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Exercício de matemática do 2º ano gera discussão na internet – até Real Academia de Espanha intervém 23 Outubro 2017

Esta terça-feira, 17, um pai publicou no ‘Twitter’: “Aqui vai um exercício de matemática do meu filho (7 anos). Penso que quem não o compreendeu bem é o professor”. Passo seguinte: milhares reagem e o professor que cruzou a tinta vermelha a solução dada está a ser crucificado!

Exercício de matemática do 2º ano gera discussão na internet – até Real Academia de Espanha intervém

Os desafios que no dia a dia nos surgem cada vez mais exigem respostas que têm de ser inteligentes. A inteligência treinada pela prática refletida, vinda da reflexão que une teoria e prática.

O problema colocado era: escreve os seguintes números em algarismos. O aluno, de 7 anos, respondeu — Dez: 11. Noventa e oito: 99. Oitenta e um: 82. Sessenta e seis: 67. Trinta: 31.

A resposta foi avaliada pelo professor segundo a sua lógica, centrada na semântica de “algarismos” apresentados a seguir. O aluno pensou com a sua própria cabeça: “algarismos seguintes, números seguintes”— logo, o número seguinte a dez é onze, claro.

Após a publicação do “tweet”, o ’mundo’ do Tweeter – 6.200 comentários, 57 mil partilhas e 103 mil ‘gostos’— dividiu-se. Há os que acham que o menino não entendeu a pergunta. Há os que concordam com o pai — o professor é que não compreendeu bem a resposta.

O pai veio em defesa do professor: "Ele é um bom professor!". "Isto é só uma anedota".

Real Academia Espanhola (RAE) intervém

Muitos posicionaram-se contra o pai que ‘ trouxe isto ao Tweeter para fazer troça do professor’. Outros pediram a intervenção da academia em prol do bom uso da língua.

A RAE não fez orelhas moucas e reagiu: "Tal como está redigido o exercício, a interpretação natural é que se escrevam em algarismos os números referidos". A academia esclareceu que a sua “é uma perspetiva puramente linguística".


Interpretação linguística

A apresentação do problema provocou uma resposta inesperada. Daí as avaliações opostas: errado para o professor, genial para quem valoriza a criatividade. «O teu filho é um génio. Escreveu literalmente os números ’seguintes’», reagiu o realizador argentino Juan José Campanella, que em 2009 ganhou o Óscar por "O segredo dos teus olhos".

O professor ao avaliar de acordo com o programa curricular (que preconiza um ‘resultado esperado’) só podia interpretar como erro uma resposta que não fosse 10, ... 30. É claro que ele podia usar a sua experiência pedagógica para entender porque é que o aluno respondeu errado. ‘Todo o erro tem uma explicação’ é uma constatação que a prática vai ensinando – a quem é docente para que possa conduzir quem é discente, nos árduos caminhos da aprendizagem.

Contudo, há aqui uma questão, a questão linguística que os professores (de outras áreas que não a da língua oficial) têm de ter em conta. A pergunta tem de ser bem formulada para evitar ambiguidades, que levam ao erro de interpretação.

No contexto, o aluno de sete anos — que, embora possuindo já todas as regras básicas da língua, ainda não tem a maturidade para entender as estruturas sintáticas e semânticas mais complexas — tem dificuldade em interpretar o enunciado porque ainda não tem a maturidade para distinguir que “seguinte” é um adjetivo demonstrativo e não um adjetivo explicativo. Anteposto é um demonstrativo (‘o seguinte número’ é ‘este número’), mas depois de um substantivo é um adjetivo qualificativo que podia significar ‘o número que se segue a este’. Foi esta segunda interpretação que o aluno lhe deu. Decerto a formulação mais simples (escreve os números em algarismos) tem uma só interpretação e produz mais vezes a resposta certa. E o erro assumido (e explicado) produz mais vezes a resposta certa.

Mª Lourdes Lima
( Fonte: Tweeter de: Ignacio Bárcena)

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