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Impacto das construções na Boa Vista: Dunas estão a desaparecer 30 Agosto 2016

As dunas da Boa Vista estão a desaparecer das colinas em volta da cidade de Sal-Rei e que sustentam a extensa praia do Estoril. Esse fenómeno visível a olho nu é causado pelo boom das construções turísticas e de residências privadas – dizem os naturais da ilha preocupados.

Impacto das construções na Boa Vista: Dunas estão a desaparecer

O mar que banha a turística praia do Estoril ameaça o bar-clube construído pelo malogrado windsurfista François Guy há coisa de quinze anos. Nos dias de forte ondulação, a infraestrutura é literalmente sacudida pelo embate das águas nas paredes e não raras vezes há respingos que sobem até à varanda de madeira, ornamentada com espreguiçadeiras e situada a uns três metros de altura.

O avançar do mar nestes quinze anos torna-se mais real quando se comparam as distâncias entre a orla do mar e o bar, no passado e hoje. Na altura da sua construção, o bar ficava a mais de vinte metros de distância da preia-mar e para molhar o pé ou surfar tinha de ser percorrida essa distância em alguns minutos sobre a areia branca e macia. Hoje, se o tempo está muito agitado e o mar avança praia-dentro, quem quer salta do alpendre directo para a água.

“O nível do mar tem estado a subir a um ritmo alucinante. Nos últimos dez anos, a água aproximou-se de tal forma deste bar que destruiu a parte da frente, que era feita de madeira. Tivemos que construir uma parede de betão para proteger o espaço, caso contrário corria o risco de desabar”, conta Sean Guy, filho de François Guy, considerado o predecessor do windsurf em Cabo Verde. Segundo este gerente, nos tempos de “inverno”, quando o vento sopra forte, é quase impossível alguém passar em frente ao bar sem ficar molhado, tal é a proximidade do mar. Já no “verão”, as coisas ficam mais calmas.
Como Irlando “Boi” Lima explica, o fenómeno é mais perceptível nesta faixa da praia de Estoril porque a zona deixou de ter a mesma capacidade de reposição de areia. Este boavistense confessa que se sente triste com “a situação” que é causada pela construção de casas no corredor “João Cristóvão”, por onde a areia das dunas era empurrada pelo vento em direcção ao litoral. “Estamos a assistir a uma mudança ambiental preocupante provocada pela acção humana”, comenta o windsurfista, para quem outros factores estarão a influenciar o curso natural das dunas. Um deles, a plantação de acácias cujas raízes contribuem para a retenção e desvio da rota habitual da areia.

“Por aquilo que sei, as acácias foram plantadas na zona de Bonque e Boa Esperança para abastecerem a ilha de madeira para carvão. Na verdade, elas acabaram por reter o movimento da areia, que agora já não consegue reabastecer as praias”, reforça Marcos Andrade. Segundo este amante do desporto náutico, o próprio vento está a mudar a sua intensidade nos locais que antes eram mais propícios à prática do windsurf e kitesurf, na praia do Estoril. Se antes o ponto ideal era em frente ao clube Alísios, explica Andrade, agora quem quiser pegar um “bom” vento tem de deslocar-se para a área da escola de kitesurf Kitekriol, a vários metros para Sul.

Para o jornalista Nelvino Lima, 33 anos de idade, qualquer pessoa atenta pode ver e sentir as diversas mudanças que estão a ocorrer na Boa Vista, muito por “culpa” de um turismo “mal planeado”. A seu ver, a abertura ao turismo de massa teve custos sociais como o aumento do custo de vida e do fosso social e também ambientais pois levou ao extraordinário aumento do uso de areia extraída das dunas para a construção de resorts, residenciais e casas particulares. Além disso, “a transformação é global, não se limita à área ambiental. Repare-se que os boavistenses hoje são minoria na sua própria ilha e estão a perder a sua identidade cultural. Hoje é mais fácil ouvirmos o crioulo de outras ilhas e línguas estrangeiras na rua do que a fala genuína da Boa Vista”, elucida o nosso interlocutor. Ele critica, por isso, as entidades responsáveis pelo incremento do turismo na ilha que têm colocado em primeiro plano os interesses económicos imediatos em detrimento do impacto ambiental. “Tenho a plena convicção de que não fazem os estudos de impacto ambiental. Em primeiro lugar vem o interesse dos investidores e depois “logo se vê” a agressão na natureza. Esta tem sido a atitude”, comenta.

Segundo Nelvino Lima, a própria actividade turística tem provocado danos ambientais na ilha, como por exemplo o uso das moto-4 nas praias e dunas de areia. Por aquilo que sabe, proibiu-se o uso desses veículos nos montes de areia, mas ele tem o forte sentimento de que essa prática persiste nos locais fora de controlo.

Memórias ao vento

Quem, com a memória das dunas de Sal-Rei de há dez anos, faz agora uma excursão pelas colinas nota logo as diferenças. Zonas que antes lembravam o Saara, no seu todo de deserto onde de súbito despontavam oásis embelezados pelas palmeiras exóticas, hoje perderam a sua magia. A brilhante tonalidade branca que espantava o visitante está a ser substituída por um castanho sombrio devido ao desgaste das dunas. A contribuir ainda para este “borrão” na “pintura” da ilha fantástica está a quantidade de lixo emaranhado nos troncos e ramos das árvores.

“Acho que ainda não estamos a correr o risco de perder as dunas, mas não nos podemos iludir com a quantidade de areia existente na Boa Vista e usá-la a torto e a direito, como se fosse um recurso inesgotável”, alerta Nevildo Lima, que gostaria de ver as pessoas mais sensibilizadas com o impacto ambiental do “uso desregrado desse inerte” a que “estamos a assistir”, pois “as pessoas esquecem-se de que a formação das dunas tem o seu ciclo próprio”. Para ele, tais problemas provam o quanto a ilha da Boa Vista, afinal, não está preparada para o turismo de massa.

A esperança, diz este nosso interlocutor, é que a pressão turística venha a diminuir. Aliás, ele acredita que vai acontecer um recuo na procura da ilha nos próximos tempos. A sua expectativa é que então as autoridades e a sociedade ao analisarem as consequências do turismo na Boa Vista e venham a tomar as devidas medidas no sentido da protecção do cartão postal da ilha: as dunas.

Kim-Zé Brito

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