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Empreendedorismo para combater o desemprego – Cooperativa de mulheres condutoras nasce em São Domingos 25 Junho 2016

Catorze jovens mulheres em situação de desemprego, de várias zonas de São Domingos de Santiago, poderão vir a integrar a primeira cooperativa gerida por condutoras de transportes públicos ou privados em Cabo Verde. Pelo menos é este o objectivo principal de um projecto, implementado pela comandante da Esquadra Policial do concelho, que está a proporcionar aulas de condução com fins de obter a carteira profissional. Esta iniciativa de cariz social, com pendor empresarial, parte da subcomissária Maria de Jesus “Letícia” Jorge, umas das primeiras mulheres a integrar as fileiras da Polícia Nacional. O projecto está a ser visto como um exemplo na busca do empoderamento da mulher, mas conta ainda com poucos parceiros na sua implementação para tirar jovens do desemprego e enquadrar outros em situação de risco, proporcionando-lhes uma vida melhor no seu meio social.

Empreendedorismo para combater o desemprego – Cooperativa de mulheres condutoras nasce em São Domingos

O projecto em apreço é destinado a 80 jovens, entre eles 14 mulheres, mas que preenchem os requisitos exigidos: serem desempregados, mães solteiras, jovens com passagem pela Polícia ou em situação de risco e vítimas de Violência Baseada no Género. Começou em 2014, mas teve um pequeno interregno devido à falta de patrocínios por parte de alguns parceiros. Reunidas agora as condições mínimas para tal, a primeira fase de aulas de condução, ministrada pela Escola de Prevenção Rodoviária, teve início em Maio deste ano na Esquadra Policial de São Domingos. Numa sala deste posto policial estão 25 jovens - com instrução desde o sexto ano de escolaridade até ao grau de licenciatura-, agora unidos por um único objectivo: ter uma carta de condução profissional e sonhar com um emprego e uma vida melhor para as suas famílias.

Deste poletão de alunos, apenas uma tem formação superior, mas que estava ainda longe de ver realizado o sonho de ter um emprego na sua área. Elisângela “Sandra” Moreira tem 28 anos e vive com a mãe, avós e irmãos em Fontes Almeida. Conta ao A Semana que a mãe é cozinheira de um jardim-de-infância, usufruindo um salário de cinco mil escudos. É este dinheiro, juntado à pensão da avó, que Sandra caracteriza de “rendimento da família”. Terminou em 2014 o seu grau de licenciatura em Serviço Social e, desde então, não encontrou um emprego. Sendo a filha mais velha, diz que sonhava poder ajudar a família.

Mas revela que surgiu uma chance para melhorar a sua vida: a Esquadra da PN de São Domingos foi à sua procura, convidando-a a integrar um projecto que pretende ajudar jovens a debelar o desemprego. “Aceitei integrar o projecto, porque vi que ia de encontro com o meu projecto de vida. Estou a aproveitar o máximo e vou até ao fim. Está a ser uma boa experiência”, sublinha Sandra.

Diz que, por ora, acredita que a carta de condução profissional poderá ser o tal “empurrãozinho” no seu currículo para que possa encontrar um emprego mais rápido. “Será com certeza um complemento do grau de licenciatura”, diz Sandra. Mas a jovem diz que a ideia do projecto, no qual está integrada, é a de criar uma cooperativa em que as mulheres são as próprias condutoras de transportes públicos, podendo ser carros do Estado, táxis, hiaces ou outros.

“Ser condutora do Estado poderá ser uma opção. Aliás, logo quando iniciámos as aulas partilhamos essa ideia. A profissão é mais conotada como sendo masculina, mas a mulher está a mostrar que é capaz e está a conquistar o seu espaço nas várias esferas profissionais. Por isso, não vejo qualquer diferença nisso”, remata Sandra, esperançada sobre os frutos que o projecto irá dar.

Semelhante ponto de vista tem a comandante da Esquadra de São Domingos, que explica os fins do projecto pioneiro nessa área em Cabo Verde. Letícia, como é chamada, é subcomissária da Polícia Nacional e faz parte de um grupo de 19 mulheres, as primeiras a entrar nas fileiras da PN em Novembro de 1989. E agora está à frente desta iniciativa em prol do empoderamento da mulher, criada com base no pressuposto da Polícia de Proximidade.

Projecto e objectivo

Esta responsável explica que tal como realizou o sonho de criança de ser polícia - uma profissão que outrora era vista como sendo essencialmente para homens - , assim quer fazer o mesmo para outros tantos jovens que partilham de um futuro risonho.

A comandante de 53 anos explica que a ideia surgiu depois de ter consultado o Censo 2010 no capítulo do desemprego. Em 2012, conta que era comandante adjunta na Esquadra Policial de Achada São Filipe-Praia, onde primeiro socializou a ideia com o comandante Santos, e, depois, com o comando regional da PN da Praia.

Letícia diz que procurou outros apoios, tendo chegado à fala com a dona Madalena Tavares que trabalhava na Fundação Infância Feliz e que se prontificou a dar assistência técnica na elaboração do projecto. Mas, conta esta polícia, o mesmo foi concluído já com o apoio da Escola da Prevenção Rodoviária, sua parceira.

Já em 2014, Letícia diz que foi transferida para a Esquadra de São Domingos, onde decidiu implementar o projecto. Dos 80 jovens seleccionados em várias zonas, 40 começaram a assistir aulas de condução no período de manhã e os restantes à tarde. Só que muitos dos beneficiários não tinham recursos para pagar transporte para assistir às aulas noutras escolas da Praia. Por isso, optaram por começar lá mesmo em São Domingos, na Escola de condução Boaventura, pagando somente pela inscrição.

Em Janeiro de 2015 conta que foi transferida para o comando das Unidades Especiais da PN na Praia, o que levou a um pequeno interregno na implementação do projecto. Nesse tempo, o Serviço de Transportes Rodoviários viria a isentar 50 por cento dos jovens do pagamento dos exames de condução, tendo a empresa Upranimal financiado a outra metade. O projecto foi retomado em Maio último, numa sala da Esquadra Policial de São Domingos, com 25 alunos, entre eles, sete mulheres, que estão a receber as aulas de preparação para o exame.

Letícia afirma que os restantes alunos (incluindo as outras sete mulheres) também serão beneficiados proximamente, conforme patrocínios a ser mobilizados.

Embora haja mais homens do que mulheres, a ideia, diz a comandante, é criar futuramente uma cooperativa gerida por mulheres já com uma carteira de motorista profissional e que possam, juntas, trabalhar como condutoras de transportes, quer públicos, quer privados.

“Reparámos que não há aqui mulheres que trabalhem como condutoras de viaturas do Estado. O mesmo acontece a nível de táxis, hiaces, carros pesados, e outros transportes públicos ou privados”, sublinha esta polícia.

Letícia considera que o projecto é, além de proporcionar aos jovens condições para que possam adquirir um emprego e ter um rendimento capaz de garantir o sustento das suas famílias, de carácter “integrador” - vai permitir ainda que muitos não entrem na criminalidade e passem a ver a Polícia como uma “instituição amiga”.

“O projecto só foi adiante graças à coragem e boa vontade da nossa parte, porque inicialmente não havia parceiros. Precisamos ainda de mais parceiros para ajudar na implementação desse projecto”, remata Letícia, que pede um «djunta-mon» das instituições para que possa levar adiante esta iniciativa de cariz social, que está a ser bem acolhida no seio da população de São Domingos.

Arlinda Neves

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