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Munícipes de Corvo e Formiguinhas: “Queremos resolver os nossos problemas sem esperar pelo Governo” 15 Maio 2016

Os munícipes de Ribeira Grande, Santo Antão, residentes nas localidades encravadas de Corvo e Formiguinhas decidiram que serão os próprios a resolver os principais problemas que as duas comunidades enfrentam. Por isso, estão determinadas a não “estender a mão” pedindo ao Governo. É que, de tanto esperar, já não confiam que sejam os poderes públicos a encontrar solução para as dificuldades que atravessam há anos. É com esse pressuposto que alguns elementos de um grupo de mobilização local foi criado para lançar mãos à obra e impulsionar o desenvolvimento dessas localidades. A primeira acção do grupo foi a limpeza de uma cisterna.

Munícipes de Corvo e Formiguinhas:  “Queremos resolver os nossos problemas sem esperar pelo Governo”

André Lima, porta-voz do grupo, explica que já estão inventariados os principais problemas que há muito tempo afectam o desenvolvimento das duas zonas. Entre eles destaca a avaria no sistema de bombagem de água para rega, a falta de um teleférico para o transporte de cargas e a avaria nas antenas de televisão e rádio públicas que há quatro anos deixaram de emitir qualquer sinal nas zonas circundantes. Tendo-os identificado, agora vão procurar resolver esses que são os principais obstáculos ao seu desenvolvimento, afirmam.

Determinação: essa é a atitude estampada no rosto das gentes humildes e trabalhadoras das zonas de Corvo e Formiguinhas foi testemunhada por este semanário no passado fim-de-semana, quando quase três dezenas de pessoas iniciaram voluntariamente os trabalhos para recuperar o sistema de bombagem de água, paralisado há mais de dois anos, devido a algumas avarias. “Foram vinte e sete pessoas, na sua maioria jovens, que lançaram ‘mãos à obra’ de forma voluntária para iniciar os trabalhos de recuperação do sistema, na zona de boca de Corvo. Depois de mais de oito horas, num método de trabalho denominado por mangueira´’, fizeram a limpeza do depósito de água principal do sistema, com capacidade para oitenta toneladas e retiraram toda a enxurrada proveniente das cheias do ano passado”, clarifica André Lima.

O sistema de bombagem é composto por três depósitos. Dois que servem a comunidade de Corvo, incluindo o de captação, e um na zona de Formiguinhas. Dois deles vão receber trabalhos de recuperação e respectivas coberturas por estarem há muito tempo sem água e serem bases de sistemas de rega gota-a-gota, que em tempos idos os agricultores usavam para praticar agricultura de regadio.

“O sistema de bombagem de água está inactivo há mais de dois anos e as causas não foram somente as avarias. Má gestão na venda da água e resistência de alguns agricultores em pagar o respectivo consumo originaram uma divida de 40 contos junto da Electra, que resultou num corte de energia. A dívida no entanto já foi liquidada, restando apenas pagar os juros, no montante de 12 mil escudos”, revela a citada fonte.

Teotónio Fortes, agricultor de 59 anos, mostra-se confiante num futuro promissor para as localidades de Corvo e Formiguinhas, confiando na terra e mar férteis. Mas deixa claro que esse desejo só se concretizará se os principais entraves que afectam o desenvolvimento dessas duas zonas forem removidos. Acrescenta ainda que elas fazem parte do litoral e da zona norte da ilha de Santo Antão, que são as mais procuradas por turistas internacionais e nacionais durante todo o ano, com maior incidência na temporada que vai de Novembro a Março, sobretudo no percurso de Cruzinha para Ponta do Sol e vice-versa. Nessas zonas, alega, para além de os visitantes desfrutarem do ar puro vindo das “lindas montanhas” degustam a gastronomia natural, sem influência de produtos químicos.

Por outro lado, o agricultor Martinho João dos Santos, 82 anos, da zona de Formiguinhas, afirma que os residentes e naturais dessas zonas querem aproveitar da melhor maneira possível a água proveniente da Ribeira de Corvo, pois, com o amor que têm à terra, podem desenvolver a agricultura, pecuária e pesca para satisfazer a procura dos turistas. Com isso esperam criar riqueza, combater a pobreza e o despovoamento que já é uma realidade por aquelas bandas.

A população de Corvo e Formiguinhas, formada tanto por jovens como por pessoas da terceira idade, afirma que está cansada de promessas não cumpridas por certos políticos e responsáveis de instituições regionais. Por esses e outros motivos, estão determinados para, no “djunta mon que lhes é característico”, contribuir de forma directa para resolver paulatinamente os seus principais problemas, sem esperar pelo Governo.

Se linha a linha a história local vai sendo escrita, ao longo do tempo, por nacionais mas também por turistas que visitam as duas localidades, é de concluir que a mobilização das populações de Corvo e Formiguinhas – que querem resolver aos poucos os seus problemas, sem esperarem pelo Estado – é digna de ser gravada em folhas de ouro.

MN

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