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Igreja desenterrada na Cidade Velha na revista Current World Archaeology 12 Novembro 2015

A história das escavações arqueológicas que está a desvendar o passado de Cabo Verde, que no século XVI Portugal transformou na placa giratória do comércio mundial de escravos vai ser publicada na revista Current World Archaeology, no Reino Unido.

Igreja desenterrada na Cidade Velha na revista Current World Archaeology

“Quem visita a Cidade Velha pela primeira vez pode ser perdoado por não reconhecer nesta povoação aprazivelmente ensonada o grande entreposto comercial que foi em tempos, no cruzamento das rotas do tráfico de escravos do Atlântico.”

É assim que começa o relato — que deverá ser publicado em breve na revista Current World Archaeology — das escavações arqueológicas lideradas em Cabo Verde por dois cientistas da Universidade de Cambridge (Reino Unido).

Em colaboração com colegas cabo-verdianos e portugueses, estudantes e trabalhadores locais, Marie Louise Stig Sørensen e Christopher Evans têm trabalhado, desde 2007, não só para resgatar do esquecimento a mais antiga construção religiosa europeia a ser erguida nos trópicos, como também parte do passado histórico da população cabo-verdiana.

Quando as ilhas de Cabo Verde foram descobertas pelos portugueses em 1456 — décadas antes de Cristóvão Colombo descobrir a América —, não estavam habitadas. As dez pequenas ilhas que compõem o arquipélago são feitas de rocha vulcânica e até àquela altura não havia lá nem árvores, nem pessoas, nem mamíferos. “É um sítio onde toda a gente, e também a maioria das plantas e dos animais, vieram de fora”, salientam Sørensen e Evans no seu relato.

Mas aquilo que começou por ser um local estratégico para o comércio com a África subsariana transformou-se, no século XVI, num centro global de comércio de escravos africanos — principalmente com destino à nova colónia portuguesa do Brasil.

“Estas ilhas foram um ponto de partida para a primeira vaga de globalização, integralmente baseada no tráfico de escravos”, diz Sørensen, citada num comunicado da Universidade de Cambridge.

Os portugueses transformaram as ilhas num dos principais centros do tráfico transatlântico de escravos, trazendo com eles plantas cultiváveis, animais domésticos e pessoas — comerciantes, missionários e “milhares e milhares” de escravos. Os escravos eram seleccionados e vendidos antes de serem despachados para as plantações espalhadas por todo o mundo atlântico.

Uma vez que o arquipélago de Cabo Verde se situa mais ou menos a meio caminho entre a costa de África Ocidental e o Brasil, “a descoberta do Brasil e o estabelecimento de plantações ali fez explodir o comércio que passava por Cabo Verde”, lê-se no comunicado.

A Cidade Velha, instalada num pequeno vale fluvial pautado por campos de cana-de-açúcar e palmeiras, foi a primeira cidade que Portugal fundou em África, na sua aventura dos Descobrimentos. E durante 300 anos, foi não só a capital de Cabo Verde, como também chegou a ser “a segunda cidade mais rica do império português”, diz ainda o comunicado. A Cidade Velha foi declarada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2009. O seu centro histórico é uma conhecida atracção turística.

Em 2006, Sørensen e Evans foram convidados pela Universidade Jean Piaget de Cabo Verde a realizar escavações na Cidade Velha com o apoio do Ministério da Cultura daquele país. O principal objectivo consistia em localizar a Capela da Nossa Senhora da Conceição, que se pensava ser a igreja original da Cidade Velha — e, como tal, candidata a ser uma das primeiras igrejas cristãs dos trópicos, explicam ainda os dois cientistas no seu texto ainda por publicar.

“Konstantin Richter, historiador de arquitectura [da Universidade Jean Piaget] tinha reparado numa plataforma com argamassa que batia certo com o mapa que indicava a localização da igreja”, disse Evans ao PÚBLICO numemail. “A seguir, localizámos a fachada da igreja e realizámos duas campanhas de escavações preliminares. E concluímos que sim, que tínhamos encontrado a igreja.”

Agora, os cientistas — que beneficiaram entretanto do “empurrão” dado pela UNESCO — deram por acabada a escavação e a conservação do monumento, que deverá passar a poder ser visitado pelo público. Os primeiros vestígios da Capela da Nossa Senhora da Conceição remontam à década de 1470, com uma construção de maiores dimensões datada de 1500.

Um monumento notável

“Conseguimos recuperar a totalidade da planta de superfície da igreja, incluindo a sacristia, a capela lateral e a varanda lateral e agora temos um monumento realmente notável”, diz ainda Evans, citado pelo já referido comunicado. “Obviamente construída por volta de 1500, a sua porção mais complicada é o coro situado na extremidade oriental, onde se erguia o altar-mor, e que foi sofrendo múltiplas reconstruções devido aos estragos causados pelas cheias sazonais”, salienta Evans.

Fonte: Publico

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