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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Festival da Lusofonia colore Lisboa 20 Maio 2015

Lisboa acolhe a partir desta quarta-feira, 20, o Festival da Lusofonia. São 37 eventos em cinco dias que revelarão à capital portuguesa os tons, sons e sabores de todos países e regiões do mundo que falam a língua portuguesa. Mais do que operação de charme, o certame propõe provar que a Lusofonia é uma das identidades mais ricas do globo e mostrar aos seus afiliados que, exercendo o soft power - termo muito em voga que significa a influência que se pode exercer não pela força mas por meio de actos culturais - a comunidade se sobressairá ainda mais no cenário internacional.

Texto por: Teresa Sofia Fortes

Festival da Lusofonia colore Lisboa

Ir ao Festival da Lusofonia é como fazer uma volta ao mundo sem sair de Lisboa, é visitar todos os continentes. Lá, sob os auspícios da Câmara Municipal de Lisboa, União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e Conexão Lusófona, encontram-se aromas e cores, lendas e estórias, palavras e ritmos, o passado, o presente e também o futuro que chegam de Cabo Verde, primeira terra onde os portugueses aportaram na era dos Descobrimentos, Guiné Bissau, São Tomé e Princípe, Angola, Moçambique, Brasil, Timor, Goa, Macau.

É o papel de embaixadores da língua de Camões no mundo que amanhã, segundo dia do festival, na Universidade Lusófona, especialistas de vários países vão debater no Colóquio "Cidadania e Lusofonia". No mesmo dia, abre ao público na Câmara Municipal de Lisboa a Exposição Documental da Casa dos Estudantes do Império. A instituição que acolhia alunos que deixavam as colónias para estudar na Metrópole acabou por ser morada dos principais actores das lutas pela independência na África Lusófona. Personalidades que, no último dia do festival (25), vão ser homenageadas numa cerimónia a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian. Entre elas estará Pedro Pires, antigo primeiro ministro e antigo chefe de Estado de Cabo Verde.

Mas o Festival da Lusofonia não olha apenas para o passado. O certame quer despertar todos os sentidos daqueles com quem vai se cruzar. Este primeiro dia abre e encerra com exposições: uma de pintura e artes plásticas de artistas lusófonos e outra dedicada ao Ano Europeu para o Desenvolvimento. Pelo meio, a festa da restauração da independência de Timor. Na quinta-feira, há café e cacau de S. Tomé e Príncipe num workshop com Claúdio Corallo e um encontro de escritores lusófonos, além da Festa da Diversidade, que este ano celebra o cante alentejano.

A banda desenhada que se faz nos países lusófonos dá-se a conhecer na sexta-feira, 22, o mesmo dia em que a morna e um dos seus expoentes, B. Léza, serão louvados numa palestra e numa exposição a ter lugar na Associação Cabo-Verdiana. Sábado, 23, o dia começa com um brunch de culinária tradicional de Cabo Verde e continua com degustação de pratos típicos de S. Tomé e Princípe e a celebração do Dia de África. A festa inclui desfile de moda de Naara Saturnino da Silva, Moms Andrade, Neide Delgado e Romana Mussagy e um espectáculo de música africana contemporânea. A exposição de fotografia "Macau - um sentimento asiático", de Rita Bernardo, e uma tertúlia de poesia desta região da China, outrora colónia de Portugal, encerra o dia.

Domingo, 24, há festa do Brasil com feijoada, samba e capoeira. E livros: Raquel Ochoa (Índia) lança "Casa Comboio e Orlando Piedade (S. Tomé e Princípe) apresenta o seu "Meninos Judeus Desterrados".

Mas para lá da festa a lusofonia debate-se com problemas e incertezas que há uma semana, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, directores de jornais de todos os países lusófonos estiveram a debater. O evento decorreu no âmbito das comemorações do primeiro Dia Internacional da Língua Portuguesa e um ano depois de redigirem artigos sobre a língua comum convidados pelo Movimento 2014 e pelo jornal Público.

Lusofonia, que futuro?

Em Timor, o português é a língua oficial, em paridade com o tétum. Mas o idioma de Camões corre o risco de sucumbir perante a investida das línguas dos vizinhos Austrália e Indonésia, o inglês e o bahasa. Guiné-Bissau e Cabo Verde estão "rodeados" de francófonos, assim como Moçambique e Angola têm à volta apenas vizinhos anglofónos e alguns francófonos. Além disso, em todos esses países só uma minoria fala o idioma.

Assim, os 14 dirigentes de jornais lusófonos, entre os quais a directora de A Semana, Filomena Silva, que participaram no debate “O Futuro da Língua Portuguesa” apelam ao investimento no ensino do português, dentro e fora da lusofonia. “O problema não é a língua, mas a falta de investimento no ensino da língua”, considerou Delfina Mugabe, chefe de redação do moçambicano Jornal de Notícias. Francisco Carmona, do jornal Savana, também de Moçambique, advoga que é urgente colmatar esta falha porque "o português é a língua da política, da economia, que dá acesso ao emprego, é a língua de colocação mais ampla, é a língua que abre portas – o português é o caminho".

Em outras palavras, pode-se dizer que o português é um bom veículo para comunicação interna e também como instrumento de afirmação internacional. A quem cabe a missão de disseminar e cimentar este estatuto? Aqui as opiniões dividiram-se durante o debate. Enquanto uns atribuíram a responsabilidade a Portugal, outros, como Ruy Rubio Rocha, responsável pelo acervo e exposições do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, consideraram que a tarefa é dos 240 milhões de falantes do idioma.

Soft power

O meio ideal para exercer esta missão é o chamado soft power ou "poder brando" em oposição ao poder político, militar ou económico. Usado pela primeira vez em 2004 por Joseph Nye, professor da Universidade de Harvard (EUA) no livro "Soft Power: Os Meios para o Sucesso na Política Mundial", o termo designa a habilidade de uma sociedade para influenciar indiretamente e de forma subtil o comportamento ou interesses de outras sociedades por meios culturais ou ideológicos. A música, a literatura, a dança são alguns dos veículos de exercício desse poder como frisou durante o debate Paulo Motta, do jornal O Globo, do Brasil.

“A música é o caminho para a língua entrar diretamente em nossas veias, em nossos corações. No Japão, actualmente, ouve-se mais Bossa Nova que no Brasil. E já escutei um músico australiano tocando e cantando um samba de enredo, sem sotaque!”, sublinhou Motta. A kizomba, estilo de música e dança com fãs em todo o mundo, designadamente no Brasil, é hoje outro forte veículo da divulgação da língua de Camões. Até mesmo cantores cabo-verdianos, que são muito ciosos do seu crioulo, hoje cantam em português com a clara intenção de estender o seu mercado para além das fronteiras de Cabo Verde e da sua diáspora. Nelson Freitas, Johnny Ramos, Mika Mendes, todos nascidos fora de Cabo Verde, também falam e cantam em português.

A língua comum é portanto um "capital estratégico" que os Estados que falam português devem assumir, defendeu o deputado europeu Ribeiro e Castro, um dos principais impulsionadores do Movimento 2014-800 anos da Língua Portuguesa. Ora, é na Europa, onde nasceu, que a língua portuguesa se depara com maiores dificuldades. "Nós os portugueses, os lusófonos europeus, não estamos a fazer o suficiente para afirmar o português como uma grande língua da Europa”, declarou o deputado do CDS-PP. Falta um lobby para convencer os outros países do continente que têm nesta língua uma "ferramenta preciosa” de relacionamento com os outros continentes, considerou Ribeiro e Castro.

Para o secretário executivo da CPLP, Murade Muragy, que discursou na abertura da celebração do Dia da Língua Portuguesa, é preciso “sair do discurso e partir para a ação”. É urgente transformar a língua portuguesa numa "prioridade governativa” dos países do bloco lusófono, pois “ainda não o é”.

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