OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Máxima Furtado Cardoso de Calheta São Miguel e a sua fascinante história de vida 03 Abril 2018

Máxima Furtado Cardoso é segunda pessoa mais conhecida na Calheta São Miguel logo a seguir ao Gil di Jóia. Nascida em Angola-Benguela a 05 de Maio de 1955 numa 5ª feira no dia de Santo Ângelo de Jerusalém do sec. XII martirizado exactamente nesse dia. Homem dócil e corajoso. Insólito: (05.05.1955 -5ª feira) todos os números que se referem a Máxima incrivelmente convergem em 5. Enfim, a vida tem destes mistérios. Logo se vê que Máxima por si só já é uma verdadeira fonte de inspiração.

Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva

Máxima Furtado Cardoso de Calheta São Miguel e a sua fascinante história de vida

Maxima é um nome de origem grega que significa literalmente Maior.Extremamente criativa e confiante. Quem se chama Máxima é inteligente o bastante para raciocinar com rapidez as tarefas do dia-a-dia.

Se na verdade Cabo Verde é pobre em recursos naturais o mesmo já não se pode dizer em vários outros recursos: o nosso folclore, as nossas paisagens, a nossa criatividade, a nossa tradição, a nossa cozinha, o nosso “modus vivendi” e a nossa morabeza. Enfim, “noz pobreza ke noz rikeza” lá diz a música.

A história que se segue é efectivamente de uma mulher simples, batalhadora, confiante e triunfadora que “kria si fidjus” à semelhança de outras tantas “di sol a sol”. De suor na cara ou, se preferir, “di soris na rostu” y bariga pertadu”.

Mas, quem é então Máxima Furtado Cardoso
Ora, Máxima Furtado Cardoso trata-se nem mais nem menos de que um nome que em Calheta e um pouco por toda a ilha de Santiago dispensa certamente muita apresentação: Uma mulher escrita com letra M, fazendo jus ao nome. Uma mulher do povo. Alegre, calma, inteligente, brincalhona, bem-disposta, descomplexada, afável, curiosa, capaz de prender até as próprias bruxas. Como o segredo é alma do negócio não vamos abrir o jogo mas, se os bruxos existem realmente cá entre nós que se cuidem.

Máxima e as suas preferências:

Dias de semana: Sábado
Mês: Maio
Religião: Católica
Santos de devoção: São Miguel Arcanjo e Santa Verónica
Vamos saber mais abaixo o porquê destes dois nomes santos da devoção da nossa “diva”.

Determinada e multifacetada. Os seus empíricos conhecimentos da vida fazem dela uma mulher muito procurada, respeitada, acarinhada e escutada pela população calhetense. Parteira reconhecida, batucadeira com um grupo organizado denominado “Filho di São Miguel”. Consulte you tube. Compositora das suas próprias músicas rigorosamente anotadas num caderno. Assegura pois, numa entrevista a um jornalista que iniciou essa brincadeira na idade dos seus 15 a 16 anos aprendendo com a mãe que era uma entusiasta dessa tradição. Voltaremos a este assunto um pouco mais abaixo.

Vendedeira ambulante onde vem ajeitando a sua vidinha e ocupa ainda de uma outra tarefa muito melindrosa: castração de animais domésticos designadamente: porcos, cães e gatos. Coitado dos bichinhos não devem lá ter grandes afectos pela Máxima. Mas, como diz o outro: c’est la vie! A propósito do gato registámos um episódio assaz interessante que já vamos contar mais a frente.

Ora com tantas funções exercidas não hesitamos em atribuir a Máxima, da nossa parte como é evidente, a nota máxima.

Máxima Furtado Cardoso é segunda pessoa mais conhecida na Calheta São Miguel logo a seguir ao Gil di Jóia. Nascida em Angola-Benguela a 05 de Maio de 1955 numa 5ª feira no dia de Santo Ângelo de Jerusalém do sec. XII martirizado exactamente nesse dia. Homem dócil e corajoso. Insólito: (05.05.1955 -5ª feira) todos os números que se referem a Máxima incrivelmente convergem em 5. Enfim, a vida tem destes mistérios. Logo se vê que Máxima por si só já é uma verdadeira fonte de inspiração.

Máxima Cardoso é também 2ª filha de António Silva Cardoso e Maria Luísa Furtado num grupo de 8 irmãos: 4 rapazes e 4 raparigas, destes, apenas um é falecido.
Em 1959 os pais regressaram a Cabo Verde e se fixaram em Calheta São Miguel e Máxima na casa dos seus 4 anos em companhia da sua irmã mais velha e outros que foram aparecendo foi crescendo num ambiente harmonioso até à idade escolar e foi matriculada na Escola Grande como se dizia na altura estudando a 1ª classe com o professor Velhinho Rodrigues que era um professor, diz ela, muito aplicado e exigente. Realça que com o mesmo professor concluiu a instrução primária (4ª classe) e com desejo de prosseguir os estudos conseguiu fazer o exame de admissão, termo que então era utilizado para entrada nos liceus. Mas, adianta que as condições económicas e outras situações travaram as suas aspirações tendo pois ficado com a sua instrução primária que lhe garantira mais tarde o seu ganha-pão nos serviços públicos onde hoje é reformada.

Máxima e o seu 1º filho

Máxima, adulta e senhora de si aos 19 anos deu à luz o seu 1º rebento o qual deu-lhe o nome de Cabral, isto, pela admiração e respeito que nutre pela figura do combatente e líder imortal de que todos nós sentimo-nos orgulhosamente pertencer.

O nascimento das duas raparigas

Mais tarde veio dar à luz mais duas raparigas: A primeira escolheu o nome de Verónica recordando aquela mulher corajosa que segundo a tradição cristã enxugou o rosto ensanguentado de Cristo à caminho do Calvário desafiando a soldadesca romana. Máxima se inspirou assim na coragem dessa santa a vontade de ultrapassar as adversidades da vida. São Miguel Arcanjo, claro está: o seu padroeiro. O anjo lutador que derrotou o exército do Lúcifer. Diz que ao longo da sua vida já enfrentou realmente cenas extremamente delicadas.

Ora, a segunda filha atribuiu-lhe o nome de Virgínia homenageando a mãe do seu pai que tinha esse nome mas alcunharam-na de “Feia” curiosamente porque era bonita. Enfatiza:”pur isu nha pai era konxedu pa “Ntoni feia” dipoz ez ben pol nomi di “Ntoni katxepa” “katxepa”pamodi dia di cinza e kumi katxepa di koku ku mel e pasa mal pa fronta, bariga duel di kastigu” . Suma kriolu ta fla: e odja “céu” pa kololu anton ez pol kel nomi li ke mori kol”. Mas, pejorativo à parte o homem era também comummente conhecido por “Notei Guida“. Guida era nome da sua mulher. Máxima considera hoje uma mulher feliz e realizada com os seus três filhos já criados e educados de acordo com as suas possibilidades e todos se encontram fora à procura de uma vida melhor.

O desaparecimento dos pais

Como na vida nem tudo são rosas, Máxima apesar de ser uma mulher bem-humorada passou também por algumas tristezas. O falecimento repentino de um dos seus irmãos em plena juventude em 1993. Um ano depois, em 07 de Maio de 1994 sucedeu o assassinato do pai, em condições extremamente horrorosas cujo corpo só foi misteriosamente descoberto alguns dias depois num poço sem água. O assassino ou assassinos foram todos apanhados e responsabilizados pelos seus actos. Um caso que a deixou abalada até à data quando viu o estado do corpo que os criminosos deixaram o pai. Uma tragédia que chocou na altura toda população de Calheta e não só.

Em 15 de Junho de 2010 faleceu a mãe vítima de doença prolongada com quem partilhava todos os seus sentimentos. Enfim, coisas da vida.

Máxima a pequena “enfermeira do povo”

A velha máxima: “filho de peixe sabe nadar”. Máxima Cardoso garante que cura todas as feridas e certas enfermidades com remédios tradicionais. O pai foi enfermeiro e Máxima seguiu um pouco as suas pisadas. Em sua casa existem três livros de medicinas tradicionais servindo-lhe como guia para os seus trabalhos. Assevera pois, que não existem feridas incuráveis quando são tratadas a tempo. Remata: qualquer ferida nos adultos para ser sarada tem que haver necessariamente abstinência sexual durante o tratamento. Entretanto, Máxima não se resigna apenas com a vida de “curandeira”. Curandeira no bom sentido da palavra. Dedica-se ela também às outras actividades como castração de animais domésticos como já referimos. Mas, a propósito do gato, Máxima conta assim: “Un mudjer la di Benexa trazen un gatu pan ben kapal, ora, mudjer kantu txiga nha kaza na tra gatu di saku e skapal e perdi muz muz. Bon, mudjer fika tristi e ba si kaminhu. Otu dia e ben flan ma gatu txiga kaza na kelotu dia di palmanhan”.

Imagine, a curta distância de Calheta à Veneza o gatinho levou cerca de 24 horas para chegar à casa, provavelmente procurou algum refúgio no caminho para escapar dos seus predadores que são como se sabe os cães. Mas, mesmo assim, afiança a Máxima o bichinho não vai escapar à sua lâmina. Destino ingrato!

Máxima e a sua interessante experiência de parteira

As nossas parteiras são normalmente mulheres do campo por vezes sem nenhuma formação nessa área. Uma actividade complexa, melindrosa, emocionante e cheia de incertezas, conhecendo estas as suas limitações. Entretanto, esta actividade hoje é pouco falada na nossa sociedade tendo em conta o progresso da medicina e a proximidade cada vez mais dos centros de saúde. Bom sinal. Já lá vão os tempos em que a maior parte de bebés morriam logo à nascença.

A nossa Máxima abraçou essa actividade com a força máxima e sente-se cada vez mais motivada por esta nobre causa. Afiança pois, que ganhou muita experiência neste campo e que já assistiu ao parto com mais de 200 mulheres e nunca criança alguma morreu no seu trabalho de parteira e adianta que já foi até madrinha de algumas delas. Hoje, salienta ela, essa actividade está perdendo o terreno dado que a maior parte das mulheres logo aos primeiros sinais do parto recorrem aos postos de saúde mais próximos onde são assistidas por gentes mais especializadas.

Batuku de Santiago

Ora, o batuku” parece estar germinado na alma das nossas mulheres do interior de Santiago como o futebol está na alma dos brasileiros. Este género musical que segundo se julga apareceu em Cabo Verde a partir do século XIX vem ganhando hoje cada vez mais visibilidade saindo do campo à cidade tornando-se incrivelmente tão apetecível à classe feminina quanto à classe masculina: “Odja omi oxi ta da ku tornu ta da txabeta” já não é assim tão estranho quanto parece. Ver rapaziada de hoje com certos adornos que eram antigamente exclusivo às mulheres também já não espanta ninguém. Décadas atrás se um homem ousasse usar brincos era tido como um louco. Hoje os homens “batucam, txabetam e balançam a coxa” com toda normalidade caso por exemplo de 8 rapazes de Pedra Badejo-Santa Cruz ”sumara bu odja” um grupo muito bem organizado que vem despertando atenção de todos não só no seio da população santa-cruzense donde são originários mas de outras localidades do interior de Santiago. Entretanto algumas batucadeiras conhecidas da nossa praça sustentam que a rapaziada devia introduzir no grupo a presença de pelo menos duas mulheres para “balançar a coxa.” É muito mais elegante ver mulheres nesse ritmo de dança de que ver homens a simular algo que não é-lhe característico defende alguns críticos. Feitas assim estas breves considerações sobre o batuku de Santiago vamos então conhecer as aventuras de Máxima nessa arte tradicional.

Máxima e o seu grupo de batuku

Máxima entrou no mundo do batuku como já ficou referenciado na idade dos seus 15 a 16 anos sob a inspiração da mãe e de duas figuras lendárias do batuku dos anos 60/70 hoje desaparecidas que deixaram marcas cujo vazio ainda se faz sentir em Calheta São Miguel: Joana Fortes e sua irmã Bia Ribeiro ambas de Veneza.

Máxima e a sua vida de vendedeira ambulante

Máxima não se acomoda apenas com a sua pensãozita diariamente sai todas as tardes de casa para à venda remediando assim a vida sem descurar dos seus deveres religiosos. É uma mulher de profundas convicções religiosas. Do “terreiro do batuku” à igreja, caso para afirmar seguramente que Máxima Cardoso cuida de tudo. Bem-haja! Com isto termino esta crónica prometendo voltar se Deus assim o entender com mais história de “gentes da terra” as mais desconhecidas em particular.
Hasta lá próxima.

Tarrafal, a 01 de Abril de 2018

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau