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Insólito caso de saúde na Boa Vista: Mulher faz três testes de VIH-Sida que deram positivo, todos erraram 21 Fevereiro 2016

Adélia Rodrigues fez três testes rápidos de VIH Sida na ilha da Boa Vista em três lugares diferentes (Centro de Saúde e em duas clínicas) e os três deram positivo. Ela conta que pediu mais um exame ao centro de saúde, mas não a atenderam. Durante esses três meses, diz ter vivido “um autêntico inferno”: teve um aborto espontâneo, tentou suicidar-se, quase matava toda a família colocando veneno na comida, tentou esfaquear o companheiro e ainda ateou fogo à própria casa. Após muita insistência, conseguiu convencer a Delegada de Saúde a pedir à cidade da Praia o exame “Elisa”. Este deu negativo. Agora quer levar ao Tribunal a delegada de Saúde da Boa Vista, Miriam Delgado, a quem acusa de irresponsável e pouco profissionalismo. As duas clínicas sacodem entretanto a água do capote, afirmando que cumpriram com o protocolo.

Por: Sanny Fonseca

Insólito caso de saúde na Boa Vista: Mulher faz três testes de VIH-Sida que deram positivo, todos erraram

Adélia Rodrigues fez o primeiro teste a 20 de Outubro de 2015 no Centro de Saúde da Boa Vista, deu positivo a HIV. No mesmo dia fez um segundo teste na Clínica Esperança, que também revelou que Adélia seria portadora do vírus HIV. Três dias depois, a 23 de Outubro repetiu o teste numa outra clínica, a Cardiomed. Também deu positivo a VIH - tipo 2. A partir daí, diz que o mundo lhe desabou sobre a cabeça: tentou pôr termo à própria vida várias vezes, tentou matar-se e à própria família, colocando veneno na comida. Além disso, tentou agredir o seu companheiro à facada por ter inicialmente pensado que tinha recebido dele a doença. Ainda ateou fogo à própria casa.

Esta série de comportamentos violentos foi a sua primeira reacção ao resultado dos três testes, que lhe diziam que era seropositiva. Depois disso, rapidamente veio, conforme contou ao A Semana, uma fase de profunda depressão. Mas não obstante estar a passar por uma tempestade, Adélia diz que tinha sempre uma réstia de esperança que acabou por avolumar-se depois de os testes do companheiro terem-se revelado negativos. E manteve a insistência.

A luta

Adélia acusa agora a Delegada de Saúde de a ter abandonado. Ela conta que mesmo com várias insistências, tanto dela como da sua mãe, na procura de soluções junto do Centro de Saúde, nunca conseguia chegar à fala com a doutora Miriam Delgado. Entre finais de Outubro e Dezembro, garante que foi várias vezes ao hospital atrás da médica, que nunca se dispôs a atendê-la. No mês de Dezembro, diz, a luta foi mais intensa porque faria 32 anos no dia 24 e não queria mais nada para prenda de aniversário, além de uma resposta negativa ao VIH. Isto porque, segundo Adélia, não obstante os três testes positivos, nunca deixou de acreditar na réstia de esperança que ainda sentia. Foi já no dia 18 de Dezembro que conseguiu convencer a médica Miriam Delgado a tirar-lhe uma nova amostra de sangue e enviar para o Hospital Agostinho Neto, na cidade da Praia. O exame Elisa deu negativo.

Uma semana depois, Adélia foi chamada ao Centro de Saúde onde recebeu um pedido de desculpa da delegada Miriam Delgado e a notícia de que não era portadora do vírus. “A sensação foi de ter voltado a nascer. Além de ter ganho a vida, parecia que me tinham dado um par de asas”, disse emocionada a nossa entrevistada. “Na hora não sabia se abraçava de alegria a média ou se a agredia por quase me ter feito acabar com a minha vida, do meu companheiro e o restante da minha família incluindo a minha mãe e a minha filha de quatro anos de idade”, acrescentou.

Acusações graves

Adélia acusa a médica de não ter tido o cuidado de a preparar antes de lhe dar a informação, como também não lhe deu o acompanhamento exigido pelo protocolo. Além disso, diz-se ressentida pela forma como a médica Miriam Delgado lhe falou em frente à sua mãe. Segundo a queixosa, além do pedido de desculpa, a médica disse-lhe para aprender com o erro e que passe a usar preservativo. Entretanto questiona: “E se não tivesse insistido na procura da verdade e me tivesse suicidado, ou feito alguma das loucuras que queria fazer?”. Daí que Rodrigues garante que está a encetar esforços para levar a delegada de Saúde da Boa Vista a Tribunal, para que, segundo reforçou, “não volte a acontecer, porque isto é um pesadelo. Bastava-lhe ser profissional e ter-me tratado como gente e respeitado os meus direitos”.

Outro detalhe que tem revoltado Adélia é que, segundo contou à nossa reportagem, só recebeu a notícia em como não era seropositiva verbalmente. E mesmo com as várias insistências que diz estar a fazer junto da Delegacia de Saúde da Boa Vista, não conseguiu ter acesso ao pedaço de papel que lhe dá a garantia em como, afinal, não é portadora do vírus da Sida.

Critica ainda a falta de sigilo naquele estabelecimento de saúde. “Uma semana após ter feito os testes, já era assunto por toda a ilha”, critica a paciente, que afiança ter inclusive recebido chamadas do outra lado da Boa Vista (Zona Norte) a perguntar se era verdade.

Diz que, não obstante ter ficado à sua sorte durante aquilo que caracterizou como os piores dias da sua vida, a delegada de Saúde veio agora (finais de Janeiro) prometer-lhe acesso gratuitamente a quaisquer tratamentos ou medicamentos disponível naquela instituição de saúde. Para Adélia, isto é o assumir das culpas da médica, que a seu ver “não fez o que deveria na hora certa, como lhe impõe a profissão”.

Mais erros

Após ter recebido a notícia que lhe devolveu a vida, Adélia decidiu ir fazer mais um teste até porque até então só sabia o que a médica lhe tinha dito, que não estava doente. Voltou à Clínica Esperança no dia 28 de Janeiro e pediu um teste de VIH-Sida. Quando foi receber a resposta, ficou aliviada: o resultado deu negativo. Contudo, como viria a descobrir, o exame que lhe fizeram não foi o de VIH-Sida, mas de VDRL, Sífilis. E só foi alertada por uma conhecida, quase semana e meia depois, que afinal o teste que fez não foi aquele que pedira. Mas como a resposta foi “negativo”, esta palavra passou a ser a favorita da Adélia, após estes meses que chamou de “inferno”.

Clínica Esperança diz que erro foi da delegacia de saúde

A nossa reportagem contactou o director da Clínica Esperança, Marley Monteiro, que por sua vez sacudiu a água do capote, garantindo que a sua instituição cumpriu o protocolo. Segundo garante, não foi a clínica que comunicou à paciente o resultado do teste, pois cumprindo o protocolo ela foi encaminhada ao Centro de Saúde. No entender de Marley Monteiro, o erro é da delegacia que “nunca deveria ter comunicado à paciente que era seropositiva antes de mandar fazer o teste Elisa” - 100% fiável. Marley Monteiro defendeu entretanto que, apesar do caricato da história, é preciso ter em conta que os três primeiros testes aplicados eram testes rápidos, que só são fiáveis quando dão negativo, pois, explica, há uma sensibilidade de 100% quando se trata de resultados negativos, ou seja, nunca erra nesse cenário.

No entanto, segundo reforçou, tem a especificidade de 99,98%. Ou seja, tem 0,02% de probabilidade de falso positivo, quando por exemplo induzido por outras doenças que a pessoa possa sofrer e que acabam por confundir os testes. “Tanto é que deu positivo em três testes diferentes”, realçou. Daí reforçar que o caso da Adélia “é normal” e está cientificamente previsto porque “a cada mil testes que com resultados positivos, dois (0,02%), são falsos positivos”. Pelo que reprova a conduta nacional de anunciar a doença baseada nos testes rápidos, mesmo sabendo que é de 0,02% a possibilidade de se estar errado.

Monteiro estranhou ainda como Adélia Rodrigues sabe que o teste feito na sua clínica deu positivo, se não lhe passou directamente a informação, mas sim à delegada de Saúde.

Por seu turno, a responsável do laboratório da clínica Cardiomed da ilha da Boa Vista, Nereida Monteiro, não se pronunciou muito sobre o caso porque, como explicou, o analista que tinha feito o teste já não se encontrava a trabalhar na clínica. Avançou, entretanto, que é de esperar que o Centro de Saúde tenha pedido o teste Elisa, antes de ter anunciado à paciente que era seropositiva. Mas como decorre do relato da paciente, isso de facto não aconteceu.

Já quanto à delegada de Saúde da ilha da Boa Vista, a quem o A Semana procurou ouvir, ela sob o argumento de que estava ocupada prometeu voltar a entrar em contacto com este semanário. Mas até ao fecho da edição tal não aconteceu — não obstante os esforços da nossa redacção para contactá-la.

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