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“Malta, estado corrupto” — acusa filho da jornalista assassinada após expor envolvimento do primeiro-ministro nos ‘Panama papers’ 20 Outubro 2017

O homicídio da jornalista Daphne Caruana Galizia – morta na explosão do carro que conduzia perto de casa, menos de uma hora após publicar um artigo — levou milhares de manifestantes às ruas da capital, Valetta, e fez a Comissão Europeia despertar para o desafio de legislar sobre a lavagem de capitais e a corrupção naquele país-membro da União Europeia.

“Malta, estado corrupto” — acusa filho da jornalista assassinada após expor envolvimento do primeiro-ministro nos ‘Panama papers’

A jornalista Daphne liderava o grupo que no seu país investigava o envolvimento de personalidades da República de Malta nos ‘Panama papers’, o escândalo de fuga ao fisco e lavagem de capitais revelado em maio de 2016.

A própria mulher do primeiro-ministro Joseph Muscat estava entre os malteses que depositaram fundos no paraíso fiscal, escreveu a jornalista. O seu blog, ’Running Commentary’, regista milhares de leitores e tem sido comparado ao Wikileaks. As suas publicações mostram que ela expunha não só os membros do governo e os seus afiliados, mas também figuras da oposição. Entre estas, o candidato a primeiro-ministro Adrian Delia, com problemáticas conexões familiares e de amizades que a jornalista denunciou no seu blog.

A jornalista partilhou às 14:09 aquele que viria a ser o seu último texto — ’Ouçam o povo’, em que é visado o líder da oposição — e o alerta sobre a explosão foi recebido pela polícia pouco depois das 15:00. Um dos filhos ouviu a explosão do interior da casa e correu para o local. A família reside em Bidnija, aldeia do município de Mosta, a menos de dez quilómetros da capital, Valetta. Situada na ilha homónima, a República de Malta — independente desde 1964, após séculos de dominação estrangeira, a última das quais a da Inglaterra —, está entre os micro-estados e a sua população é de pouco mais de 400 mil habitantes.

Filhos recusam ajuda do governo

Os filhos Matthew (na foto), Andrew e Paul denunciaram esta terça-feira, 17, “a pressão implacável da presidente e do primeiro-ministro de Malta sobre o que resta da nossa família”, no sentido de aceitarem “apoiar uma recompensa de um milhão de euros por provas que levem à condenação dos assassinos da nossa mãe”.

A mensagem postada no Facebook acrescenta o posicionamento da família, que quer prosseguir a mesma linha de conduta da falecida: “Não estamos interessados na justiça sem mudanças. Não estamos interessados numa condenação penal que só iria servir às pessoas do governo, que iriam afirmar que a justiça foi feita. A Justiça, para além da responsabilidade penal, só será realizada quando tudo aquilo pelo que a nossa mãe lutou —responsabilidade política, integridade na vida pública e uma sociedade aberta e livre — substituir a situação desesperada em que estamos".

“O governo só se interessa por uma coisa: a sua reputação e a necessidade de esconder o buraco onde atolaram as nossas instituições. O nosso interesse é bem outro, é o da nossa mãe”.

As acusações são diretas: “As pessoas que, desde que nos lembramos, procuraram silenciar a nossa mãe, não podem agora ser elas a fazer justiça. A Polícia pode ou não descobrir quem ordenou o assassinato de nossa mãe, mas enquanto os que levaram o país a este ponto permanecerem no lugar, nada disso vai importar — o nome da pessoa que fez isso continuará a ser uma nota de rodapé na história de como o nosso Estado foi desmantelado, desfeito pedaço por pedaço e devorado por criminosos e por corruptos”.

A missiva prossegue aconselhando o primeiro-ministro a demitir-se. “E antes de se demitir, ele pode fazer o seu último acto no governo, a substituição do comissário da polícia e do Procurador-Geral com funcionários públicos que não terão medo de agir contra ele e aqueles que ele protege”.

Conclui: “Então não vamos precisar de uma recompensa de milhões de euros e a nossa mãe não teria morrido em vão”.

De acordo com a imprensa do país, Caruana Galizia havia participado à polícia que estava a receber ameaças de morte nas duas últimas semanas. Além disso nota-se que neste país ’sem criminalidade’, pois se "estatisticamente, Malta é um dos países mais seguros da Europa", a verdade é que "tivemos desde o ano passado cinco ou seis bombas que rebentaram em carros e nenhum desses casos foi resolvido”.

Fontes: Deutsche Welle, Facebook e blog referidos.

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