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Estudo comprova existência de algas anticancerígenas em Cabo Verde: Potencialidade terapêutica e comercial “ignorada” por autoridades 21 Janeiro 2016

Um estudo efectuado pelo biólogo marinho João Soares revelou que a flora do mar de Cabo Verde possui duas espécies de macroalgas com reconhecidas propriedades anticancerígenas, mas que, entretanto, nunca foram exploradas terapêutica e comercialmente pelo país. Segundo o especialista cabo-verdiano, as plantas marinhas são a Caulerpa prolifera e Dictyota crenulata, ricas em substâncias usadas pela indústria farmacêutica internacional no combate a várias doenças, com destaque para o cancro. As plantas, conforme o biólogo marinho, têm constituintes que conseguem inibir a reprodução das células cancerígenas, propriedade já comprovada por cientistas de alguns países.

Estudo comprova existência de algas anticancerígenas em Cabo Verde: Potencialidade terapêutica e comercial “ignorada” por autoridades

“O meu estudo consistiu numa pesquisa bibliográfica, que visou saber quais as algas usadas a nível mundial no tratamento do cancro. Esses dados foram cruzados com a lista das algas existentes em Cabo Verde e fizemos ainda colheita natural de amostras nas ilhas de S. Vicente, Santa Luzia, Santiago e no Ilhéu Raso”, explica Soares. No seu trabalho de licenciatura, ao consultar obras sobre a taxonomia e descrição pormenorizada das propriedades das algas, como a publicação Plant Resources of South-East Asia 15, o agora biólogo tinha confirmado que duas dessas plantas existem nas águas costeiras cabo-verdianas.

A pesquisa teve ainda o propósito de confirmar a qualidade do gel agar-agar, uma substância produzida pelas algas vermelhas e que por sua vez possibilita o cultivo de microrganismos em laboratórios. “Além de ser um suporte para o cultivo de microrganismos, o gel agar é usado na confecção de pílulas e pastilhas de medicamentos destinados a agir no estômago e como laxante”, acrescenta João Soares, cujo estudo confirmou a presença desse gel em seis espécies de algas encontradas em Cabo Verde.

O seu trabalho iniciou-se em 2002 e foi incentivado pelo cientista cabo-verdiano João Manuel Varela, ex-professor de Citologia e Fisiologia Celular no Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar. Segundo João Soares, a ideia desse trabalho surgiu de um debate sobre o valor comercial do gel agar-agar. Nessa altura, um quilo desse produto era vendido por trinta contos no mercado internacional. Além disso, os hospitais centrais do Mindelo e da Praia enfrentavam dificuldades em efectuar determinados ensaios laboratoriais por insuficiência desse gel. De modo que o estudo apresentava um interesse tanto comercial como medicinal.

Para João Soares, não restam dúvidas de que Cabo Verde dispõe de um potencial económico considerável em algas marinhas, apesar de ter uma pequena plataforma marítima. O manancial destas plantas está nas áreas costeiras, a uma profundidade que vai até os quatro metros. Outra vantagem é que as algas podem ser cultivadas de forma controlada em superfícies artificiais, como redes, e protegidas dos seus predadores naturais.
“O que falta em Cabo Verde é um estudo bioquímico do extracto para confirmar a qualidade e quantidade das substâncias encontradas nessas algas. Dispomos de matéria-prima, precisamos agora é explorá-las, tal como se faz noutras paragens, quem sabe através de uma parceria público-privada”, realça Soares. Segundo o biólogo, Cabo Verde não precisa de criar laboratórios específicos para elaborar os testes necessários. Basta enviar amostras para os países que já dispõem dessa tecnologia.

Quase catorze anos após a sua elaboração, o estudo permanece literalmente ignorado pelas autoridades cabo-verdianas, na perspectiva do autor. Para Soares, parece evidente que Cabo Verde vai desperdiçando tempo e, neste caso, tempo pode significar perda de dinheiro e de conhecimento científico. “Daí estar a chamar a atenção das entidades competentes através desta reportagem”, justifica o próprio biólogo marinho, actualmente Técnico do Laboratório de Biologia da Universidade de Cabo Verde, em S. Vicente.

Este não é o único estudo realizado em Cabo Verde e que se debruça sobre as extraordinárias capacidades terapêuticas dessas plantas marinhas na medicina e alimentação. Em Setembro do ano passado, uma equipa de investigadores das Canárias concluiu que Cabo Verde tem algas com “enorme” valor terapêutico no combate às doenças cancerígenas, o que vem reforçar a credibilidade do trabalho desenvolvido por João Soares.

Os cientistas pesquisaram a flora marinha da ilha do Maio e os resultados foram animadores. As 14 espécies de algas analisadas (quatro macroalgas e 10 micro) foram submetidas a testes para a procura de substâncias com propriedades antibióticas, fungicidas e anti-tumorais e os dados iniciais apontaram para propriedades que eliminam 50% da população celular nos tumores do pulmão, mama, próstata e colo uterino. Em conversa com este jornal, Rafael Zárate Méndez, director deste projecto que se estende à Macaronésia, considerou na altura que se estava perante “uma indústria pioneira de alto valor acrescentado e com um impacto ambiental quase nulo”.

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