Cultura

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Eugénio Tavares, poeta e jornalista – um homem do seu tempo 19 Outubro 2017

A biografia oficial dá-o como nascido na Ilha Brava em 18 de outubro de 1867. Contudo, a data certa ainda está por confirmar, tanto que existem publicações que o dão ora como nascido em novembro, ora em 1861. As biografias que circulam online trazem elementos – como uma ascendência espanhola, ou o nascimento no mar, ou o total autodidactismo — que ainda estão por confirmar. Por ocasião do centésimo-quinquagésimo aniversário, partilho algumas das descobertas que há vinte anos venho fazendo, como subsídios para o conhecimento do poeta e jornalista Eugénio Tavares.

Por: Luiz Cunha

Eugénio Tavares, poeta e jornalista – um homem do seu tempo

1

Dignidade do cidadão caboverdiano

Através dos jornais (título da antologia de Félix Monteiro), Eugénio Tavares desenvolve uma atividade de escrita polémica que terá iniciado, em 1897, no suplemento ‘A Marselhesa’, do jornal político homónimo (que na Hemeroteca de Lisboa encontrei sob o título ’A Marselha’, mas em breve desembaraçarei esse fio). Ao longo de mais de trinta anos, em jornais tais como a Revista de Cabo Verde, Alvorada, Manduco, A Voz de Cabo Verde, defende os direitos do cabo-verdiano à mesma dignidade conferida a qualquer português. Todavia essa defesa é feita de acordo com os padrões de autoperceção próprios da sua época. A defesa que Eugénio Tavares ‘jornalista polemista’ faz da caboverdianidade tem de ser, pois, perspetivada no contexto da sua época e do seu meio social (ver infra, 4.).

2

‘Badinha’ abre caminho

A perfeição formal e a expressividade no desenvolvimento temático deste primeiro poema dedicado à madrinha, como indica o título sintomaticamente a remeter para a carinhosa língua materna da Ilha Brava, atestam a precocidade literária. Esta é também a sua primeira colaboração, em 1881, no ‘Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro’ terá ocorrido quando tinha 15 anos, se nos ativermos à data oficial, ou mesmo 21 anos segundo uma outra hipótese.

O recorte autobiográfico marca o soneto: órfão desde tenra idade – ainda por definir em que data morreu a mãe –, Eugénio Tavares foi criado pela madrinha, cujo irmão era figura destacada do funcionalismo público e que terá contribuido para a vivência em ilhas como a Boa Vista. A estada na ilha berço da morna será um dos fatores determinantes no seu futuro de artista da ‘Morna’.

3

A defesa da língua

A defesa da língua materna dos cabo-verdianos marca a obra literária de Eugénio Tavares. Basta escutar a letra, melhor diríamos a lírica, de cada uma das mornas para provar essa afirmação. Menos conhecida é todavia a defesa que apaixonada e assertivamente faz em prosa. Sobre esta língua, como então se dizia ‘dialeto’, o jornalista escreve vários artigos sobretudo em ‘O Manduco’ entre 1923 e 1924. Respigámos alguns extratos:
“O carácter do povo caboverdiano está, mais ou menos, pitorescamente, expresso na fonalidade dos seus dialectos, que variam de ilha para ilha como de ilha para ilha varia o perfil físico”.

A defesa da língua portuguesa é uma noção então desconhecida, no mundo lusófono, noção e espaço ainda a descobrir, na época em que viveu Eugénio Tavares. O Lugar único do português, língua, é incontestável.

Daí que a defesa do ’crioulo’ enquanto língua primeira dos nascidos em Cabo Verde surja como uma premonição da primazia da língua materna na formação do indivíduo. Descoberta intuitiva, mas que a ciência só estabeleceria mais de cinquenta anos depois.

À distância de quase um século ainda me impressiono com a afirmação certeira sobre as potencialidades desta língua: “o dialecto caboverdiano pode falar-se e grafar-se. Por muitos motivos, e, principalmente, porque constitui a documentação de uma transformação, digo, de uma das transformações felizes da língua portuguesa entre os povos coloniais”. In ‘O Manduco’, janeiro de 1924.

4

Caboverdianidade autopercecionada

A defesa que Eugénio Tavares ‘jornalista polemista’ faz da caboverdianidade tem de ser perspetivada no contexto da sua época e do seu meio social. A leitura do seguinte extrato mostra as cautelas com que devemos abordar o homem e a sua época.

“E não é maravilhoso que, de uma colónia de escravos negros, proviesse esta raça branca, perfeita, de linhas físicas , elevada de perfil moral, dotada das eminentes qualidades dos povos superiores, que é o fundo étnico da Brava? E não é inexplicável que dessa colónia retinta não tenha ficado sinal, de tal jeito que já em 1879 apenas se conhecessem duas ou três famílias de pretos, como o disse, em relatório oficial, o general Sérvulo Medina?”. In ‘O Manduco’, janeiro de 1924.

5

Descobrir através também dos intérpretes da morna eugeniana através dos tempos

Muito está ainda por revelar sobre os temas, as influências literárias e as formas da língua cabo-verdiana. Um estudo da língua materna tem de se debruçar sobre a apropriação que os intérpretes têm exercido sobre o legado de Eugénio Tavares. Daí a foto da Sãozinha Fonseca, uma das intérpretes da minha predileção e sobre quem espero escrever mais.

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