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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

RESPOSTA-I (SOBRE FESTIVAL MORABEZA) DO POETA JOSÉ LUÍS TAVARES AO MINISTRO ABRAÃO VICENTE: DOS DISLATES E DESNORTES DE UM MINISTRO CRIATIVO (OU KUME BEBE LI NA TAPADINHA) 23 Outubro 2017

De descoberta em descoberta ainda o criativo ministro, ou, por ele, os novos costureiros da caduca e esfarrapada morabeza, acabarão por descobrir que Luís de Camões não passou para o oriente, mas esteve encalhado sempre aqui na cidade velha, bebendo o seu grogue à sombra do pelourinho de má memória, tendo aí escrito parte d’Os Lusíadas.

Por: José Luiz Tavares, poeta caboverdeano

(II-Parte sai na próxima edição)

RESPOSTA-I  (SOBRE FESTIVAL MORABEZA) DO POETA JOSÉ LUÍS TAVARES AO MINISTRO ABRAÃO VICENTE: DOS DISLATES E DESNORTES  DE UM MINISTRO CRIATIVO (OU KUME BEBE LI NA TAPADINHA)

Guarda sempre contigo, apesar das vicissitudes,
esse desejo de excelência: não há
melhor companheiro do espírito.

João Vário

Caro Abraão Vicente,

Noutros carnavais estaríamos a emborcar umas cervejas, ou coisa mais maléfica, a degustar umas moreias no meu adoptivo bairro do brasil de achada santo antónio e a cortar alegremente nas casacas do mundo.

Calha o meu amigo estar agora em vestes de poder, e eu continuar nas minhas de sempre — intransitivo e intransigente poeta com o dedo do meio apontado às fuças do mundo, mesmo se de morabeza aqui falamos.

Faz vossa senhoria bem, na sua entrevista à rtp-áfrica, em descobrir no Arménio Vieira o maior poeta de Cabo Verde. Só é pena que quem manda na sua morabeza apenas o tenha descoberto depois de um email meu a vossas excelências, ministro e curadora da biblioteca nacional de cabo verde, e se tenha posto em campo afanosamente bem depois de o senhor já ter atroado o parlamento, as páginas dos jornais e as ondas hertzianas com os nomes dos magníficos inigualáveis galácticos, incomensuráveis desde o big bang deste minúsculo universo das letras, restando ao nosso Conde o consolo de ser o rei aqui da tapadinha, uma espécie de redescoberto soberano do ilhéu de santa maria, ou nem isso, que quem reina ali agora são os milhões do magno David Chow.

Também nessa súbita fúria descobrimentista acabamos de ter notícias do achamento de um tal Oswaldo Osório, sagita e escricoitor, que completará por estes dias a bela idade de oitenta anos. Saúdo-o com dois hurras!, já que por estes dias não podemos emborcar coisa mais ardente (o Vavá, quando acontece eu ir visitá-lo, debaixo do olhar vigilante do Brito-Semedo, é só sumos e bolinhos) e finjindo não saber que a poesia sempre mandou à merda tronos e linhagens, comendas e festanças, ou não escrevera ele em Signo Poético, poema matricial do livro Clar(a)idade Assombrada:«mas aos diplomas e outras honrarias/neles limparás o cu». Contudo, são sempre positivos tais achamentos, mesmo se para se redimir dalguns maus passos ou para tentar atirá-los à cara de quem nunca temeu a sombra de ninguém, pelo contrário, sempre encontrou em um ou dois do seu torrão o bálsamo benigno para as horas solitárias de criação.

De descoberta em descoberta ainda o criativo ministro, ou, por ele, os novos costureiros da caduca e esfarrapada morabeza, acabarão por descobrir que Luís de Camões não passou para o oriente, mas esteve encalhado sempre aqui na cidade velha, bebendo o seu grogue à sombra do pelourinho de má memória, tendo aí escrito parte d’Os Lusíadas.

Sintomático também é a ausência de Mário Lúcio deste festival. Ele é, hoje por hoje, apenas o ficcionista mais interessante de Cabo Verde e o mais premiado depois do José Luiz Tavares, embora nunca fizemos estas pobres contas entre nós, pois nas nossas ribeiras di Txonbon i Mangui, nas nossas eiras de Montería e Riba Strada essas contas não fazem qualquer sentido. Não digo isto (aliás, tenho-o dito publicamente inúmeras vezes) para apoucar ou rebaixar ninguém, mas para manifestar o reconhecimento de um alto conseguimento. A transnacional parceira (vejam tão cuidadoso que estou hoje, que evito o termo «estrangeiro» que encanitou basto o criativo e catita ministro e a mão que pariu o manhento comunicado, que esmiuçaremos mais adiante) não pode desconhecer a sua existência, publicando ele num dos dois maiores grupos editoriais portugueses, e tendo recebido o ano passado o importante Prémio Pen Club de Narrativa pela sua última obra literária, Biografia do Língua.

Não me espanta que vossa excelência, referindo-se à minha pessoa, me apresente como alguém com acesso à comunicação social. Esse acesso advém, porém, única e exclusivamente das obras maiores que vou publicando (só este ano já vamos em três), que não só acrescentam, mas reformulam e recriam uma visão do mundo e da existência e, por via delas, os prémios que vou recebendo no meu país e fora dele, e não por via da detenção de qualquer comando institucional desses meios, ou fruto duma qualquer histeria comunicativa, que não quadra bem com o perfil que sempre cultivei. Não, senhor ministro. Quando algo me ofende, ou ofende os valores que defendo, de rosto destapado, saco da pena, a única arma que possuo, e em legítima e necessária defesa aponto ao alvo e disparo para o coração do problema. É esta a minha exigência, é este o meu modo de actuar. Sei que não receberei aplausos por isso, porém pouco importa: sempre me soube um exército de um homem só. As pedras e os apupos de hordas embuçadas e fanatizadas saber-me-ão a doces e incentivantes palmas, ou não escrevera eu estes premonitórios versos em Polaróides de Distintos Naufrágios:

Chegas assim desvairado na turva luz de cieiro/
:«poeta de arrebenta, que não escreves sobre/
vómitos e afins; pior ainda — em rima pobre/
atiras contra a enxúndia e o cronicar matreiro,//

como queres que te façam olímpico profeta/
em tempos de baboseira s’inda por bandeira/
tens mais que o cocorocó, a pirueta, a zoeira/
em que se fingem mais do que simples atleta//

de torneio?» A pátria a ti nunca te foi muleta?/
Usas o verso como luneta pra mais longe ver?/
Ao coração regressas apenas como despiste//

aos que buscam o mapa, a linha, seguindo a seta?/
Não será meigo contigo o cardume, hás-de ver,/
tu que dos caducos, mofinos deuses sempre riste./

Estou a tentar abordar esta questão nos termos mais suaves possíveis, sem diminuir a minha exigência cívica e cultural, mas fazendo com que a minha voz se ouça lá onde acho que as práticas não se compaginam com as propagandeadas intenções, e se fere, mesmo se por omissão, a dignidade daqueles que são a razão de existência de um ministério ou de um ministro da cultura.

(Bem dizia o Olavo Correia, pessoa que muito estimo, que o coração de um poeta é frágil, nem sonhando ele sequer quanta verdade há nisso, e com que facilidade se fere).

Entrando agora no concreto assunto que motiva a minha resposta, ou seja o comunicado do MCIC e a entrevista de V. Excia à rtp-áfrica e à rádio renascença: nem V. Excia, nem a Biblioteca Nacional, nem a booktailors, nem ninguém neste vasto mundo de deus ou do demo, poderia dizer ou escrever que devido a dificuldades em se chegar a um acordo quanto aos termos da minha participação eu não estaria no evento, pois eu não estava a negociar absolutamente nada, como provarão os emails em anexo. Fui eu que recusei, soberanamente, apesar da edulcorante reiteração do convite, ir a esse evento. Por isso tomei esse comunicado como tendo sido parido por alguém que não estaria suficientemente informado, escrito em termos suficientemente manhentos para deixar a dúvida no ar, sem responder às reais questões que eu levantava na notícia da inforpress. Convém salientar que à data da feitura da peça da inforpress tudo o que se noticiava ali era estritamente verdade, e só a doença, e um internamento do seu autor durante vários dias, impediu a sua publicação na altura em que foi feita, e permitiu aquele comunicado meio tosco e triunfalista, como se aqueles dois generosos escritores fossem apenas meros joguetes no tabuleiro das suas pequeninas ambições.

Acontece que na entrevista à rtp-áfrica o senhor usa a mesma manhenta formulação, ao mesmo tempo que tenta desvalorizar quem se opõe, não ao evento, nem às suas parcerias, mas à forma da sua execução.

O poeta José Luiz Tavares exigiu unicamente tratamento condigno para si e para os escritores caboverdeanos, o que já não seria possível, porque, na sua opinião, a desconsideração e o menosprezo já tinham sido praticados. E nem vale como argumento dizer que tem consigo a Academia Caboverdeana de Letras (ACL) e não sei quantos escritores caboverdeanos. Isso não torna a ofensa menos grave. Mostra apenas o que alguns estão dispostos a engolir para aparecerem à mesa dos poderes e em algumas feiras de vaidades.

O Senhor ministro fala em ACL? Olha que dois! Uma instituição hoje paralisada e descredibilizada, metida ao bolso para servir de agência de viagens e promoção da sua presidente, como escalpelizei em março em longo manifesto, que quase todos aqui na pátria, não podendo rebatê-lo, fingiram não ter lido? ACL?, uma instituição de critérios tão latos que até acolhe gente de obra menoríssima, mas se esquece de escritores verdadeiros como António da Névada, Joaquim Arena e Jorge Araújo, para citar apenas esses três? O que vale é que vem aí alguém com perfil e capacidade para a necessária refundação e a salutar vassourada que se impõe.

Ainda sobre a quantidade de escritores caboverdeanos que vão estar no evento: é como se um treinador que tivesse preterido o Messi ou o Ronaldo se justificasse dizendo: senhores eu tenho onze empurradores de bola e o Messi ou o Ronaldo é apenas um. Talvez, mantendo-nos ainda no campo da analogia futebolística, se pudesse socorrer daquele belo achado (digo-o pela sua poética beleza), quase um apotegma filosófico, do nosso primeiro chefe de governo em democracia que, tendo demitido o então ministro dos negócios estrangeiros, hoje nosso saudado presidente da república, justificou-se: bon tanbé ta suplentadu.

Quanto à menção de que desde cedo manifestei reservas em relação à booktailors, é porque vivo em Portugal e conheço o tipo de formatação que ela imprime, legitima e soberanamente, às suas realizações. Eu, enquanto poeta caboverdeano, mesmo se de outros mundos também, entendo que não é um modelo que convém à diversidade que um evento promovido pelo estado caboverdeano deve patentear, quer ao nível dos participantes nacionais, quer dos estrangeiros, pois ela, mais uma vez no seu legítimo direito, convida sempre os mesmos prosadores ou figuras mediáticas que por acaso publicam ou publicaram livros, ignorando áreas de maior exigência, ou de menor visibilidade ou comercialmente mais desinteressante como é o caso da poesia. (Noutros lugares, como na Madeira, por exemplo, cedo se deram conta que esse modelo não era benéfico, e cada um foi para o seu lado, com naturalidade). Quantos poetas não caboverdeanos vão estar no evento? Zero. Sim, sei que há lá gente que também escreve ou escreveu poesia, mas se escrevessem apenas poesia seriam convidados? À data em que escrevo esta resposta, quantos escritores não portugueses, para além do Agualusa e do Mia Couto? Zero. Aliás, voltando à tentativa perversa de fazer passar a ideia de que eu estaria contra eles: sabe o ministro Abraão em que lugar o Agualusa, um tipo decente a toda a prova, me tem? Não que me envaideça, porque tais bitolas são sempre falíveis e o que importa é a diversidade. Mas mesmo assim vou dizer-lhe, senhor ministro: ele acha-me o mais importante escritor vivo de Cabo Verde. Sabe o lugar que me tem o Arménio Vieira, que inclusive já fala em superação daquele que considero o maior de todos nós? O Agualusa e o Arménio não lhe permitiriam nunca tentar jogar os seus nomes como um trunfo, como fez repetidamente, contra qualquer outro escritor. Por isso só entendo a sua sanha se houver alguma coisa mais com a sua transnacional parceria que eu desconheça, pois ter referido à coordenadora logística do evento como empresa estrangeira não é razão para tanto. Que eu saiba, ela não é caboverdeana, nem mista, donde, logicamente, estrangeira.

Sou um poeta livre, não sou agenciado nem estou amarrado a quaisquer parcerias transnacionais (a não ser àquelas vozes que a hospitalidade cosmopolita da minha poesia incorporou para a reconfiguração de um certo cabo verde vivenciado ou imaginado), fiz da exigência e da intransigência o meu selo e a minha marca, e não há morabeza alguma que me fará desviar desse caminho. Pena é alguns, encostados às baias dos transitórios poderes, (mas a ementa da dignidade não é para todos) não erguerem as suas vozes, mas escrevam ou compactuem com comunicados manhosos e sem rosto, ou, mostrando bem aquilo que são, tenham tentado fazer uma reles vingança retirando da programação a peça Coração de Lava, do grupo Raiz di Polon, apenas porque baseada no meu livro homónimo. Para mim é um alívio, embora lamente por eles, que nada têm que ver com as minhas desassombradas posições.

Se fizeram isto à vista de todos, o que não tentarão pela calada? Plantarão notícias supostamente comprometedoras em páginas amigas? Criarão perfis falsos no facebook para soprar lama e estrume a ver se colam? Descobrirão calotes escondidos? Torpes vícios? Obscuros segredos familiares? Marcarão apelativas actividades em cima do lançamento do meu livro Rua Antes do Céu no dia 31 de outubro, a ser apresentado pelo poeta e presidente da república Jorge Carlos Fonseca? Impedirão os órgãos de comunicação sob o seu comando de fazerem a cobertura do evento?

Tornando àquilo que me pareceu menos curial na sua entrevista, senhor ministro: eu não descobri hoje nem ontem a grandeza do Arménio Vieira. Noutros carnavais, quando a rebeldia era ainda um trampolim para outros legítimos voos, lembra-se de me ter entrevistado e de eu lhe ter dito que o Conde era o nosso maior poeta vivo? Desconhecerá o elogio que lhe dediquei, quando ninguém mais o fez, aquando da atribuição do prémio Camões, em maio de 2009, duas semanas depois dessa entrevista? Não lhe ficou nada bem a desesperada e infrutífera tentativa de opor a grata e grada figura do Arménio Vieira à minha. Bastava-lhe reconhecer, com humildade de servidor público, porque ninguém é perfeito, que se houve essa minha pessoal percepção de desconsideração ela não teria sido intencional, e tudo teria ficado por ali, embora não alterasse a minha posição de recusa em participar no evento.

Eu nunca apostaria no fracasso desse festival, mesmo não gostando do nome, mesmo com as públicas reservas que manifestei (quando achei que já era tempo disso, porque não me foram dados em privado os esclarecimentos que pedi quer à curadoria da biblioteca nacional e ao MCIC, quer à booktailors, como se verá pelos emails em anexo), sempre com o intuito de um melhor enquadramento e desejável melhoria, pois eu próprio critiquei asperamente o seu antecessor, mesmo se meu amigo e confrade, e sobretudo grande escritor, pelo descaso a que o livro e a leitura tinham sido votados. No entanto, o pequenino e reles ensaio de vingança, com a retirada da programação da peça do grupo Raiz di Polon baseada no meu livro (imaginem só que essa peça recebeu apoio do MCIC, através de concurso, para a sua montagem) dá bem a medida da pequenez de alma de quem escolhemos para gerir as coisas da cultura, mesmo se enchem a bocarra espaventosa com o slogan «a alma das ilhas».

Fiz há poucos meses cinquenta anos, que vim comemorar com os meus aqui no meu torrão natal (e cujas realizações o ministro Abraão acha que não tenho o dever de criticar por cá não viver em permanência), e nunca me senti tomado de tanta energia criativa, que quero aplicar no propósito e na tentativa de deixar um legado de obras relevantes à posteridade. Mas hoje é ainda tempo de reposição duma pequenina verdade e da reiteração da exigência de máxima dignidade no trato com o poeta José Luiz Tavares, ou com qualquer outro criador caboverdeano, quer da parte de quem gere transitória e localmente as coisas da cultura, ou de sobrevindos alfaiates transnacionais (ainda que a transnacionalidade de alguns patrícios nossos se resuma aos mesmos bolsos e paragens), que costuram fatos mais ajustados a espinhas mais dóceis e maleáveis do que a deste seu sincero amigo, que em futuros carnavais, quando já despido V. Excia das vestes do poder, ou apeado dos seus pedestais, há-de rir-se contigo das hilariedades deste mundo e do outro. Mas hoje é a cabeça alta, a coluna direita e o verbo desassombrado a natural pose que tenho a oferecer a quem pense, transnacional, galáctico, ou simplesmente deste chão e destas leiras que foram sonho de gerações, que somos todos farinha do mesmo saco.

Até lá, cuidemo-nos, e creia-me alguém que aprecia a sua energia, independentemente das reticências que possa ter em relação à condução de assuntos públicos. E se lhe dou a minha sincera perspectiva, não é para o fragilizar, mas para ajudar a melhorar a sua actuação, com a qual todos ficarão a ganhar. Neste caso, bale pena djobe pa ladu, para as palavras de um cidadão e criador exigente, embora distanciado, que não distante, torcendo sempre para que as boas iniciativas triunfem, e esta festa do livro manifestamente o é, ainda que eu mantenha reservas quanto ao nome, figurino e modos da sua efectivação.

ANEXOS:

Email I (31 de Agosto 2017)

Ex.ma Senhora Curadora da Biblioteca Nacional,
Prezada Doutora Fátima Fernandes,

O grupo Raiz di Polon está a finalizar os ensaios da peça «Coração de Lava», baseada no livro homónimo da minha autoria. Tendo em anterior ocasião comunicado à senhora Curadora da BN, sem retorno, o desejo manifestado pelo grupo em apresentar a peça em estreia mundial, integrado na programação do festival literário que terá lugar em outubro, na cidade da Praia, volto a colocar à sua consideração, com conhecimento ao Senhor Ministro, a manifestação dessa disponibilidade.

Sei que, por ter encontrado o projecto em andamento, muitas coisas relacionadas com esse festival não dependem da Senhora Curadora (embora estranhamente - perdoe-se-me o desabafo -, pois se a BN de Cabo Verde não pode comandar um festival literário organizado com o dinheiro dos caboverdeanos, para que mais servirá ela?) e se for este um dos casos, muito agradecia que tivesse a gentileza de levar este desejo a quem decide sobre os aspectos da programação.

Ultrapassados que estão os constrangimentos criados pela ACL à edição da obra Rua Antes do Céu, vencedora do Prémio BCA de Literatura, a mesma será lançada em outubro, em edição da Rosa de Porcelana. Se for do interesse da organização do festival, e das entidades que têm uma palavra a dizer acerca do livro, podia-se integrar o lançamento no âmbito do festival.

Aproveitando a oportunidade de estar a dirigir-me à Senhora Curadora, com conhecimento do Senhor Ministro, não deixam de me inquietar (é um verbo suave para o que sinto) as notícias que têm vindo a público acerca dos convites para o festival. Se é certo que o Senhor Ministro sempre falou nos nomes de um Arménio Vieira, Germano Almeida ou José Luiz Tavares - faça-se-lhe esta justiça - no plano prático não vejo tradução dessa manifestação. O que vejo na comunicação social é que determinados escritores estrangeiros já foram convidados, sem que eu saiba de nenhum convite aos escritores nacionais, que, legitimamente, deviam ser os primeiros a serem convidados, pois o festival, se estou bem informado, é suportado pelo dinheiro dos caboverdeanos, esteja quem estiver à frente da sua organização.

Não se pode permitir (eu pelo menos, e digo-o no modo frontal que me é característico, não o permitirei) que empresas comerciais estrangeiras tratem os escritores caboverdeanos como gente de segunda, a ser convidada quando a mesa já estiver composta com as grandes estrelas. Espero que as informações que me chegaram não estejam correctas e as coisas não estejam a passar-se deste modo, e este meu desabafo não passe disso mesmo.

Sem mais de momento, aceitem os meus sinceros cumprimentos.

Atenciosamente,

José Luiz Tavares

Email II (31 de Agosto de 2017)

Estimado José Luiz Tavares,

o meu nome é Catarina Sabino e escrevo-lhe da equipa de produção da Booktailors. Estamos a desenvolver, juntamente com o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, a Morabeza - Festa do Livro, que decorrerá na cidade da Praia entre 30 de outubro e 5 de novembro.

O evento contará com várias mesas redondas, visitas a escolas, seminários de capacitação profissional, feira do livro, espectáculos musicados, entre outras acções.

Nesse sentido, gostaríamos de convidá-lo a participar na Morabeza. Estamos ainda a fechar alguns detalhes da programação, pelo que poderei enviar-lhe posteriormente todas as informações relativas à sua participação, mas não queríamos deixar de contar com a sua presença.

Teríamos muito gosto em que aceitasse este nosso convite. Aceitando juntar-se a nós, peço que me indique qual a sua proveniência, por favor, para poder enviar-lhe uma proposta de itinerário.

Fico a aguardar a sua resposta e se precisar de qualquer esclarecimento, por favor, disponha.

Grata pela atenção,

Catarina Sabino

Email III (4 de Agosto de 2017)

Estimado José Luiz Tavares,

não sei se teve oportunidade ver o e-mail que lhe enviei no dia 31/07, mas reitero a nossa disponibilidade para qualquer esclarecimento que considere necessário.

Gostaríamos muito que aceitasse este nosso convite.

Email IV (7 de Agosto de 2017)

Bom dia,

Agradecendo o convite que me é feito, coincidentemente poucas horas após o envio à senhora Curadora da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, e com conhecimento do Senhor Ministro da Cultura, de um email com algumas questões para mim pertinentes, enquanto escritor caboverdeano, e relacionadas com um festival literário que se realiza em Cabo Verde e que é suportado pelo estado caboverdeano, aguardo respostas a essas questões antes de responder afirmativamente ao vosso convite.

Quando coloquei essas questões não estaria a pensar se viria a ser convidado para o festival ou não, mas entendi que eram questões que, enquanto escritor caboverdeano, deveriam ser aclaradas pela Biblioteca Nacional ou pelo Ministério da Cultura. Não me repugna que algumas dessas questões ou preocupações sejam transmitidas à booktailors pelas entidades mencionadas.

Atenciosamente,

José Luiz Tavares

Email V (14 de Agosto de 2017)

Estimado José Luiz Tavares,

Espero que se encontre bem.

Os convites nacionais e internacionais têm vindo a ser desenvolvidos ao longo das últimas semanas. Mantemos a nossa enorme vontade de contar consigo na programação. Espero que possa aceitar positivamente o nosso convite. Creia que tudo está a ser feito por parte do Ministério da Cultura e Indústrias Criativas, da Biblioteca Nacional e da nossa parte para que esta seja uma grande celebração da literatura cabo verdiana.

Aguardando o seu parecer, despedimo-nos calorosamente,

Catarina Sabino

Email VI (15 de Agosto de 2017)

Prezada Catarina Sabino,

Como lhe disse em email anterior, sendo este um festival oficial suportado pelo estado de Cabo Verde, há questões que eu coloquei ao ministro da cultura e à curadora da biblioteca nacional, e que entendo devem respondidas por eles.

Em todo o caso posso adiantar-lhe o que para mim é inaceitável, neste caso em concreto, e cujo esclarecimento, repito novamente, é da responsabilidade das entidades caboverdeanas: quando foram contactados os escritores caboverdeanos? Que eu saiba, horas depois do meu email ao ministro da cultura e à curadora da biblioteca nacional. Há quanto tempo a booktailors tem os meus contactos fornecidos pela biblioteca Nacional? Quando aparecem os nomes dos convidados tidos como grandes estrelas que vão abrilhantar o festival? Em junho. Não deveria ser o Arménio Vieira, o único prémio Camões caboverdeano, a encabeçar a fileira dos escritores que vão estar no festival e, porventura, o primeiro a ser convidado? (Sei que neste momento há dificuldade em contactá-lo mas eu próprio indiquei ao ministério da cultura a via alternativa.)

É assim que se pretende fazer a grande celebração da literatura caboverdeana, convidando os seus principais representantes em último lugar? Que a booktailors faça essa hierarquização, não me choca, mas que o estado de cabo verde o permita, consciente ou inconscientemente, eu, enquanto cidadão e escritor caboverdeano, terei imensa dificuldade em aceitar.

Atenciosamente,

José Luiz Tavares

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