OPINIÃO

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Fórum Nacional de Educação : Perante o sistema educativo da Nação, uma atitude radicalmente nova 12 Novembro 2017

Os atuais resultados, menos de 50% dos objetivos de aprendizagem em matemática e português, por exemplo, não combinam com o propalado ensino de excelência. Pelo contrário, sejam quais forem as causas, o nosso ensino é reconhecidamente fraco. O caminho da inversão da marcha é, provavelmente, o de ser mais razoável e esforçado, seguir a via incremental, ousando sempre a unidade a partir da diversidade. Mas, claro, temos de ter o sonho da excelência, sem confundir sonho com realidade.

Por: Corsino Tolentino *

( Analista e ex-ministro da Educação)

Fórum Nacional de Educação : Perante o sistema educativo da Nação, uma atitude radicalmente nova

Introdução

Felicito os organizadores e participantes deste fórum de educação, uma causa comum. Pretendo reflectir sobre uma alternativa ao ensino superior em todas as ilhas em vez de universidade em cada uma delas e defender uma atitude radicalmente nova perante o melhor produto que a Nação criou e desenvolveu ao longo dos anos. Agradeço a UNICEF, o Banco Mundial e a Parceria para a Educação pela ajuda específica ao Ministério da Educação para a organização deste fórum. 50% do tempo previsto (35 minutos) serão para a apresentação do tema e os restantes 50% serão consagrados ao debate.

Uma atitude radicalmente nova

Essa nova atitude tem muito a ver com considerar de excelência apenas aquilo que é excelente. Os atuais resultados, menos de 50% dos objetivos de aprendizagem em matemática e português, por exemplo, não combinam com o propalado ensino de excelência. Pelo contrário, sejam quais forem as causas, o nosso ensino é reconhecidamente fraco. O caminho da inversão da marcha é, provavelmente, o de ser mais razoável e esforçado, seguir a via incremental, ousando sempre a unidade a partir da diversidade. Mas, claro, temos de ter o sonho da excelência, sem confundir sonho com realidade. Outra caraterística da atitude radicalmente nova será o hábito de calcular quanto as coisas custam. Uma terceira seria a visão holística ou integrada de tudo quanto pretendemos fazer, tomar a ilha como base e ver se porventura um ou outro departamento do setor público ou privado não terá os recursos necessários. Assim por diante.

Ensino superior em todas as ilhas graças à Internet

A Agência Nacional das Comunicações (ANAC) ainda não apresenta os dados estatísticos de acesso à Internet de banda larga por ilhas. A última informação publicada é relativa ao fim do primeiro trimestre de 2017. A taxa de penetração da Internet é uma das boas coisas que acontecem neste país. Cresce lentamente, mas cresce. Como levar o ensino superior - não a universidade - a todas as ilhas? O Web Lab está nas vésperas de demonstrar essa nova realidade com as 44 escolas secundárias e equivalentes. Um dia talvez alargará essas virtualidades às necessidades do ensino superior. A diferença aparentemente pequena entre a universidade e o ensino superior conta. Pode ser significativo o fato da 8ª edição do Web Summit (a cimeira da Internet) estar a acontecer em Lisboa, Portugal, país membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao mesmo tempo que o Fórum. O representante do NOSI terá certamente muito que contar. Concordo com aquilo que nos diz a Comissão Organizadora, através dos vários documentos que reuniu e distribuiu sobre as aventuras e as fraquezas do nosso sistema educativo, principalmente do ensino superior em Cabo Verde e as respetivas instituições. Além de ter de ser mais eficaz na resolução de problemas concretos, este Governo tomará certamente medidas que ultrapassem o Boletim Oficial. Esta pode ser uma delas.

Analisar, com argumentos sólidos, as condições de acesso à Internet (no presente e médio prazo). Em função da análise, encomendar um projeto, incluindo a componente tecnológica e financeira, de ensino superior misto em todas as ilhas: uma base comum fornecida através do ensino a distância pela Internet + a instalação de capacidade local para assistir os estudantes do ensino superior.

Este modelo acarretaria a redução do número de cursos oferecido em cada ano, como o mínimo da responsabilidade do Estado. Nota-se que a oferta continuará a ser infinita, assim como a tendência para a concentração das Instituições de Ensino Superior nas cidades da Praia, Mindelo e Assomada. Igualmente, os estudantes que quiserem e puderem continuarão a procurar os maiores centros urbanos para aí fazerem os seus estudos. Por outro lado, está provado que a formação secundária e superior é um dos maiores destinos das remessas sociais da emigração cabo-verdiana. Continuarão a sê-lo, com uma pequena diferença qualitativa. Esses generosos emigrantes são convidados a aproveitarem as viagens dos seus protegidos para eles visitarem universidades nos países de acolhimento. Essa socialização trará benefícios para todos.

Fogo, São Nicolau e Santo Antão já têm ideias ou mesmo projetos, quase sempre ligados aos núcleos de migrantes internos, principalmente na capital do país, e às respetivas Diásporas (EUA, Itália, Holanda). O Estado teria de melhor regulamentar o subsetor do ensino superior. Um projeto de ensino superior misto era uma boa oportunidade para os recursos humanos que existem no país e na emigração, do governo e do setor privado, trabalharem juntos. Quem pensa que a tarefa é fácil engana-se. Mas é possível utilizar a capacidade humana e a tecnologia adequada. Por ora, parece que a única via disponível é uma combinação inteligente do ensino a distância e do ensino assistido. Pode até ser um caso de sucesso internacional.

Línguas nacionais, Matemática e Informática

A língua crioula tem o tempo da História. Evoluirá sem pressa. Por outro lado, a Nação investirá, a longo prazo, o que for possível e necessário até Cabo Verde ter uma língua também de ensino. Entretanto, o português já chegou à idade adulta e é nosso. Por longos anos, as licenciaturas, os mestrados e os doutoramentos vão ser pelo menos em português. Para a frente, não seremos excelentes em Matemática, por sermos cabo-verdianos, mas medíocres, sofríveis, bons e excelentes, porque somos universais como todos os outros e trabalhamos pelos diplomas e certificados. Quem mencionou Informática? É essencial, principalmente para o modelo de ensino superior misto que se propõe.

CEDEAO: francês, inglês e português

O nosso sistema educativo não pode depender de uma massa crítica de 500 mil habitantes ou mesmo de um milhão de falantes espalhados pelo país e pelo Mundo. Tem de expandir. E os espaços previsíveis são a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, os países de acolhimento de emigrantes dessas comunidades e, no caso concreto de Cabo Verde, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Isso quer dizer que é nosso dever ajudar a colocar o português como língua de trabalho dos 15 e conquistar o francês e o inglês. Temos de adquirir o hábito de fazer contas e deixar definitivamente para trás o defeito do incumprimento. Fatos são fatos, existindo a liberdade de escolha, a maioria escolherá, para já, muito provavelmente o inglês. Pois bem, assumindo o princípio de que a educação é o melhor mecanismo social de distribuição da riqueza e dos valores, Cabo Verde tem a grande vantagem de toda a nação se ter entendido sobre a importância da língua e do sistema educativo. Dizer isso não é afirmar que todos os cabo-verdianos já entenderam a força que isso é. Alguns ainda não entenderam.

Nem tudo o que é oferecido é bom

É o que se passa com as experimentações sem a devida organização. Quem não se lembra das experiências de ensino em crioulo? Agora fala-se do mandarim. Amanhã, talvez será a vez do português. Não, avaliemos uma e outra coisa, publiquemos os relatórios, discutamos e façamos as melhores escolhas sem dogmatismos nem falsidades. Sabe-se que nem toda a oferta é aceitável. Agradeço a todas as nações que nos ajudam a por de pé um sistema educativo condigno e peço-lhes que não aceitem facilitismos, mormente de duas categorias: os inevitáveis elefantes brancos, no fim dos financiamentos sem contrapartidas mormente melhoria de recursos humanos e institucionais ou todo o projeto executado que não representou uma mais-valia na ilha que o teve.

Vamos discutir

Outra vez são questões de atitude, mas vamos discutir, concentrando o debate em duas propostas: como melhorar a atitude e o ensino superior através do sistema misto de ensino a distância mais assistência na sala? O resto deverá contribuir para reforçar a ação do Estado e assegurar a função dos pais e encarregados de educação.

* Intervenção no Fórum Educação

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