OPINIÃO

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O desafio económico da ortografia 25 Julho 2017

É verdade que as mudanças ortográficas têm suscitado muita reação epidérmica, e tal é compreensível se pensarmos no extraordinário esforço que para muitos de nós foi a aquisição das regras da escrita e em especial das regras ortográficas. Saiu-nos do pelo/da pele, dirão os mais velhos, cobaias das velhas pedagogias.

Por: Luiz Cunha

O desafio económico da ortografia

As reformas ortográficas são as responsáveis pelo estado caótico da ortografia. Esta é uma ideia defendida em épocas diferentes e em diferentes línguas.

É verdade que as mudanças ortográficas têm suscitado muita reação epidérmica, e tal é compreensível se pensarmos no extraordinário esforço que para muitos de nós foi a aquisição das regras da escrita e em especial das regras ortográficas. Saiu-nos do pelo/da pele, dirão os mais velhos, cobaias das velhas pedagogias.

O maior poeta do século XX, Fernando Pessoa, nunca se adaptou à escrita de 1911 e suas sucessivas revisões. Todavia, há mais de 30 anos que é tema obrigatório do exame que permite entrar para a universidade. Claro que o tiveram de atualizar! Mas se alguém ousasse tal tipo de atualização neste ’paralelo 14’, a Laureta assentaria o pelo/a pele.

Mesmo tendo começado por escrever "mãe", depois "mãi" e de novo "mãe", Saramago encontrou o caminho facilitado. Tanto assim foi que acelerou na estrada... só para chegar a novas pontuações, só suas – o que para mim é, na prosa, falta de bom senso.

Nada substitui os 99% de transpiração

Gosto muito de citar o célebre ditado de Mérimée, que em 1857, ao testar, a pedido da imperatriz Eugénia, os conhecimentos de cinco notáveis levou-os a dar em 180 palavras respetivamente 75, 62, 14, 19 e 3 erros. Por esta ordem: o imperador Napoleão III, a sua imperatriz, Eugénia, os escritores Alexandre Dumas Filho e Octave Feuillet, o embaixador da Áustria, Metternicht. Note-se que o austríaco tinha como língua materna o alemão, de escrita mais fonético-fonológica, tal como, segundo reza a CRCV, as nossas duas “línguas nacionais”, (a materna em curso de ser escrita em alfabeto cabo-verdiano, que alguns chamam, se bem que démodé, ‘alupec’).

Empresas em França têm por tradição instituir programas formativos que visam incentivar os seus funcionários a escrever bem. E no entanto, raro é encontrar com a virtude intacta (de erros) as atas ou memos, já para não dizer os relatórios. Como se pode ler nos online nem a mais simples nota consegue chegar ao destinatário virgem (de erro).

A culpa é das regras da língua em questão? E se a resposta for que na aprendizagem nada substitui os 99% de transpiração?

Legenda: A (des) ortografia revela o estado da língua, tal como a (im)propriedade vocabular.

(A continuar)

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