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El-Shaddai e reinserção social: Honório Fragata quer zona baixa da barragem de Figueira Gorda para dar emprego e lutar contra alcoolismo e drogas 30 Julho 2016

O responsável pelas Tendas El-Shaddai – instituição líder na recuperação dos toxicodependentes em Cabo Verde – pede ao Governo que lhe conceda um terreno em Bolanha, na zona baixa da barragem de Figueira Gorda de Santa Cruz, para que possa implementar o seu projecto de reinserção social. Orçado em cerca de dois mil contos, o mesmo destina-se não só aos internos das Tendas, mas a outros jovens com problemas graves por consumo de drogas e álcool no concelho - recentemente lançou-se a campanha contra este último flagelo, tendo como “rosto” o próprio presidente da República Jorge Carlos Fonseca. Honório “Tio” Fragata, que tem como fonte a agricultura e a pecuária, assume que essa iniciativa, pioneira no país, será o maior desafio das Tendas, pois além de diminuir o desemprego dos jovens em risco, torna-os mais proactivos, liberta-os da oferta de emprego público, livrar-lhes-á de sua reincidência nesses “males” que afligem a sociedade cabo-verdiana.

El-Shaddai e reinserção social: Honório Fragata quer zona baixa da barragem de Figueira Gorda para dar emprego e lutar contra alcoolismo e drogas

Tendas El-Shaddai querem desenvolver uma nova experiencia no tocante à política para a reinserção social de viciados em álcool e outras drogas. O seu responsável Honório Fragata, - eleito Homem do Ano em 2015 – não pára de sonhar para melhorar a vida dos toxicodependentes que buscam a instituição para fugir do alcoolismo e das drogas.

Tio explica que dos 42 internos – de 14 aos 60 anos de idade - provenientes de todas as ilhas, a maioria – 29 – está ali por causa do álcool. Estando a funcionar há mais de 20 anos, diz aquele responsável que as Tendas não podem ficar indiferente perante esses casos. Preocupado com esse número de viciados, diz que elaborou um programa de Actividades Geradoras de Rendimento - que foi enviado no ano passado ao executivo -, onde espelha uma nova abordagem no combate à toxicodependência, que passa por uma reinserção social adequada baseada no emprego.

Diz o interlocutor deste jornal que é um desafio que precisa de sair do papel e passar à prática. Conforme ele, o estado pode disponibilizar para o mesmo fim um hectare de terrenos que fica no antigo centro de experimentação do INIDA, que está sem ocupação há 35 anos. O lote está situado em Bolanha, mais concretamente na zona baixa da Barragem de Figueira Gorda, em Santa Cruz. “Queremos gerar emprego. Vamos motivar também aquelas cooperativas que estavam lá - as de ex-Justino Lopes - a produzirem mais e melhor e aproveitar os campos que têm lá, a partir da nossa produção”.

O responsável pelo centro de recuperação de Toxicodependentes de Santa Cruz não quer perder mais tempo e já pensa no que plantar: tomate, pimentão, couve e outras culturas rotativas para abastecer os mercados, supermercados e hotéis do país - sem produtos químicos. O projecto inclui também técnicas para proteger o cultivo. “Põe-se alho, cebola e cenoura à volta. E é o cheio que emana é que faz a protecção das pragas. Com isso, temos uma cultura limpa. É um método que os italianos utilizam, já experimentamos e dá resultados”, adianta este “homem de vontades”, para quem a formação dos beneficiários vai ser «on-job», ou seja, no local.

Enquanto espera por um “Sim” do Governo, Honório Fragata já vai atraindo “colaboradores”, entre eles um alemão – especialista em preparação de produtos orgânicos e amigo das Tendas e técnicos do INIDA. Aliás, diz que não é preciso motor de bobagem de água através da barragem, porque há já instalação que passem nos arredores do referido terreno, o que permitirá, segundo ele, fazer a rega gota-a-gota sem custos de energia.

Mas Tio quer ir mais longe com esse programa de reinserção social. Aposta na criação de gado – aves, suínos e ainda raças melhoradas dos Açores, com destaque para vacas leiteiras. Segundo afirma, produz mais de 200 litros de leite por dia – os animais que alimentarão do pasto que provém das culturas de milho e outras espécies de forragens, que serão cultivados ali mesmo.

Para complementar a auto-sustentabilidade das Tendas, Honório pede ainda apoio na aquisição de uma viatura equipada com câmara de frio para escoar os produtos - frescos e com melhor qualidade - não só das Tendas como também dos pequenos agricultores de Bolanha, onde se situa a parcela. “Vamos fazer nessa comunidade a prevenção contra o alcoolismo e outras drogas que são problemas que estão a açoitar as famílias dessa zona, através de palestras e da promoção do desporto e turismo rural”, diz o responsável das Tendas El-Shaddai.

Álcool e droga nas famílias

Entretanto, Tio é de opinião que o combate contra o álcool e outras drogas graves não passa só pelo emprego. Os programas devem chegar à casa das famílias, não só dos internos das Tendas mas de toda a comunidade envolvente. Isto por forma a devolver à sociedade homens livres do álcool e doutros vícios.

Para isso, revela que acaba de criar uma equipa de voluntários, com um psicológico e uma educadora social, que está a trabalhar com famílias que, segundo afirma, “choram por uma reinserção adequada”. É que, explica, quando um interno sai das Tendas e é formado “reacende” uma nova esperança na família, principalmente nas mães.

“O problema é saber onde e quem vai dar-lhe emprego”, sublinha o entrevistado do A Semana, defendendo que a sociedade deve pensar no indivíduo de uma outra forma. “Devemos formar, mas nós próprios devemos ser o factor dessa mudança, colocando-o no trabalho para que a sua formação não seja uma arma de morte, mas que lhe vai multiplicar o pouco que possa ganhar”, reforça.

A título de exemplo, cita que muitos dos internados recuperados receberam formação através das Tendas e hoje têm o seu ganha-pão. Todos, diz, transformaram-se nos “meninos de ouro” das Tendas e constituem um orgulho no meio que os viu nascer. Além dos que estão espalhados pelas ilhas, revela que muitos outros trabalham e constituem família em Holanda, EUA, Inglaterra, França, República Democrática do Congo e Guiné-Conacri – quatro deles formaram-se em psicologia e análises clínicas.

Enfim, Honório Fragata defende um trabalho de equipa – Tendas, Governo e todas instituições públicas – na luta contra drogas, dando um voto de confiança principalmente àqueles que souberam superar as suas dificuldades.

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