NOS KU NOS

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Ensino Superior chega à ilha do Sal: Aulas iniciam ainda este mês 22 Outubro 2016

O Centro de Recursos Integrados de Educação e Formação da ilha do Sal vai ser formalmente inaugurado no próximo dia 02 de Novembro. Trata-se de um projecto promovido pela Câmara Municipal que, com apoio de parceiros estratégicos, designadamente de várias universidades do país, criou todas as condições para o arranque do ensino superior na ilha do Sal este ano.

Ensino Superior chega à ilha do Sal: Aulas iniciam ainda este mês

A inauguração do ensino superior na ilha foi anunciado pelo presidente da Câmara, Júlio Lopes, após um encontro com o Directora-Geral do Ensino, José Mário, a delegada do ME, Márcia da Graça, o reitor da Uni-Mindelo, Albertino Graça, e o Pró-reitor da Uni-CV, João Cardoso. Marca os 50 anos da criação do Externato do Aeroporto do Sal, agora transformado no Polo de Ensino Superior. Mas, apesar da inauguração estar prevista para 02 de Novembro, o início das aulas deverá acontecer antes, precisamente ainda no decurso deste mês.

Para o edil salense, Jorge Lopes, esta inauguração representa o cumprimento de uma das principais bandeiras do actual Governo e da Câmara. Compromisso esse que foi apresentado pelo Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, e do presidente da Câmara do Sal, Júlio Lopes. Este, desde a sua posse, apontou como prioridade levar o ensino superior para a ilha, sendo que, a partir de agora, os jovens já podem prosseguir os seus estudos, sem sair de casa.

A Uni-Mindelo vai ministrar Licenciatura em Direito e Gestão de Hotelaria e Turismo. Já a Universidade de Cabo Verde vai, em regime de aulas semi-presenciais, oferecer cursos de Economia e Engenharia de Informática. Além de licenciaturas, a Uni-CV pretende garantir oportunidades de fazerem CESP – Cursos de Estudos Superiores Profissionalizantes, bem formação avançada, para responder às necessidades das pessoas que já têm licenciaturas.

Externato do Aeroporto do Sal

Sobre o Externato, o salense Mário Paixão Lopes escreveu um longo e cativante historial, que “emprestamos” para melhor esclarecer os leitores. Diz que iniciou actividades a 2 de Novembro de 1966. Escreve que nesse dia, “a Ilha acordara cedo já que longa e especial prometia ser a jornada. A escuridão ainda tomava conta do mundo, mas para 56 crianças e adolescentes do Sal, a esperança e a ansiedade chegavam e sobravam para iluminar o acto imediato: preparar a pasta, os lápis e os cadernos, vestir a melhor roupa e rumar para Lomba Branca”.

Segundo Mário Paixão, “os progenitores, na sua maioria, valiam-se de um candeeiro a petróleo para preparar o ferro de engomar a carvão e apurar o café nas chamas do fogão-primus. Entre coisa e outra aproveitavam o tempo para debitar mais algumas lições de bons modos aos rebentos: cumprimentar a senhora professora fulana de tal com um Bom Dia, Senhora Professora; agradecer o senhor professor sicrano com um Muito Obrigado, senhor Professor; não cuspir para o chão; não dizer nomes feios; não misturar crioulo com português; prestar atenção às palavras dos mestres".

"Alguns, apertados pela emoção do momento, até chegaram a apimentar isso com uma lágrima incontida, mas, de qualquer forma, a vida não estava de feição para muitas alegrias: pelo Aeroporto do Sal transitavam soldados aterrorizados a caminho da Guiné-Bissau, matava-se com catana em Angola, contavam-se histórias horríveis do Vietname longínquo, a Namíbia estava em pé de guerra com a vizinha Africa do Sul, o Golias norte-americano policiava os irrequietos sul-americanos, a chuva escasseava e a miséria crescia em Cabo Verde e, ainda por cima, falava-se, à boca pequena, de um desembarque iminente de Amílcar Cabral e suas tropas no arquipélago”, pontua.

Este apimentava ainda mais a história dizendo que, como se isso não bastasse, o povo andava desnorteado com o alastramento da moda da mini-saia, incentivada pela classe e pelo arrojo da Mary Quant e com o aparecimento, cada vez mais frequente, do Zig-Zag e do Luzona nos sítios mais inesperados da ilha. A escuridão da noite e do atraso colonial reinava por tudo quanto era sítio. Nem o heroísmo fulgurante de Eusébio e dos seus companheiros magriços que a Emissora Nacional tanto badalava entre um e outro “Rádio Moscovo não fala verdade”, chegava para lavar a face de um destino que se fazia cada vez mais cinzento. Tão cinzento que o próprio Roberto Carlos aconselhava aos jovens o refúgio num louco e lindo amor e “que tudo o mais vá pró inferno”. Enfim, o mundo parecia não reservar boas surpresas para o futuro de aqueles miúdos. Mas, apesar de tudo, era preciso ter forças. Acima de tudo, era preciso ter coragem e muita esperança.

Esperança para 56 alunos

E esperança era o que não faltava no dia em que o Externato abriu as suas portas a esses cinquenta e seis alunos, vindos dos quatro cantos da ilha, a pé ou transportados em camiões, tractores e burros. A sua origem social reflectia-se na forma como estavam vestidos ou calçados, indo de filhos de cabouqueiros a de oficiais do exército português e de altos funcionários do aeroporto. A sua instalação e o apetrechamento, erigido a partir das estruturas remodeladas do antigo centro emissor de comunicações do Aeroporto, contou com as contribuições da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, do Governo da Província, da Câmara e de outras instituições sedeadas na ilha, nomeadamente, a Companhia do Fomento de Cabo Verde. Um anexo à estrutura principal foi reservado para as classes de trabalhos manuais do 1° e do 2° anos.

Diz ainda que o processo que conduziu à instalação do Externato até não foi penoso. Durou dez meses. Calhou ser o mês de Janeiro de 1966 o escolhido pelo Director do Aeroporto, Heliodoro de Sousa, para publicitar uma circular, convidando “ pessoas com experiência de ensino e habilitações licenciatura, frequência de Universidade e 7° ano dos Liceus ou habilitações especiais, nomeadamente de idiomas estrangeiros que queiram ministrar o ensino a inscreverem-se na secretaria deste Aeroporto até o dia 31 do corrente”.

Em Fevereiro, Rocha de Sousa constatava, numa circular, “o imediato e generoso acolhimento encontrado e traduzido pelas várias inscrições espontaneamente feitas”, cabendo-lhe então convidar a “todos os chefes de família e encarregados de educação a fazer na Secretaria deste Aeroporto a inscrição, até 10 de Março próximo, de seus filhos e educandos”. Constituído o corpo docente, com recurso a funcionários do Aeroporto, militares destacados no Comando Militar e professores habilitados com o curso do Magistério Primário, deu-se início, de imediato, à inscrição dos alunos.

Gestão do Externato

A direcção do Externato foi entregue ao Dr. Ramiro Figueira que, na qualidade de funcionário do Aeroporto, substituía o Director nas suas ausências. O cargo de Director do Externato, desempenhado até 1974, viria a ser interrompido a 3 de Maio de 1968, por ordem de serviço do Director Rocha de Sousa, invocando “os superiores interesses do Aeroporto” e transferindo as mesmas funções para o médico militar, Joaquim Solviano de Almeida. Cerca de um mês depois, mais precisamente a 8 de Junho, chegaria de Lisboa a ordem de recondução de Ramiro Figueira no cargo, “por imposição superior”, conforme deixava claro o radiograma do Director-Geral da Aeronáutica Civil, Vítor Veres.

O trabalho abnegado do Dr. Ramiro e do Corpo Directivo do Externato seria apoiado, em momentos distintos, por duas professoras-secretárias: Maria Luísa Barata Salgueiro e Magnólia da Cruz dos Santos Filipe. A funcionária da Secretaria do Aeroporto, Yvette Leonor de Sousa, chegaria a desempenhar, nos primeiros tempos, um papel de relevo na montagem do aparelho administrativo da escola. Os livros didácticos aprovados para o curso de 1966/1967 constavam de uma lista fornecida pelo Liceu Nacional de Gil Eanes, começando em títulos como Meu Portugal Minha Terra (do 1° e 2° anos dos Ciclo Liceal), de Beatriz Mendes e Maria Alice Nobre Gouveia, terminando no Compêndio de Desenho (do 2° Ciclo Liceal), de F. Pessegueiro de Miranda e Maria Helena Pais de Abreu.

Os custos com o funcionamento do Externato foram suportados, no primeiro ano, pelos subsídios de 50 mil escudos e 15 mil escudos, concedidos pela Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, com sede em Lisboa, e pela Câmara Municipal do Sal, então presidida por João de Deus Maximiano. A esses subsídios somavam-se as mensalidades pagas pelos alunos do 1° e 2° Ciclos Liceais: 230$00 e 280$00 mensais, respectivamente, aplicando-se os descontos de 10, 15 e 20% aos casos de 2, 3 e 4 irmãos matriculados no mesmo ano lectivo, para além das isenções aos discentes provenientes de famílias de baixo rendimento económico.

Alargamento de actividades

A 7 de Janeiro de 1967, a pedido dos Serviços de Instrução da Província de Cabo Verde, o Externato alargou as suas actividades ao curso de Admissão aos Liceus, o qual iniciou com a inscrição de trinta e um alunos, revela, acrescentando que o crescimento acelerado da população escolar (66% em 1967/68, 24% em 1968/69, 18% em 1969/70, 7% em 1970/71, 22% em 1971/72, 17% em 1972/73 e 21% em 1973/74) deu origem, a partir de 1968, ao sistema de desdobramento das turmas, provocando quase que uma ruptura no ano lectivo de 1973/74. Assim, com fundos próprios da escola, foi construído e activado, a partir do 2° período do referido curso, um pavilhão constituído por três salas de aula.

Apesar da aquisição de materiais de laboratório e da ampliação efectuada, não foi possível montar o Laboratório de Ciências Naturais e Físico-Químicas. Na tarde do dia 20 de Junho de 1967 deu-se início aos exames do curso lectivo de 66/67, com as provas escritas do 1° Ciclo do Liceu. Estas tiveram lugar numa das salas do ainda inacabado Novo Aeroporto, tendo a Direcção disponibilizado transporte para os alunos, a partir do átrio do antigo Cinema. As despesas com a deslocação, alojamento e alimentação do júri, vindo do Liceu de Gil Eanes, foram suportadas pelos estudantes. Os exames escritos de Admissão aos Liceus realizaram-se nos dias 17 e 18 de Julho, tendo-se encerrado a época das provas com as orais de 1° Ciclo e Admissão no dia 7 de Agosto, nas instalações do Externato. Já os alunos do 5° ano do 2° Ciclo Liceal realizaram os seus exames em São Vicente, a expensas das respectivas famílias e com deslocação por via marítima, o meio de transportes mais usado na época.

Sensibilização cívica e cultural

Nos anos lectivos seguintes, embora o Externato não estivesse legalizado, foi possível, com a colaboração do Governador da Província, dos Serviços de Educação e da Reitoria do Liceu de Gil Eanes, realizar todas as provas anuais na Ilha do Sal. Este facto permitiu a candidatura, às provas dos dois Ciclos, de vários adultos que efectuavam a sua preparação por si mesmos ou orientados pela Sala de Leitura da Paróquia de Nossa Senhora das Dores. Em 1974, alunos da Ilha da Boa Vista, da Sala de Estudos Brigadeiro Lopes dos Santos, prestariam provas do Ciclo Preparatório no Externato do Aeroporto do Sal.
“Um dos aspectos mais importantes da vida do Externato foi sem dúvida a sensibilização da juventude salense para as questões cívicas e culturais, tendo-se destacado nessa missão, pela sua dedicação e capacidade de trabalho, a professora D. Celina Fonseca. O trabalho realizado ficaria patente, desde cedo, nas sessões comemorativas de 8 de Maio (Dia da Árvore) e do 10 de Junho (Dia da Raça), em que se procedia ao encerramento do ano lectivo”, escreve.

Culminando-se, nessas ocasiões, os esforços de um ano de trabalho organizado, entoavam-se cantos alusivos à efeméride, homenageavam-se os alunos do Quadro de Honra, declamavam-se poemas, exibiam-se números de ginástica rítmica, realizavam-se exposições e concursos de trabalhos manuais e artísticos (pintura, bordados, culinária, etc) e sessões recreativas dedicadas ao bailado, números alegóricos, música e teatro, no Cinema do Aeroporto.

Ficaram célebres as prestações do Orfeão do Externato (dirigido pelo Padre Arlindo, Capelão Militar), do Teatro dos Estudantes e do Grupo Yé-Yé, de onde despontaram valores da vida musical e literária como Ildo Lobo, Alcides Spencer, Maria Madalena Tavares, Margarida Spencer, Daniel Spencer, entre outros. Os músicos Viola, Piúna, Taninho Évora e Albertino Spencer destacavam-se pelo apoio e acompanhamento do Grupo Yé-Yé. Alcides Brito, Anibal do Rosário (Aníbal de Nhô Djony), Hermógenes Cruz (Bonze) e Luís Gonzaga, agrupados nos “Jactos”, foram os primeiros jovens a animar a Ilha com o som da música electrónica, apoiados em equipamentos cedidos pela guarnição militar portuguesa. Os Jactos evoluíram para o grupo Improviso, integrado por Ildo Lobo, Nhelas Spencer, Jorge Lopes e Júlio Estrela, todos alunos do Externato.

De realçar, ainda, a acção do Padre Leopoldo Galtieri, Pároco da Igreja de Nossa Senhora das Dores e professor de Religião e Moral no Externato, que marcou uma geração com as suas iniciativas sociais, desportivas e recreativas, promovendo o intercâmbio, o espírito associativo, a amizade, a camaradagem e a solidariedade no seio da camada juvenil. Os professores Olga Figueiredo, Olinda Fonseca, Celso Estrela, João Pinheiro, Luís Olavo, Barros, Yvette Barbosa, Padre Rafael, Capitão Portugal, Maria José Portugal, Daniel Sousa, António Estrela, Maria do Carmo, Lídia Pinto, Mário Alberto Lobo, Quirino Santos, José Figueira e José Santos, de entre outros, completam a lista dos que, pelo seu pioneirismo e entrega à causa do ensino na Ilha, ficarão ligados à história do Externato do Aeroporto do Sal.

Mudança de rumo

O 25 de Abril de 1974 em Portugal e o 5 de Julho de 1975 em Cabo Verde determinaram a mudança de rumo no Externato, representando o ano lectivo de 1973/74 o fim deste ciclo histórico. Do alicerce lançado pelo Dr. Ramiro Figueira e seus colaboradores, emergiria, no curso seguinte, já oficializada e integrada nas estruturas educacionais da novel República, a Secção do Sal do Liceu Domingos Ramos, dirigida por outra respeitada figura do ensino cabo-verdiano, o Professor Olavo Moniz.

Felizmente para nós, esta história tem um final feliz porque o Externato vai se transformar no Centro de Recursos Integrados de Educação e Formação da ilha do Sal. Por outras palavras, vai receber o ensino superior.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau