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Hernâni Almeida: “Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim” 23 Agosto 2008

Hernâni Almeida foi uma das “estrelas” do 24º Festival da Baía das Gatas ao desfilar todo o seu talento à guitarra, interpretando os temas do seu primeiro disco a solo - “Afro na Mi”. Depois de participar em vários projectos de instrumentistas e cantores cabo-verdianos como orquestrador e guitarrista, Hernâni Almeida finalmente se revela ao público na condição de compositor e intérprete num CD que, como diz o músico, é o retrato da sua vida aos 30 anos.

Hernâni Almeida: “Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim”

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

O que podemos ouvir em Afro na Mi?

Neste disco é possível ouvir a minha perspectiva da música de Cabo Verde misturada a tudo o que aprendi até hoje. Tenho estudado e pesquisado muito sobre música e acho que quando tentei pôr isso no ritmo africano o resultado foi este disco.

Foi por isso que deste o título “Afro na Mi” ao disco?

Sim. Afro na Mi é a africanidade que está dentro de mim e que quero explorar e expor. Infelizmente, nós crioulos temos tendência em querer esconder a africanidade que temos em nós e acabamos por ficar perdidos neste mundo. Somos cabo-verdianos mas somos crioulos, ou seja, temos misturas. Alguns se identificam mais com Portugal, outros com o Brasil. Eu me identifico muito com continente africano e quero explorar esse lado africano que tenho em mim. Portanto, Afro Na Mi é a minha africanidade posta em disco.

E o que foste buscar a África para pôr no teu disco?

Fui buscar os ritmos. Mas, atenção, quando falo de ritmos africanos não me refiro aos géneros típicos, tradicionais. Refiro-me sim à crioulidade que criei entre os ritmos puros do continente africano e os nossos ritmos mestiços cabo-verdianos. Quando escutarem o disco, as pessoas vão reparar que há por exemplo uma mazurca tocada de um jeito completamente afro. Quem escuta essa música pode dizer que é uma música africana, mas eu sei que é uma mazurca. Ou seja, eu quis transformar um pouco a nossa música, puxando-a um pouco mais para o continente africano.

Quem compôs para o repertório? Apenas tu, Hernâni Almeida?

As músicas do disco são todas minhas. Há apenas uma que é de um grande amigo meu, Lúcio Vieira. Um dia ouvi-o a tocar essa música na guitarra e pedi-lhe que ma desse para trabalhar e gravar para o disco Afro na Mi. O repertório só traz músicas originais, com todos os arranjos feitos por mim. Mas é claro que tive grande apoio da parte dos músicos que trabalharam comigo. São todos músicos profissionais, pessoas musicalmente sérias. São eles Mirocas Paris e Zé Paris (músicos da Cesária Évora) e Lúcio Vieira, que é baixista mas que no meu disco toca piano.

Afro na Mi é um disco de autor, uma edição produzida por ti próprio. Foi difícil produzir este disco sem ter uma editora por trás a apoiar e disponibilizar os meios financeiros?

Produzir este disco foi um grande feito na minha vida. Todas as pessoas a quem pedi para trabalhar comigo neste disco se disponibilizaram completamente, o que me ajudou bastante. O difícil para mim foi lidar com a parte de gestão do dinheiro. Nunca fui bom em matemática. Foi incrível ver Zunga Pinheiro a disponibilizar-se para trabalhar comigo o tempo que fosse necessário para eu conseguir a sonoridade que queria e a dar-me margem para pagar os seus serviços quando Deus quiser. Foi também extraordinário, nos momentos em que estava em casa desanimado, receber telefonemas do Gugas Veiga a animar-me dizendo, “estica o corpo porque vamos gravar hoje”. Não senti nada a falta de produtores ou editoras.

O teu nome é já consagrado como guitarrista e arranjador, graças ao teu trabalho em discos de vários artistas cabo-verdianos. O que te levou a, só agora, apostar num disco a solo? Estavas a amadurecer um pouco mais a tua música?

Não, não estava a amadurecer nada. Simplesmente, ainda não tinha compreendido que na vida temos de tirar fotografias de certos momentos para mais tarde recordar. Mas constatei também que as pessoas já conhecem o meu trabalho como criador. Então, por que não juntar as minhas obras e apresentar a minha perspectiva da música. E conclui também que este era o momento certo para lançar o disco. Porque se ficasse à espera do momento em que me sentiria pronto nunca mais lançaria o disco. Eu sinto que, quando toco com outros músicos, como Bau ou Boy Gé Mendes, tenho personalidade própria dentro da música deles. Por isso, decidi tirar uma fotografia da minha personalidade neste momento, gravando este disco.

Porque daqui a uns anos teremos outro Hernâni, não é?

Sim, será outro Hernâni.

Além dos espectáculos de apresentação de Afro na Mi em Cabo Verde, pretendes fazer outros shows de lançamento?

Sim. Já mandei uma proposta para França para me candidatar a uma série de concertos em centros culturais franceses do continente africano. Seria óptimo conseguir essa digressão porque é isso que a minha boca está a pedir-me. Tenho muita vontade de voltar ao continente África, por isso se começasse por aí seria ouro sobre azul. Mas estou a trabalhar também para conseguir uma série de concertos em algus pubs de França.

A música de Cabo Verde está a ganhar projecção mundial. Mas, na maioria dos casos, são os vocalistas que merecem todo o destaque na imprensa. São poucos os instrumentistas que são figura de proa. Como pensas que pode ser a reacção do público nacional e internacional ao teu disco que é totalmente instrumental?

Em toda a parte do mundo há vários músicos - baixistas, guitarristas, etc - que lançam discos a solo. Em Cabo Verde, temos a tendência de dar mais importância à voz e à poesia da letra. Mas eu acredito também na poesia do som. Quer dizer, quando uma pessoa ouve uma música - o som de um piano, de uma guitarra -, ela própria começa a criar uma poesia a partir do tema que escuta.

O facto de teres experiência académica - frequentaste o Conservatório do Porto (Portugal) - foi uma mais valia na hora de produzir este disco?

Sim, foi extremamente importante porque é a parte académico-teórica que ajuda a organizar a parte empírica. Sem experiência e o conhecimento teório-académico é difícil saber onde colocar um registo agudo ou um registo grave. Sim, acho que é fundamental.

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