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Enid Blyton: ’Os Cinco’ e ’Os Sete’ – a força dos fracos 28 Julho 2017

Eram leves, cabiam na palma da mão e podia lê-los de pé – sempre que cedia o lugar a um adulto, boa-educação ’oblige’ — no elétrico que me levava para as aulas na Escola Preparatória Paula Vicente. Li todos os números que me caíram nas mãos, nesses anos da segunda metade dos anos 70.

Por: Bárbara do Rosário

Enid Blyton: ’Os Cinco’ e ’Os Sete’ – a força dos fracos

Neste momento em que se comemoram, no Reino Unido, os 75 anos da primeira edição do bestseller mundial que é ‘Os Cinco’ de Enid Blyton — e vejo, através do motor de busca, que o evento se replica em vários países e línguas –, tento, pela primeira vez em quase quarenta anos, perceber porque é que lia Enid Blyton.

Faço o retrospecto: lia o que me caía nas mãos, muito contra a vontade da mãe e do pai. Ele, que me oferecia livros de propaganda, já aos 10, 11 anos decerto que seguindo o provérbio de que de pequenino é que se torce o pepino/ menino...para que não se desconcentre...para que fique por um PS mais ao centro. Ela, que me edificava com os livrinhos comprados na sacristia. Contrariando ambos, preocupados com a má influência que se atribuía à leitura de romances, porque se dizia que eram fantasias que “atrasavam na escola”, iniciei-me em obras como A Cidade e as Serras, Viagens na Minha Terra, Chiquinho (uma edição do Círculo de Leitores de 1972 e que nunca mais reencontro), Guerra e Paz, Noites Brancas, Paul et Virginie, The Island of Treasure, mas também as bandas desenhadas, as fotonovelas, a Claridade de 1966 encontrada num armário que veio com a casa, a Bíblia que alguém esqueceu lá em casa… Enfim, ia lendo o que me caía nas mãos – rejeitando obras como o Crime do Padre Amaro, A Religiosa, de Diderot, tudo quanto ofendia as minhas papilas (instintivamente). A minha infância cheia de livros, os que li e os que queria ter lido.

Lia ‘Os Cinco’ e ‘Os Sete’, de Enid Blyton, primeiro porque eram acessíveis. O dinheiro do lanche dava para os comprar em segunda-mão, pouco tempo depois de saírem. Ou lia-os na ‘Biblioteca Popular’, na rua paralela à Rua Garrett – que me permitia passear pela Baixa, o mais longe que me era autorizado deslocar-me.

E depois porque apelavam ao lado aventureiro que existe em todos nós. ‘Os Cinco’ eram aventureiros, unidos tinham a força capaz de ultrapassar os obstáculos que os adultos colocavam no seu caminho. Através do diálogo ou da astúcia conseguir sair de sob as asas protetoras. Através de jogos da inteligência, conseguir derrotar uma quadrilha de malfeitores.

Heróis quiséramos ser e, como Os Cinco, derrotar os maus que se atravessavam no caminho.

O jardineiro que nos impedia a entrada no parque do liceu próximo, quando não tínhamos a sorte de encontrar o outro que nos protegia. Comerciantes que nos enganavam nas contas, na mercearia junto à loja de roupa ou na Praça da Ribeira, e que armavam um escândalo se lhes mostrávamos o seu erro. Os homens na rua que nos assobiavam porque começávamos a desabrochar. Os fortes que na escola, na rua, na vizinhança e mais longe, tinham a crueldade de nos lembrar que éramos mais fracos.

Anos depois, vi, de longe e sem prestar atenção, toda a polémica a envolver a obra desta autora infanto-juvenil. Não a entendi, confesso, porque à acusação de sexismo contraponho a figura da ‘Zé’ menina-rapaz, à acusação de racismo digo que nunca vi a cor das personagens.

Só repito a confissão de que o encanto da sua leitura, que me acompanha desde esse tempo, ainda perdura.

P.S. Os Cinco inspiraram-me o ‘V.teto Bem+Ver’. Quinteto, por causa de “Os Cinco”, mais maduros que “Os Sete”. Uma tentativa que esbocei no oitavo ano, depois arrepiei caminho, depois voltei a pensar e esquematizar anos depois. De tempos a tempos, ponho uma pedra. Até que algo mais urgente me chama — e afasto-me. Regresso e retorno, em vários lugares ao longo de todo este tempo, como um sonho que interrompemos e a que queremos voltar.

Deixo esta nota, a coberto do anonimato. A sua intenção é também de lembrar que, ao lado de leituras rápidas, cirúrgicas — necessárias ao nosso quotidiano profissional —, há outro tipo de leitura que se faz devagar, a usufruir a obra, necessária para o nosso equilíbrio. Leitura que pode induzir-nos a escrever. Devagar, ainda mais devagar. Dito de outro modo: antes de publicar, faça a prova da gaveta.

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