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Lisboa: Santo Antão quer aeroporto para “transformar a ilha” e mais formação educacional 23 Abril 2012

Um aeroporto para a Ilha e uma educação aprofundada, incluindo uma universidade qualificada, foram propostas consideradas importantes para o desenvolvimento da Ilha de Santo Antão , no primeiro debate em Portugal, promovido pelo ”NESA”- núcleo de estudantes de Santo Antão - e que juntou cerca de 250 pessoas ao longo de todo o sábado, de forma constante.

Lisboa: Santo Antão quer aeroporto para “transformar a ilha” e mais formação educacional

Cerca de 70 estudantes originários das universidades de Coimbra, Viseu, Castelo Branco, Setúbal, Porto, Bragança juntaram-se à maioria de Lisboa e de várias ilhas. Ausentes, as representações de Braga e Beja.

O encontro que contou , no encerramento, com a participação da embaixadora de Cabo Verde, Madalena Neves, foi muito participativo quer pela panóplia de quinze oradores, quer pelas questões colocadas, facto que provocou uma vigilância espartana aos tempos de intervenção. Ainda assim, muitos jovens não puderam intervir.
O défice educacional nos diferentes niveis, a falta de autonomia das escolas e formação de professores, a ausencia do dialogo entre as escolas e a familia, a carência de bibliotecas , a falta de zelo pela cultura, as capacidades de turismo e agricolas subaproveitadas, a falta de esclarecimento das populações sobre os seus direitos, o custo das viagens, as franjas populacionais sobretudo agricultores não abrangidos pela segurança social, ou a exigua pensão social de cinco contos (25 euros) comparativa com salários elevados de quadros, a pobreza e o desemprego, a ausencia de uma massa critica, foram questões que pulverizaram o debate.

Nelson Brito, um dos responsáveis entre os 25 membros do NESA que cuidaram da organização deste encontro, considerou o dia “histórico” , pensar a ilha na Rua Portas de Santo Antão, frente ao Café Mindelo (nas instalações da Casa do Alentejo) e o presidente da Câmara de Ribeira Grande, Orlando Delgado, o único autarca da ilha presente, manifestou satisfação pelo jovial debate e convidou os oradores a fazerm idêntico debate em Santo Antão.

Entre alguns que não tiveram oportunidade de questionar, uma historiadora e um engenheiro informático, ambos de 26 anos, a trabalhar em Lisboa, disseram ao semanonline, depois de ouvirem o debate, que em Santo Antão não teriam condições de trabalho. Se o tivessem, disseram, “íamos logo para lá”. Uma analista, há nove anos em Portugal e uma gestora de eventos, disseram que a partir de Lisboa, “estamos na Europa. Gostamos muito de Santo Antão, tem uma morabeza especial, é bonita, mas tem muita pobreza”. Uma estudante de Direito que trabalha no “Macdonald” em Lisboa, referiu amar a sua ilha, mas preferir ganhar 400 euros em Portugal do que as condições em Santo Antão”. Um empresário do ramo da carpintaria, ha´26 anos em Portugal, disse que depois de ouvir o debate , sobretudo na área da justiça, tinha receio de enviar as suas receitas para a sua ilha.

Do debate ressaltou que um aeroporto, para a ilha mais verde do país, é uma estrutura nessária ao desenvolvimento da ilha, nomeadamente para o turismo como referiu João Pedro Oliveira, empresário, do “Pedracin Village” assim como o consultor de Turismo e funcionário da TACV , que estudou em Macau, João Manuel Chantre, para quem “o aeroporto transforma a ilha “ que, na sua história, disse, até já exportou banana para Portugal e café para Paris. Também o autarca português António Rodrigues, de Torres Novas (geminação) , que insistiu na necessária formação turistica e para quem Santo Antão , pela sua especificidade morfologia e beleza paisagística, “devia ser considerada património da humanidade” defendeu essa importância.

João Pedro Oliveira que fez uma retrospectiva da sua experiencia na Ilha, desafiou ainda os estudantes em Lisboa, para que sejam “ousados” e pensem na oportunidade de se criar uma universidade de qualidade na Ilha, referindo também nesta causa, o apoio do empresário Emanuel Spencer de origem guineense e que tem desenvolvido a sua actividade na construção de infra-estruturas, criando postos de trabalho. “Temos de introduzir um novo paradigma na ilha”, disse, concordando com a certificação de produtos, nomeadamente o grogue e criticando alguns procedimentos: “Em Cabo Verde é tudo permitido. Até se vende carne em cartões, cheio de moscas!”.
Também Hilarino da Luz, professor , acentuou neste painel sobre Cultura e Turismo , a importancia da cultura da ilha, desde as diferenças linguisticas do crioulo, a todos os vestigios historico-culturais, ambientais, paisagisticos, seu registo , explicação e culto.

Uma das intervenções mais ruidosas, no painel mais forte em termos de oradores , subordinado ao tema a “justiça, Economia e Poder Local”, foi a do advogado Amadeu Oliveira. Disse não reconhecer a Ordem de Advogados, aliás não paga as quotas. Criticou os juizes que “demoram cinco anos para colocarem uma palavra no processo «Cite-se», numa alusão à morosidade. Levou o exemplo de um caso relacionado com um barco apreendido, para a pesca do caranguejo, de cem mil contos, do seu cliente (o cliente,também estava presente) que ao fim de oito anos, e cinco dias depois de ter sido afundado, recebeu uma resposta, quando já estava perdido .” Ninguem é responsabilizado “, disse, enfatizando que “mesmo as boas ideias, se não houver ambiente social, morrem!”, disse.

O antigo Procurador disse que os investidores estrangeiros “não têm segurança jurídica” e confessou sentir medo da justiça. Criticou a separação entre o juiz que julga e o que pronuncia no que considerou uma “invenção copiada das universidades portuguesas” e a tentativa de criar um Tribunal Constitucional, quando não há tribunais de primeira instância, comparação que fez com a Guiné-Bissau que criou Faculdade de Medicina sem ter hospitais. “A Riberia Grande está há dois meses sem procurador e é o do Paul que vai lá quando pode e já tem milhares de processos à sua espera”, disse.

O orador que o antecedeu, Diamantino Soares mestre em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa preconizou a criação de gabinetes juridicos para solução de pequenos casos e para que as pessoas sejam mais esclarecidas e tirem a ideia de que, “quem recorre ao tribunal é má pessoa”. Salientou ser necessário melhor formação juridica dos agentes judiciários. Estes, disse, incluem não só advogados, como solicitadores, notários e agentes de execução.

Numa trabalho mais estruturado , Arlindo Fortes, jovem engenheiro agricola, com diversos trabalhos feitos, nomeadamente em Timor-Leste, que falou desta “2º ilha agricola do país” com 75% da sua população rural. Falou do que tem sido feito e do que há por fazer . Preconizou certificiação e valor acrescentado aos produtos, melhor aproveitamento da água, adequada distribuição de rega, promoção do associativismo, plantação contra a erosão, e valorização dos frutos como a sua transformação em doces e sumos.

Igualmente elaborada foi a comunicação de Eder Oliveira , mestre em economia, no Porto, que defendeu a regionalização e a mais valia para Santo Antão.

No mesmo painel, Paulino Dias, economista, apresentado como tendo “tiques de poesia” e o autor do primeiro cibercafé da Povoação, falou de um pensamento estratégico, que deve ser feito com cuidado , mas já para o médio e longo prazo . Santo Antão, disse , deve também pensar em oportunidades de ambito regional, nacional e global. “Deve ser vendida (divulgada) como uma ilha de experiencias”, onde tudo pode acontecer de forma diferente de outras ilhas.

Notou que a dotação de uma rede rodoviária e de água, são recursos prioritários à existencia de um aeroporto, defendendo uma universidade a longo prazo, para determinadas áreas.

Também neste painel a presidente do INPS, Leonesa Fortes, referiu a importância da segurança social e das pessoas nela estarem inscritas. Disse que 4 mil pessoas tem segurança social, mas existem ainda muitas de uma franja agricola, que não estão protegidas por qualquer sistema de segurança social e estão fragilizadas no acesso à saúde.

No painel subordinado à educação, o mais fragilizado em numero de oradores, Levindo Nascimento , mestrando em tradução e que foi professor em Santo Antão, falou da sua experiencia, das carencias educacionais, dos poucos recursos, na importancia de bibliotecas e da relação aluno/escola. Emanuel Spencer, do “grupo Spencer” mostrou algumas das suas realizações e da sua capacidade em garantir formação e trabalho a novos técnicos.

Neste painel, Sónia Jardim, de origem cabo-verdiana , autora de um livro sobre a sua família, lembrou que apresentou à câmara de Porto Novo, um projecto de biblioteca , disponibilizou uma moradia da sua familia , ainda em bom estado, e com a garantia de livros idos de Portugal, mas, disse, não obtee qualquer reposta.

Entre as figuras presentes na sala entre os jovens, destaca-se o professor Guilherme Dias Chantre que nasceu em Chã de Pedras, Ribeira Grande, Santo Antão, a 25 de Junho de 1922, Mnauel Chantre antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros e o poeta João Miranda , também da ilha.

O dia terminou com um sarau onde actuou a a cantora vencedora do concurso “idolos” da televisão portuguesa e o grupo Rotcha nu, além de outros jovens artistas e grupos de dança.

Domingo o encontro dos Estudantes de Santo Antão em Portugal é preenchido com uma incursão em dois autocarros, num circuito pelos principais locais turisticos de Lisboa, Cascais e Sintra. (OL)

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