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Desvio na Caixa Económica de Cabo Verde: “Bety” alega Inocência e denuncia fragilidades no sistema de segurança 17 Dezembro 2015

Fragilidades no sistema de segurança estarão por trás do desvio de quase trinta mil contos dos cofres da Caixa Económica de Cabo Verde, cuja autoria é atribuída a Herberto “Bety” Rodrigues, então subgerente do banco na cidade do Mindelo. Em carta dirigida a este semanário, o próprio suspeito aponta falhas “graves”, que terão contribuido para o desaparecimento do dinheiro. “Bety” Rodrigues, que está em prisão preventiva na Cadeia Central de S. Vicente por suspeita de burla e abuso de confiança, diz‑se vítima de uma “cabala”, que levou ao sumiço de documentos importantes dos arquivos e que poderiam ajudá-lo a provar a sua inocência. Na missiva, o bancário abre o verbo para mostrar que a segurança e o controlo do banco falharam em toda a linha, pelo que, na sua óptica, a Comissão Executiva inteira da agência deveria demitir-se, assim como outros responsávéis.

 Desvio na Caixa Económica de Cabo Verde: “Bety” alega Inocência e denuncia fragilidades no sistema de segurança

O ex-subgerente da CECV é categórico em afirmar que esta situação foi gerada por fragilidades no sistema de segurança do banco, criadas pelo incumprimento de recomendações apontadas em sucessivos relatórios de auditoria interna do ano 2000 a esta parte. Herberto Rodrigues aponta como exemplo a entrega à tesouraria de elevados montantes contidos em caixas e caixotes, que ficam colocados nos corredores, por falta de espaço no cofre-forte para comportar tantos valores. “Os excedentes são guardados em caixas, caixotes e sacos dentro da Casa-Forte, mas fora do cofre, onde por norma e maior segurança deveriam ser colocados”, elucida.

O ex-subgerente da agência da Avenida 5 de Julho vai ainda mais longe ao afirmar que é impossível alterar o código/segredo da Casa-Forte, que devia ter dois dígitos, mas que funciona apenas com um desde a sua aquisição ao Banco Ultramarino – Banco Fomento, há mais de duas décadas. “O código é conhecido por pelo menos cinco colaboradores. Tem passado de gerência em gerência ao longo destes últimos 21 anos. E a gerência não se reduz a uma única pessoa. A única chave da Casa-Forte não funciona há alguns anos e a porta possui apenas um único dispositivo de segurança”, prossegue.

Em termos do espaço físico, Bety Rodrigues salienta que o acesso à agência é feito por três vias: a porta principal, uma outra na parte traseira e ainda por uma entrada no primeiro andar do edifício. Os responsáveis da agência não têm controlo sobre nenhum desses pontos, realça o autor da carta. Este salienta ainda que ninguém sabe quantas pessoas possuem a chave da porta traseira. A exposição é ainda maior porque, segundo este ex-tesoureiro, não há câmaras de vigilância nos locais de manuseio de valores. Aliás, ele próprio critica o facto de ter acumulado duas “funções incompatíveis” – subgerente e caixa principal – que vinha exercendo desde Fevereiro de 2014, enquanto aguardava a nomeação de alguém para ocupar este último cargo.

Outras fragilidades

O funcionário agora detido contesta também a deficiente estruturação da agência bancária tanto a nível do espaço físico como da segurança das próprias instalações. “A agência não dispõe de condições de segurança, nem de logística adequadas ao manuseio de valores e arquivo de documentos. A Casa-Forte e o ATM estão expostos ao público e ao local de atendimento de clientes. Nunca se cumpriu a recomendação para se adquirir um cofre de maneio por forma a evitar a abertura da Casa-Forte em horário de atendimento público, bem como a guarda de valores em excesso, evitando riscos de assalto/roubo, como está explícito no Relatório de Auditoria nº3/2000”, exemplifica.

Mas, não só. Segundo Bety, faltam máquinas para a contagem de notas e moedas, os valores não estão segurados, não há policiamento nem na agência nem tão-pouco para acompanhar o transporte de dinheiro, o que, na perspectiva do denunciante, contraria as deliberações da própria Comissão Executiva. Acrescenta Bety Rodrigues que escasseia espaço para os arquivos da agência (obrigando a que as pastas e documentos de operações ‘front-office’ sejam colocados no chão), o data-center dos bastidores está sem protecção (é resguardado apenas por divisórias de alumínio) e os extintores estão fora do prazo de validade.

O ex-subgerente da CECV alerta ainda que os agentes de segurança da Sepricave circulam livremente pelo interior da agência, nomeadamente dentro da área de serviço, a área para a tesouraria resume-se à secretária do Caixa Principal/subgerente que fica dentro do balcão de atendimento, sem acesso restrito, onde todos circulam. Desse modo, frisa a citada fonte, os valores ficam sujeitos a riscos elevados por causa das grandes vulnerabilidades de segurança da agência da Avenida 5 de Julho, na ilha de S. Vicente. “O registo das contas contabilísticas e das contagens arquivadas indicam que a agência acumula montantes elevados, superiores a 100 milhões de escudos cabo-verdianos e a dois milhões de euros, sem contar outras divisas; não há autorizações dos Órgãos de Gestão para o transporte de valores para a sede (sempre que as disponibilidades ultrapassam o limite determinado) e a Casa-Forte de algumas agências é feita de alumínio e vidro”, revela o ex-subgerente.

Conforme Bety Rodrigues, a situação agrava-se ainda mais porque os depósitos do Novo Banco, que deviam ser feitos no Banco de Cabo Verde, são armazenados na CECV. Na sua opinião, este “facilitismo” resulta do facto de a Caixa deter 20% das acções daquela instituição bancária. Esta prática, segundo esse técnico bancário, causa frequentes sobrelotações do cofre-forte e contribui para o aumento dos riscos de segurança, já que muitos valores ficam guardados fora do cofre.

Mea-culpa

Para defender a sua inocência, Bety Rodrigues socorre-se do Relatório de Auditoria de Julho de 2015 – que constata falhas de tesouraria –, do Relatório de Instalações e Segurança, Controlo/Gestão de Valores (16-05-2015) e ainda do Relatório de Auditoria nº 3 de 2000 nos quais os próprios Órgãos de Gestão são criticados por nunca terem respeitado as recomendações de segurança feitas dirigidas à agência “5 de Julho”, entre outras.

No tocante ao seu despedimento, Rodrigues revela que há um relatório conclusivo da acusação, emitido pelo instrutor da Caixa Económica, que recomenda a “justa causa” dessa medida, mas que, a dado ponto, salienta o seguinte: “… o instrutor não tenta culpabilizar o arguido por furto. Longe disso! O que está a provar é que o arguido não agiu com a diligência e o zelo que se espera de um subgerente/Caixa Principal. Que ele foi, no mínimo, muito negligente!...”

Segundo ainda Rodrigues, o documento enfatiza que a responsabilidade pelo ocorrido poderá ser assacada tanto ao gerente como ao subgerente/Caixa Principal, devido à manifesta “falta de cuidado” no acesso aos locais de valores, não obstante as fragilidades do conhecimento de todos. “De igual modo, a não adopção oportuna de medidas de controlo interno por parte dos Órgãos de Gestão, com vista a atenuar os riscos e aumentar o grau de segurança das instalações e da estrutura funcional da agência, terá contribuído para manter as condições propícias à ocorrência de fraude …”, lê-se no documento remetido pelo visado a este jornal, dias depois da sua detenção pela Polícia Judiciária.

Por tudo isso, Bety Rodrigues questiona a razão pela qual apenas o subgerente é indiciado e despedido por justa causa, quando as recomendações do Gabinete de Auditoria Interna apontam a linha hierárquica acima como parte integrante dessas responsabilidades, “fundamentalmente os Órgãos de Gestão que não conseguiram resolver as questões que se vêm repetindo desde o ano 2000”.

Cofre aberto após detenção de Bety

Segundo este nosso interlocutor, face à situação ocorrida na Agência 5 de Julho, e para evitar sanções da Entidade Reguladora – neste caso o Banco Central –, a CECV iniciou uma corrida contra o tempo para sanar as fragilidades de segurança. Assim, foram instaladas câmaras de vigilância, contratado policiamento para o transporte de valores e a porta da Casa-Forte foi substituída.

No entanto, perduram algumas questões “muito sensíveis” por resolver, o que, afirma, provam o reconhecimento das fragilidades de segurança por parte dos próprios órgãos de gestão. Este aspecto, segundo Rodrigues, foi reforçado num e-mail que ele próprio enviou à Comissão Executiva, no qual mostra o seu descontentamento pelos condicionalismos que estiveram na base do ocorrido. Bety revela-se ainda indignado na mensagem remetida à CECV, pelo facto de o cofre ter sido aberto enquanto estava detido, “o que deixa entender que várias pessoas dentro da agência têm acesso ao código do cofre”.
Estes episódios levam o ex-subgerente a criticar os que agora o acusam de desviar dinheiro de contas de clientes, quando, nas suas palavras, há sinais de estar em curso uma cabala contra a sua pessoa e que poderá passar pela destruição de documentos. Porém, ele próprio relembra que todas as operações bancárias efectuadas têm suporte documental. Como explica, as transacções efectuadas num dia são conferidas por outro colaborador num documento chamado “Diário de Movimentos”, onde estão anexos os suportes das operações, cabendo ao conferidor a responsabilidade de anotar e pedir os papéis em falta. De seguida, estes devem assinar o Diário, que é entregue ao gerente para validar e enviar para o arquivo.

O visado lembra, aliás, que a responsabilidade do arquivo também foi assacada à Comissão Executiva, que não conseguiu resolver problemas de segurança interna no período de 20 anos. “Basta ver o conteúdo dos relatórios que dizem que os documentos eram guardados em caixotes nos corredores e em locais de passagem de pessoas”, elucida.

Herberto Rodrigues aproveita a ocasião para contestar o tratamento dado a casos de desfalque na Caixa Económica na Praia e que, como diz, são mantidos em segredo, enquanto que nas outras ilhas são instaurados processos e despedimentos. “Recentemente, no novo edifício da Praia, com toda a segurança de videovigilância ali montada, desapareceram cerca de dois mil contos, por duas vezes, ao mesmo tesoureiro. Da primeira vez sumiram mil contos, mas não foi instaurado nenhum processo. O tesoureiro foi mantido em função por se tratar de ´um bom rapaz`. Da segunda vez, outros mil contos desapareceram e a direcção da Caixa apenas o transferiu para outro departamento”, conta Bety.

O ex-subgerente da CECV do Mindelo aponta ainda que, na sede da empresa, sumiu uma mala que deveria seguir para o exterior com cinco mil contos em euro. Também neste caso, conta, as consequências resumiram-se à transferência do tesoureiro para a função de “caixa”, mas com um salário igual ao de Tesoureiro.

Luxo e esbanjamento

A lista de denúncias de Bety Rodrigues não pára por aqui. O ex-subgerente explica que, numa transação pouco usual, o actual presidente do banco comprou a viatura do anterior PCA, avaliada em 6.000 contos, por pouco mais de 300 mil escudos, quando o carro tinha apenas dois anos de uso. Além disso, afirma que se adquiriram dezenas de viaturas Toyota para gerentes e subgerentes, mas que são utilizadas mais para expediente pessoal do que em missões de serviço do banco. Este facto, afirma, deixou todos os colaboradores da Caixa indignados, o que obrigou os administradores a deslocar-se a todas as ilhas, com fundos da própria empresa, para convencer o pessoal que se tratava de um processo normal. Isso quando, por norma, deveriam ter esperado no mínimo três anos para trocar as viaturas, se necessário fosse e não apenas por luxo.

Bety Rodrigues também critica a construção de um prédio na Boa Vista, avaliado em cerca de 150 mil contos, quando, na sua perspectiva, o banco podia ter optado por uma infraestrutura mais barata. O mesmo, na sua óptica, aconteceu com o edifício-sede da Caixa Económica, na cidade da Praia, o mais caro do país, orçado em um milhão e quatrocentos mil contos. “Tratou-se de um luxo desnecessário, enquanto a rede de agências não dispunha de câmaras de vigilância nem outros mecanismos de segurança que representam custos baixíssimos”, enumera Bety. Todo o exposto leva o ex-subgerente da agência 5 de Julho, no Mindelo, a concluir que está a ser perseguido. Resta saber por quem e com que propósito.

Entretanto, devido ao adiantado da hora do fecho desta edição, prometemos retomar essa matéria, ouvindo a Comissão Executiva da Caixa Económica sobre as críticas e denuncias feitas pelo autor da carta.

CP

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