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Mercado da Praia: Realidade ou "elefante branco"? 27 Agosto 2014

Iniciadas em 2011 e com custos que já somam 450 mil contos (cerca de quatro milhões de euros), as obras do novo Mercado Municipal da Praia permanecem paralisadas sem que se saiba as causas deste pára-arranca que já dura há anos.

Mercado da Praia: Realidade ou

Procurados em várias ocasiões para falar sobre o assunto, os vereadores das Infra-estruturas da Câmara Municipal da Praia, Alberto Mello, e das Finanças e Comércio, Óscar Santos, não foram encontrados pela reportagem para comentar o assunto.

No local, há somente o esqueleto de aço da edificação em concreto ainda cru. As obras do primeiro piso do prédio pouco avançaram, nem as paredes foram levantadas.

Previstas para serem concluídas em Agosto de 2012, a entrega do novo Mercado já foi marcada por diversos imbróglios desde a sua inauguração. Em Outubro de 2012, as escavações do terreno húmido, na zona baixa da Várzea, tiveram de ser paralisadas por falta de “estudos mais aprofundados que garantissem a segurança” da construção.

Com este revés, o andamento das obras no antigo Estádio do Coco foi adiado para o Verão seguinte, Agosto de 2013. A isso somou-se o atraso para a entrega das estruturas metálicas, retidas nas alfândegas do país, por falta de verbas.

Na altura, o líder da bancada municipal do PAICV, Jorge Garcia, chegou a declarar a sua preocupação com o “nem fumo nem mandod” do mercado, tendo em vista, inclusive, o início da amortização do empréstimo obrigacionista da CMP na Bolsa de Valores de Cabo Verde. As críticas também vieram da sociedade praiense, sobretudo, por parte das vendedoras.

O plano de trabalho para a montagem das estruturas metálicas, em Agosto de 2013, ficou igualmente empacado, por causa da espera de uma equipa brasileira para executar o serviço. Na época, o vereador das Infra-estruturas da Câmara Municipal da Praia, Alberto Mello, absteve-se de fixar um novo prazo para a retomada dos trabalhos.

Miló, vendedora de legumes há 39 anos, especula as razões para o atraso da entrega do novo mercado da Praia: "deve ser falta de dinheiro”. Outra comerciante de orgânicos no Plateau é mais taxativa: "o mercado novo não vai sair do papel”.

Sem mercado de peixe

Sem o mercado novo da Praia, a capital de Cabo Verde permanece sem um espaço formal para a comercialização de peixe, um constrangimento para o país e para a população da Praia que vê toda a produção piscatória parar nas pequenas banheiras de vendedoras ambulantes.

Margarida Fernandes ou dona Guida, há pelo menos 40 anos que comercializa frutos das águas de Cabo Verde, como o atum de grelha-de-ré, sabe bem o peso da sua labuta diária para se manter no comércio local do Plateau, sem meios de refrigerar o peixe e condições adequadas para negociar com a clientela. "Aqui é muito apertado. Não tem condições de vender peixe aqui. A gente precisa de um lugar mais limpo e seguro”, comenta Guida, do alto dos seus 78 anos, que vai todos os dias ao cais comprar sacos de gelo para armazenar a carne no frigorífico estragado.

O que a obriga também a limpar, encher e esvaziar o contentor com a água já suja do degelo. E revela sua desesperança em mudar para o novo mercado da Praia, já considerado a obra "mais emblemática" da cidade: “ca ta dado. Tcheu atrasado”.

Aos sábados e domingos, a sensação de aperto no mercado do Plateau chega ao seu ápice quando aumenta exponencialmente o número de pessoas que transitam pelo local. Sem espaço suficiente, fazer as compras da semana nos moldes convencionais, com lista na mão, torna-se uma tarefa cansativa.

Para a reformada Elizabete Furtado, frequentadora assídua do mercado do Plateau, “já é tempo da entrega do novo mercado”, declarou ao asemanaonline enquanto comprava chouriço. Para Elizabete, o espaço exíguo facilita também a acção de ladrões, que aproveitam o tumulto do comércio local para assaltar os compradores que circulam pelas ruelas de frutas, legumes e temperos.

Para a peixeira Dulce, de 48 anos, o improviso de trabalho no local deixa "a cabeça cansada. Precisamos de um mercado mais folgado. O turista chega aqui e nem conseguimos conversar”, reclama.

Arquitectura do novo mercado

O novo projecto do mercado municipal tem dois pisos. No rés-do-chão está previsto o funcionamento de uma zona de estacionamento, com 68 vagas, 326 postos de venda ou quiosques e um jardim infantil. O primeiro piso, onde nem as paredes foram soerguidas, contará por seu turno com 63 vagas para estacionamento, 393 espaços de venda, uma câmara de frio, um espaço para exposições, além de espaços reservados à Guarda Municipal e à Administração do Mercado. A capacidade de albergar do novo Mercado Municipal salta para 960 vendedoras.

Em Novembro de 2013, o vereador da Finanças e Comércio da Praia, Óscar Santos, chegou a afirmar que, apesar da derrapagem do valor da obra, que chegou a 20% (o tecto é 25%) e do “atraso na conclusão da obra”, a parte fundamental para a transferência das vendedoras do mercado de Sucupira para o novo mercado municipal estaria completamente concluída em 2014.

Actualmente, somente um vigia faz a segurança do canteiro de obras do novo mercado da Praia, na Avenida da Cidade de Lisboa, e que há muito já deveria ser um centro de intenso trânsito para compras e convívio.

O destino do mercado do Plateau

Em 2010, o presidente da Câmara Municipal da Praia Ulisses Correia e Silva chegou a rebater os rumores sobre o encerramento do mercado do Plateau, com a chegada do novo mercado da Praia.

Na altura, Ulisses Correia e Silva explicou que o plano é vocacionar o Plateau para comercializar somente produtos frescos e da terra, como doces caseiros, verduras, além de artesanato. “A ideia é criar um espaço que funcione como factor de atracção turística com condições de circulação, de higiene, de segurança e ambientais”, declarou na época.

Entretanto, a questão que se impõe é saber se o novo mercado da Praia será realidade ou um "elefante branco" da capital do país.

Bárbara Camargo

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