunta: existe em Sal-Rei ou Rabil oferta local e condições de atratividade para os turistas? Não é por acaso que venho lutando para utilizarmos todas as taxas (vistos e taxa turística) na qualificação do destino. Falamos muito da “Barraca” na Boavista. Mas sobrevoando Sal-Rei, vê-se que o ordenamento da zona entre a praça e praia de Estoril é pior que o da Barraca. E se formos andar pela zona entre o cais antigo e o porto actual, ficamos arrepiados, com a imundice que existe ali. Quem são os culpados? Os investidores, os Tour-Operadores, os hoteleiros?

Honestamente, que há para comprar, como produto cabo-verdiano? Como pretender que um europeu habituado a um certo padrão de higiene vá comer num sítio onde não há uma rede de esgoto a funcionar? Num restaurante que fica a menos de 200 metros de uma grande concentração de imundice? Qual é tratamento que damos ao lixo doméstico ou industrial? Atenção, os hotéis pagam muito dinheiro para a entrega do lixo à entidade de recolha. Felizmente, na ilha do Sal, a Câmara Municipal já deu o mote, rompendo um contracto indecente com Sal Limpa, para organizar um sistema adequado de recolha e tratamento do lixo, e acabar com a moscas e outras imundices que infestam os nossos destinos turísticos.

Ainda sobre o All-inclusive. Há uma ignorância que mete medo sobre este termo. Todos falam disso e muito poucos sabem o que é. Este modelo não nasceu em Cabo Verde. Existe um pouco por todo o mundo, existe em Espanha e recentemente foi introduzido no Algarve. Tentem saber porquê. Quanto ao preço. Basta consultar a internet para se constatar que destinos como Turquia, Egipto, alguns sítios das Canárias são mais baratos que Cabo Verde. Ademais, para ser honestos, temos que reconhecer que a nossa oferta ainda está longe de entrar na classe de destinos de luxo que, eles sim, são caros. Falamos muito das Maurícias ou Seychelles como modelo e deixamos muita confusão no ar. Nunca os caboverdianos fãs destes destinos disseram, que se para lá não funcionam os charters, o regime de estadia é também all-inclusive ou no mínimo meia-pensão. Infelizmente num passeio que o Banco Mundial proporcionou a alguns caboverdianos à Seychelles, não lhes foi dado a conhecer certos detalhes da realidade do turismo nestes paraísos. Como passar férias no Beachcomber Paradise (Maurícias) de outro modo? Como passar férias no Constance Lemuria (ilha de Praslin – Seychelles) ou no Kuramathi Island Resort (Maldivas) sem ser num regime all-inclusive ou meia pensão? Estes hotéis não ficam perto de nenhum povoado e o turista, salvo uma vez ou outra não vai apanhar o táxi para ir ter cada refeição no povoado.

Concordo que deveríamos ter uma melhor politica de empoderamento dos caboverdianos no sector do turismo. Mas isso tem sido falhanço das várias instituições criadas pelos sucessivos governos, tais como IADE, ADEI, etc. que falharam na sua missão. Igualmente as políticas sectoriais falharam e têm falhado no sentido de regulamentar o exercício de certas actividades, de modo a permitir aos caboverdianos melhores condições de acesso e consolidação em certas posições, na cadeia de criação de valor.

Relativamente aos salários. Não se pagam altos salários no sector. Em Cabo Verde, os salários são globalmente baixos. Mas posso declarar que há Chefes de Mesa, caboverdianos que têm um salário quase igual ou superior a um Quadro com formação superior na Função Pública. Contudo, o pouco que se paga tem sido atractivo e motivador para as pessoas deixarem livremente as suas aldeias e irem trabalhar na Boavista e no Sal. Devemos continuar a mirar melhores salários e melhores condições de trabalho. Mas isso dependerá de políticas acertadas ou não que forem definidas pelo Governo ou decisões acertadas ou não decididas pelas Câmaras Municipais. Acrescento que muitos empregados caboverdianos foram alvo de formação e ascenderam na estrutura do pessoal.

Pergunto que alimentos e bebidas são produzidos localmente para abastecer os hotéis? Sejamos sérios. Mesmo antes do fenómeno do turismo, Cabo Verde, nos bons anos agrícolas, importava cerca de 85% de alimentos. Consultem as estatísticas. Até onde podem ir a demagogia e a ligeireza na análise?

Isso de dizer que os resorts pertencem a grandes multinacionais é disparate. É verdade que não pertencem a pobres e nem poderiam pertencer-lhes. Mas para a informação dos leitores, os hotéis existentes em Cabo Verde, não pertencem a multinacionais mas não haveria mal nenhum nisso.

Há muitas anomalias no funcionamento do sector. Mas em grande parte isso tem sido devido à fraqueza das nossas politicas e da fiscalização. Aproveito para dar razão ao meu amigo José Almada pela sua indignação, porque foi barrado à porta de entrada do espaço do Marine Club. E seria barrado em muitos outros resorts aqui em Cabo Verde. Mas discordo dele quando ele culpa o All-Inclusive. Nos hotéis Meliã no Sal que também são “all-inclusive”, pode-se ir até à Recepção, sem ser cliente e até pode-se pagar para lá estar umas horas, bebendo ou ter uma refeição. A culpa é das nossas autoridades que permitiram que certos resorts funcionem em Cabo Verde como se fossem fortalezas, desrespeitando todos e tudo. Acredito que os próprios Agentes da IGAE ou da Direcção Geral do Turismo, se lá forem numa inspeção surpresa, esta morre no portão, porque o guarda barra-lhes a entrada e liga para a Recepção. Portanto Autoridade, onde estás?

Constacto que há uma insuficiente informação de muitos jornalistas sobre o funcionamento do turismo. Desafio-os a organizarmos uma visita/inquérito aos diferentes resorts e hotéis independentes e depois escreverem a sua própria opinião.

Dito isto, reconheço a liberdade e independência de “ A SEMANA” publicar o que quiser. Mas por isso, tem também o direito e a liberdade de não publicar certas ideias que manifestamente não correspondem à realidade.


Nota Redacçao : 1) O A Semana assume por inteiro a sua linha editorial crítica, independente e responsável, tendo por base o estado de direito democrático e o respeito às leis da República. Por isso, defende que não deve haver tabu na abordagem de temas de interesse nacional, como é o caso do modelo de turismo «All Inclusive». 2. Considera bem-vendo o artigo do consultor e amigo do jornal, Vitor Fidalgo, que, ao exercer o contraditório exprimindo livremente a sua opinião como os outros, trouxe mais informações sobre o assunto. 3. A peça em causa tem autoria confirmada. Trata-se do site holandês ( Oneworld.nl . link: https://www.oneworld.nl/de-duistere-waarheid-achter-je-all-inclusive-vakantie ) para o qual se deve enviar desmentidos sobre alegadas inverdades e receber réplicas. A reportagem teve o mérito de mexer com autoridades e operadores económicos nacionais e estrangeiros e provocar um debate sobre o modelo do turismo «All Inclusive» que se pratica em Cabo Verde - por isso já teve mais de 43 mil visitas.

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