OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Da iliteracia e do prémio nacional para o leitor 27 Abril 2018

Então, neste particular, esforcemo-nos para colocar tudo o que é supérfluo de lado e apresentar as nossas propostas. Queremos com isto dizer que precisamos de inverter o rumo das coisas, ou seja, ao invés de estarmos a inventar prémios literários que nunca saem do papel e da cabeça da tutela, para escritores que não estão a conseguir vender os livros, porque existe uma gritante falta de leitores, por que não criar prémios literários para os atuais ávidos leitores?

Por: Domingos Landim de Barros

Da iliteracia e do prémio nacional para o leitor

Este artigo não visa criticar nada e ninguém. Com isto, pretendemos tão somente propor uma solução para combater e contornar um hediondo problema, que se dá pelo nome de défice de leitura em Cabo Verde. Somos a chamá-lo hediondo em virtude da sua propensão para ser um fautor de várias outras calamidades que assolam o nosso país. Esse efeito cascata não deve ser menorizado. Se há coisa que nos deve preocupar a todos, em razão da sua transversalidade, é o setor da cultura, onde incluem, naturalmente, os saudáveis hábitos de leitura. Por isso, não importa saber quem esteve outrora ou quem está agora à frente da pasta com a tal designação. O que importa, do nosso ponto de vista, é agir o mais rápido quanto possível, para colocarmos a nossa gente na dianteira da literacia ao nível do continente.

Cabo Verde, enquanto país pequeno e insolar, com pouca população, com dezenas de instituições do ensino superior, não pode dar-se ao luxo, em vista de incomensuráveis ganhos conseguidos desde a independência a esta parte, de aparecer na lista de Estados com piores índices de literacia. Isto seria uma grande machadada em todo o nosso esforço de desenvolvimento. Ontem tivemos um dia angustiado. Tudo porque ao acedermos ao portal de um jornal português, deparamo-nos com uma desagradável reportagem, que começa com uma frase assim «Num país com problemas graves de iliteracia…». Este trecho chocou-nos bastante. Não por constituir uma repentina surpresa, porque já devíamos ter feito algo para evitar que hoje nos vissem desta maneira. Sim, porque na qualidade de cronista, de há uns anos a esta parte, quantas vezes não assistimos pessoas a reclamar de coisas como «texto longo, lucubrações, cansa o leitor…», etc. e quê. Qualquer observador atento sabe que a maioria esmagadora dos cabo-verdianos anda de candeias às avessas com a leitura. E pior: nem quadros com formação superior escapam à desgraçada conotação.

Habituamo-nos a incríveis facilitismos que só podiam dar nisto. Hoje, para muita boa gente, aquilo que não está no Facebook não existe. São formas ligeiras de ler e de abordar os desafios do mundo. Tudo a correr e tudo a degenerar. Nem pachorra para abrir a caixa de correio de e-mail tem a nova geração dos apressados. No ano passado, numa das nossas férias na Praia, alguém da área de imprensa escrita aproximou-se de nós e confidenciou-nos que estava desalentado com o facto de ter perguntado a um filho, já licenciado, se alguma vez tinha visto os seus artigos; que para o seu maior desapontamento o rebento lhe tinha confessado, com todo o desassombro do universo, que nunca o tinha visto nem lido. Se a literacia é o mais importante item a considerar quando se avalia a cultura de um povo, então estamos tramados. É claro que a cultura não é só a literacia e nem se quer só livros. Contudo, quando as pessoas de um país começam a ser apodadas de deficitárias em matéria de leitura, isso deve convocar-nos a todos no sentido de tomarmos medidas sérias e urgentes para pôr cobro a tal mazela. Recebemos esta notícia como um sortido muro no estomago, porque é das poucas vezes que ouvimos e vemos aqui no estrangeiro coisas em desabono da nossa terra.

Ainda para mais a falta de literacia tem implicação direta no atropelo aos direitos humanos. Nada sai mais aprimorado com deficiente literacia. Uma população devota de leitura, sobretudo a camada jovem, empenhada na procura de novidades, na partilha e na socialização daquilo que lê tem escasso tempo para se dedicar a práticas prejudiciais à sociedade. Se conseguirmos motivar pessoas a ler, estamos a dar um sinal claro e positivo em como queremos ir para cama descansados em relação a vários males que constantemente nos espreitam. Pensemos, por exemplo, no alcoolismo, que tende a ser um problema de saúde pública. Por isso, ter salas de leitura ou bibliotecas públicas apinhadas da juventude com diploma universitário e ávida de ter uma ocupação podia facilitar imenso a campanha patrocinada por Sua Excelência o Presidente da República «Menos álcool mais vida».

Isso para nem falar de outras drogas e do impacto que possa ter na diminuição da criminalidade. Se conseguirmos atacar o défice de leitura a montante, como criar ou apetrechar as vinte e duas bibliotecas municipais com livros e outros materiais interativos, estaremos a dar uma alternativa aliciante aos jovens e não só. Cabo Verde é um país reconhecidamente forte na questão da cultura. Aliás, qualquer país tem a sua sólida cultura. Resta é saber explora-la e potencia-la para ser um ativo importante. Como disse, certa vez, o nosso único Camões de literatura, numa entrevista a uma rádio «todos os povos têm a sua cultura. Quem é que não tem?». Concordamos plenamente com o Conde. Por isso, se existe algo na vida que nos deve envolver a todos, esse algo é exatamente a cultura.

Então, neste particular, esforcemo-nos para colocar tudo o que é supérfluo de lado e apresentar as nossas propostas. Queremos com isto dizer que precisamos de inverter o rumo das coisas, ou seja, ao invés de estarmos a inventar prémios literários que nunca saem do papel e da cabeça da tutela, para escritores que não estão a conseguir vender os livros, porque existe uma gritante falta de leitores, por que não criar prémios literários para os atuais ávidos leitores? Para aqueles que passem a devorar livros e mais livros por ano? Para implementar tal política, só necessitamos de um planeamento a médio e longo prazo, para que a política da cultura não esteja constantemente a mudar de direção, inclusive, na mesma legislatura, com o mesmo chefe de governo e com o mesmo partido no poder. Se existe um pacote em que clama por consenso parlamentar alargado, do tipo de uma maioria de dois terços, é o sector da cultura. Para quê? Para evitar que se criem e derroguem prémios literários ao sabor dos ventos e das bazofiarias; que se avance e recue em assuntos cruciais para o desenvolvimento cultural.

Assim, estamos a propor aqui nesta sede, a institucionalização de um concurso nacional de literatura, para premiar os destinatários de obras literárias que são os leitores. Não nos parece que isto seja difícil, desde que essa verba seja inscrita no orçamento do Estado. Depois, é uma questão de estabelecer um regulamento para o efeito. Então, a par dos prémios literários para escritores que, eventualmente, possam haver e dos festivais de livros e de literatura, anualmente teríamos um leitor engajado a receber o seu grande prémio. Parece-nos ser a forma razoável para reverter este quadro catastrófico da falta de interesse pela leitura. A partir dessa iniciativa, se calhar, traríamos de volta muita gente que deixou de ler e os novos conquistados. Com a disseminação dos hábitos de leitura por toda a parte, estaríamos em condições de garantir a sustentabilidade da atividade dos próprios escritores. Se temos dinheiro para pagar mais de uma vintena de festivais de música por ano também havemos de ter mais algum troco para financiar as iniciativas de leitura e o gosto pela frequência às bibliotecas. Estamos em crer que, com a implementação deste prémio, a tarefa das editoras e dos escritores seria muito mais facilitada.

Se quisermos alterar o status quo, temos que partir da base para o topo e não o contrário. Já existe um plano nacional de leitura, pelo menos no papel. Falta é apetrechar as bibliotecas públicas e municipais de livros. Pensamos que se houver vontade política em negociar essa parceria com o Brasil e Portugal, eles podem ajudar-nos a concretizar este desiderato. Se tivermos que reformular outras iniciativas, então que seja. Para nós, isto é prioritário, se queremos coerência e estabilidade nas ações da cultura. Sem isso, de nada vale estarmos a organizar festivais de livro e de literatura. Vai render sumamente pouco. Temos que ter leitores, acima de tudo. As coisas devem ser planeadas a montante e não a jusante. Isto faz nos lembrar a história do satélite dos nossos amigos angolanos, que tal como nós, com os nossos infindáveis festivais de tudo que é coisa, encomendaram o artefacto aos russos. O bicho foi lançado há poucos meses. Agora desapareceu. Nem fumo nem sinal. Ninguém sabe o paradeiro da borboleta de metal. Se saiu da orbita, se está a pairar no espaço limbo de um país indeterminado, se regressou à Rússia, se caiu no deserto ou no abismo. A esperança é neste momento quase nula no que se refere ao funcionamento da nave. De tal sorte exígua que os responsáveis já estão a pensar na construção de um novo. E por que não se preparar tecnicamente antes de entrar numa aventura destas? E os milhões serão devolvidos aos nossos amigos? Não acreditamos na generosidade de quem projetou mal a engenhoca. E tinha todas as condições para fazer melhor, por não ser pioneiro nestas andanças.

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