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Eugénio Duarte, Superintendente da Igreja do Nazareno: “A nossa missão é ajudar as pessoas a verem que é possível amar” 01 Agosto 2014

Mindelo recebe até o dia 3 de Agosto a 61ª Assembleia Distrital sob o lema “Amemos como Cristo amou”. Nesta grande entrevista, o Superintendente Geral da Igreja do Nazareno, Eugénio Duarte, fala do amor incondicional, esmiuça os temas que vão ser tratados neste “exame” anual em que se reflecte sobre o que se conseguiu fazer, e avalia se os alvos foram ou não alcançados. Refere ainda aos desafios com que a Igreja do Nazareno, cada vez mais internacional e global, está a ser confrontada, da instalação do islamismo no país e do papel e valor da igreja na sociedade.

Eugénio Duarte, Superintendente da Igreja do Nazareno: “A nossa missão é ajudar as pessoas a verem que é possível amar”

- Por Constânça de Pina -

- Está em Cabo Verde para dirigir a 61ª Assembleia Distrital da Igreja do Nazareno que acontece no Mindelo. Que importância confere a esta conferência?

No sistema de governação e administração da Igreja do Nazareno reunimo-nos todos os anos num distrito, que é um conjunto de igrejas locais que respondem uma às outras em termos do que aconteceu durante o ano no aspecto de evangelismo, do Ministério de Compaixão, do crescimento da igreja em si, do discipulado. Enfim, toda a vida da igreja passa por este período de exame em que há reflexão e ponderação sobre o que se conseguiu fazer, os alvos que foram ou não alcançados e o porquê.

- A Assembleia Distrital é então uma espécie de balanço?

- É um balanço do aspecto administrativo ao espiritual, que também é importante. As pessoas passam um ano nas suas comunidades, que às vezes são pequenas e fechadas. Outras vezes, mesmo quando são mais abertas precisam de contacto com outras comunidades. Cabo Verde tem um único distrito, o que não é comum para a Igreja do Nazareno. Em todos os países com uma certa história, como é o caso de Cabo Verde, possuem mais que um distrito. Mas, porque Cabo Verde é um país pequeno acho que a igreja consegue fazer a missão apenas com um distrito. Creio que chegará o dia quando será necessário mais de um distrito aqui. Uma assembleia de distrito é tempo das pessoas chegarem e se reverem. É tempo de inspiração, de convívio espiritual e também de aprofundadamente na fé.

- Vão ser apresentados nesta assembleia vários temas. A escolha teve em conta a realidade do país? Fazem um paralelismo entre a igreja e a sociedade quando perspectiva os assuntos a serem debatidos?

- Sempre. A Igreja não pode estar isolada da sociedade. A igreja existe para servir as pessoas. Está e é parte da sociedade. O tema que temos para estes poucos dias foi escolhido com Cabo Verde no coração e mente. Os desafios que enfrentamos neste momento –económica, política e social – é que faz o país que somos hoje.

- Mas tudo isso tendo por base o amor…

- Absolutamente. Sem o amor não conseguimos cumprir a missão que Deus nos confiou.

Situação da Igreja

- Já foi responsável pela área geográfica onde a Igreja do Nazareno de Cabo Verde está inserida. Agora, cuida de outros assuntos. Como analisa a situação da igreja hoje no nosso país?

- A igreja em Cabo Verde, como em vários outros países onde estamos, encara hoje desafios que não foi confrontada antes. Quando começou em Cabo Verde há vários anos, a Igreja de Nazareno foi a única, depois da Católica. Hoje temos várias outras opções. Acreditamos que temos uma missão específica, a par daquela que todas as outras têm, que é a de proclamar o amor de Cristo. Temos a missão de dizer e ajudar as pessoas a verem que é possível amar. Na nossa fraqueza e limitação se dependermos do Espírito Santo de Deus para nos guiar e nos deixarmos ser guiados por Ele, conseguimos amar. As vezes fica difícil pensar, com todos os desafios que encaramos, que ainda é possível amar. Não só é possível como é uma obrigação nossa. E é um amor incondicional. Sem amar morremos. A igreja tem este desafio de ajudar os indivíduos e as comunidades a entenderem que é possível amar.

Desafio da Igreja do Nazareno

- Na sua opinião qual o desafio maior que a Igreja do Nazareno enfrenta aqui em Cabo Verde? É expandir mais?

- A expansão da igreja não terá valor se a missão não é cumprida. O desafio é sempre cumprir a missão, ou seja, fazer discípulos semelhantes a Cristo. Não somos pequenos cristos no mundo, mas somos discípulos de Cristo. Ele é nosso alvo e procuramos viver semelhante a Cristo. E há sempre algo a fazer sobre isso. Não só porque ainda há pessoas que não se consideram discípulos, nem abraçaram o discipulado cristão, mas porque aqueles que já são precisam crescer ainda mais como discípulos. Nunca paramos de crescer e fortalecer como discípulos.

- Muita gente afirma ter frequentado a Igreja do Nazareno e que os princípios que lá aprenderam moldaram a sua vida aqui em Cabo Verde, nomeadamente os seus princípios morais. Mas a Igreja continua a ter um número de membros aquém. Podem ser poucos e bons, mas são poucos. Onde reside o problema?

- É que há sempre um preço a pagar. Qualquer coisa que abraçamos e desejamos temos de pagar um preço. E o custo que se tem de pagar por uma vida Cristã madura, sólida exige renúncias. Estas renúncias por vezes tocam algo a que as pessoas estão presas. Não é que não consigam porque, se alguns conseguiram, todos podem. Agora, quando colocam as coisas na balança, as vezes o outro lado parece pesar mais. A limitação humana de ver para além do agora, do passageiro, do momento é que não ajuda as pessoas a fazer a melhor escolha. As escolhas exigem mudança de estilo de vida, de práticas, de comportamentos. E não é fácil.

Mais igrejas

- A Igreja do Nazareno formalizou mais uma Igreja no dia 27 de Julho, em Ponta Belém, concelho de Santa Cruz. Satisfeito com esta notícia?

- Sempre. Como denominação, a Igreja do Nazareno todos os dias, no mundo inteiro, várias filiais estão a ser organizadas. Quando escuto sobre a organização de mais um templo em Cabo Verde, fico feliz porque sei que precisamos de mais. Uma igreja organizada tem condições de poder cumprir a missão que uma em formação não tem. Não organizamos igrejas rapidamente. Tomamos tempo porque é preciso organizar uma igreja com uma boa base. Sem base ela fica fraca. Os líderes em Cabo Verde têm sido sábios nesse sentido. Vão organizando as igrejas calmamente, mas seguros.

- O lema da assembleia distrital deste ano é "Amemos como Cristo amou". A igreja cristã hoje ama como Cristo amou?

- A igreja cristã ama, mas ela é feita de homens, que são imperfeitos. Todos nós somos imperfeitos. O nosso amor não se compara com o amor de Cristo. Entretanto, tendo Cristo como modelo, podemos aperfeiçoar o nosso amor, até chegarmos a medida da estatura que Deus tem e quer para nós. Amar exactamente como Cristo amou, nenhuma pessoa humana consegue. Mas, como seguidores de Cristo, temos o seu amor como modelo. É só seguir esse modelo.

- Qual é a mensagem que traz à igreja nesta assembleia?

- Venho trazer uma mensagem de amor, de colaboração e de encorajamento para continuarmos a estar disponíveis, preparados para o desconhecido, para o inesperado e para os desafios que não podemos fazer de ânimo leve. Encorajamento porque a igreja em Cabo Verde tem sido fiel e tem dido um bom desempenho ao longo dos anos. Mas há momentos em que a nossa capacidade de desempenho não é o mesmo e os factores que contribuam para isso pode ser desencorajadores.

- Então vem trazer mais um pouco de ânimo?

- Sim, mais ânimo e mais encorajamento porque os desafios que temos são maiores, mas não são insuperáveis. E que igreja dê e faça o seu melhor para o país, para cada comunidade e cumpramos a missão que sempre foi nossa.

- O programa da assembleia distrital inclui uma conferência sobre missões com vários oradores, nacionais e internacionais. Porquê uma conferência sobre missões? A Igreja precisa ser estimulada a fazer mais missões?

- A Igreja do Nazareno é missionária. Estamos em 159 países e não fazemos missões apenas a partir de um ponto para outro. Inicialmente foi a partir dos EUA para o resto do mundo. Agora temos missionários internacionais e globais. Aqueles que não vão como missionários suportam as missões. Sabemos que é preciso que a missão esteja presente para que as pessoas possam ver o resultado da sua contribuição. Uma convenção missionária serve para as pessoas verem que o que tem feito tem impacto. E vale a pena continuar.

Islamismo em Cabo Verde

- Preocupa-o o facto de os islâmicos estarem instalados em Cabo Verde e, tudo indica, a crescer?

- Não tenho muitas informações sobre o que está a acontecer em relação ao islamismo em Cabo Verde. Sei que está presente. Cabo Verde é um país aberto a todas as expressões de fé e, portanto, também ao islamismo. Estamos em países em que a nossa presença em vários lugares não é bem-vinda e não queremos pagar na mesma moeda. Somos um país cristão. Conheço Cabo Verde como um país cristão e creio que continuará a ser. Mas é também um país livre. Acredito que a presença de outras expressões de fé em Cabo Verde dão-nos a oportunidade para mostrar ao nosso país, à nossa gente e à nação que o que já temos tem valor.

- Vê algum risco na presença do islamismo em Cabo Verde? Ou melhor, acarreta perigo para o nosso país?

- Riscos há sempre em qualquer que seja a situação em que vivamos. Se não é o islamismo é outra coisa. O risco de tomarem os adeptos ou membros de uma ou outra igreja também existe. Mas acreditamos que, se fizermos um bom trabalho e continuarmos a evangelizar e a alimentar os fiéis que já são nossos membros, esses riscos minimizam. É preciso que façamos o nosso trabalho bem.

- Alguns países, caso da Suécia, proibiram a construção de templos islâmicos no seu território porque dizem que os estados islâmicos não permitem a construção de igrejas cristãos. Acha que Cabo Verde cobrar a mesma reciprocidade?

- Não sei se Cabo Verde deveria fazer isso. Em muita coisa o nosso país não pode se comparar com outros. Não podemos tomar decisões em Cabo Verde baseado nos outros. Devemos tomar decisões próprias. Em termos de proibição, não sei porque não conheço o tipo de islamismo que se está a instalar no país. Se há o perigo do radicalismo, creio que as autoridades saberão tomar a decisão mais acertada.

- O islamismo cresce, conquistando crentes até em países tradicionalmente cristãos. Por que isso acontece? As igrejas cristãs estarão a falhar na sua missão de espalhar o evangelho?

- Imperfeitos como somos não conseguimos fazer tudo bem sempre. Mas quando falhamos temos é de ser suficientemente humildes para reconhecer e que acreditar e que podemos fazer melhor. Fazer os reparos e a reorientação necessária para poder avançar, fazendo melhor. Por isso é que realizamos anualmente uma assembleia para avaliação. Por isso é que temos encontros de líderes, tempo de reflexão para saber o que fizemos mal ontem e procurarmos evitar repetir este mal.

Reeleição

- Foi reeleito superintendente geral da Igreja do Nazareno. O que isso significa para si?

- Significa que a igreja continua a acreditar no facto de que é internacional. Nos últimos cinco anos, a forma de expressar este facto mudou. Estou muito orgulho da minha igreja, que levou tempo demais para reconhecer que é internacional. Finalmente reconhecer que é uma igreja global. Qualquer que seja o Superintendente Geral eleito fora dos Estados Unidos ou da América do Norte para o cargo, processo que é feito por delegados de todo mundo, quer dizer que a igreja está consciente do facto de que temos valores para além daqueles que estamos acostumados.

- Foi o primeiro não americano eleito para este cargo. No ano passado, também foi eleito outro superintendente geral que não é americano, o Gustavo Crocker, um sul-americano. Tendo em conta que a Igreja do Nazareno foi fundada por americanos mas hoje estão em vários países de todos os continentes, isso quer dizer que está finalmente a ganhar um cunho mais internacional agora também a nível do órgão que a dirige tal como é noutros níveis?

- É verdade. Estamos cada vez mais internacional. É muito bom porque uma coisa é termos uma presença missionária que é carregada de cultura de um determinado povo, exportada para uma outra cultura. Os choques que acontecem quando a igreja usa os recursos que têm nos países onde tem uma presença, quer dizer que estamos a amadurecer.

- É natural da Brava, a ilha por onde entrou o primeiro cristão protestante vindo dos Estados Unidos, um emigrante cabo-verdiano, João José Dias. Existe algum património arquitectónico que testemunha esta fase da nossa história? Acha que o nosso Governo deveria contribuir para preservar esse património e montar um museu que testemunha sobre essa época?

- Não podemos contar com o Governo para fazer tudo. Mas creio que se a igreja apresentar um projecto aliciante é possivel que o Governo tenha interesse e não iremos recusar esse apoio. Não vamos exigir, aliás nunca exigimos.

- Mas há património arquitectónico na Brava? Está a ser preservada?

- O primeiro templo Nazareno em África está na ilha Brava, no sítio de Ponta Achada. E tem sido preservado. Infelizmente, o edifício sofreu algumas alterações ao longo dos anos, que não comprometeram. Mas talvez deveriam ter sido feitos de forma a evitar que o original se perca. Mas ainda está lá e está servindo a comunidade.

- Nos últimos anos, o poder público - o Governo central e as câmaras municipais - têm chamado as igrejas para juntos buscarem soluções para os problemas sociais de Cabo Verde. Esse pedido de ajuda vem tarde, na sua opinião?

- Desde do princípio da história da Igreja Nazareno em Cabo Verde estivemos sempre disponíveis. Infelizmente, em tempos idos esta ajuda e pedidos nunca chegou. A igreja foi tolerada, mas não teve poder de agir e cumprir a sua missão. Agora temos esta liberdade. É uma benção e uma conquista não só das igrejas, mas do povo que reconhece que precisa delas. Estamos felizes por termos a liberdade de cumprir a missão como queremos e devemos. Estamos gratos ao povo de Cabo Verde por isso.

- Qual o papel das igrejas na sociedade de hoje?

- A igreja deve fazer a diferença na sociedade quando chamada. Deve fazer discípulos semelhantes a Cristo. Não é uma missão que qualquer um estará interessado em fazer. Portanto, a igreja organiza-se, prepara-se para fazer o que só ela tem a vocação de fazer. O papel da igreja em qualquer sociedade é de um valor inestimável.

C/ Teresa Sofia Fortes

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