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O drama dos estudantes cabo-verdianos na Venezuela: “Fomos abandonados pelo Governo e passamos fome” 20 Setembro 2016

Estudantes cabo-verdianos na Venezuela acusam o Governo de Cabo Verde e a Direcção Geral do Ensino Superior de os ter abandonado, sem qualquer auxílio naquele país da América do Sul. Contam que há seis anos, através de um protocolo entre os Governos de Cabo Verde e da Venezuela, concorreram a bolsas de estudo e foram seleccionados para estudar no país agora governado por Nicolas Maduro. Quatro eram estudantes de turismo e cinco de medicina. Com o despoletar da crise política e económica, dois deles regressaram ao país. Os que ficaram foram totalmente esquecidos, afirmam. A situação piora a cada dia, pois com a subida acelerada dos preços, inclusive dos bens alimentares, as refeições são cada vez mais escassas. “Nunca tomo o pequeno-almoço. Praticamente, como uma vez por dia”, relata na primeira pessoa Paulo Renato Gomes Tavares, o drama dos estudantes cabo-verdianos na Venezuela. A Direcção Geral do Ensino Superior nega ter abandonado estes estudantes. A DGES alega que as instituições responsáveis estão a acompanhar o caso de forma a evitar que haja duplicação de auxílios, já que os recursos são escassos. O director da instituição, José Mário Correia, garante que a Fundação Cabo-verdiana de Acção Social Escolar (FICASE), que é provedora dos fundos, já propôs um trabalho conjunto FICASE, embaixada de Cabo Verde no Brasil e DGES. O dossiê já está sobre a mesa e, brevemente, deverá ser entregue à Ministra da Educação para decisão.

O drama dos estudantes cabo-verdianos na Venezuela: “Fomos abandonados pelo Governo e passamos fome”

Paulo Gomes Tavares, natural do Porto Novo, frequenta os cursos de Licenciatura em Turismo e em Engenharia Agro-alimentar. Conta que ele e outros oito jovens concorreram a uma bolsa de estudos na Venezuela, fruto de um protocolo entre o governo de Cabo Verde e da Venezuela. Foram seleccionados depois de várias entrevistas feitas pelo governo venezuelano e, após a selecção, um embaixador daquele país esteve em Cabo Verde para tratar dos vistos. Resolveram todos os trâmites legais na então Divisão de Formação e Qualificação de Quadros (DFQQ), na Praia, e seguiram para a Venezuela.

Entretanto, a crise política e económica que estalou naquele país, provocando uma grave e longa escassez de alimentos e a inflação dos preços dos produtos. Alguns dos nove estudantes cabo-verdianos decidiram regressar ao país natal, mas ele e um amigo, natural da ilha do Fogo, resolveram ficar até terminarem o curso.

Da parte de Cabo Verde foi-lhes garantido a continuidade da bolsa, mas não passou de uma promessa. “Dois estudantes contactaram Cesaltina Ribeiro na Direcção Geral de Ensino Superior porque queriam regressar. Eu e o colega Marcelino Dias Goncalves decidimos ficar porque já tínhamos começado o segundo ano lectivo e frequentávamos dois cursos. Mas antes perguntamos à senhora Cesaltina se continuaríamos a beneficiar da bolsa de estudos e ela garantiu que sim. Pediu-nos apenas para enviarmos à DGES os documentos que comprovam que frequentamos dois cursos. Enviamos todos os documentos solicitados, mas depois que os outros estudantes regressaram a Cabo Verde, ela não respondeu mais aos nossos os e-mails, tão pouco outro funcionário da DGES”, conta Paulo Gomes Tavares.

Depois disto, quando piorou a situação na Venezuela, insistiram no pedido de ajuda às autoridades cabo-verdiana, primeiro ao Ministério da Educação, a seguir de novo à DGES. Até tentaram denunciar o caso nos órgãos da comunicação social públicos e recorreram até a titulares de cargos políticos e representantes nacionais, mas o caso não mereceu a sua atenção. “Alguns deputados levaram o nosso caso para a Assembleia Nacional, segundo eles próprios nos disseram, e a resposta que obtiveram é que nós viemos para a Venezuela por conta própria e que nunca o governo de Cabo Verde teve nada a ver com a nossa viagem, o que não é verdade.”

O jovem cabo-verdiano revela que, se por um lado os estudantes da medicina estão animados por estar iminente o seu regresso a Cabo Verde, por outro os alunos de turismo estão desesperados porque ainda lhes faltam um ano para concluir o curso. Isto por causa dos problemas políticos que afectam todas as instituições daquele país, entre elas as universidades públicas que fecharam as portas, dificultando o progresso dos estudos.
“A nossa situação neste momento é péssima. Estamos a viver pior do que mendigos. Se nos tivessem dito que iriam cortar a nossa bolsa, não teríamos ficado aqui. Pedimos ajuda à Fundayacucho, a instituição responsável pelos estudantes estrangeiros na Venezuela e que assina convénios com países africanos, americanos, entre outros. Deram-nos um pequeno auxílio, mas este nem chega para pagarmos o aluguel da casa. Falei com eles sobre a nossa situação e responderam-me que estavam a fazer o que podem e que o nosso governo deveria ajudar-nos. Todos os estudantes internacionais que estão na Venezuel recebem uma bolsa do país deles porque sabem que a economia deste país não está favorável, menos nós”, declara.

Comer uma vez por dia

Alimentar-se não é hoje uma tarefa fácil para os estudantes cabo-verdianos. Faltam nos supermercados venezuelanos produtos alimentares básicos. Quando os encontram não conseguem comprá-los porque são comercializados a altos preços. Por isso, optam por fazer apenas uma refeição por dia. Há dias, conta-nos a mãe de Paulo Gomes Tavares, a senhora Adelaide Gomes, o filho e seu colega Marcelino Dias Goncalves, receberam uma galinha para se alimentarem durante uma semana.

“A nossa escola tem uma cantina universitária mas é complicado comer ali porque são mais de 700 estudantes numa fila para comer. O tempo de espera chega a ser de até três horas e o nosso horário não nos permite ficar na fila. Ora, para viver aqui na Venezuela é preciso ter uma bolsa de estudo entre 30 e 35 contos, porque os produtos estão a aumentar de preço de forma exorbitante. No início de Setembro houve outro aumento de 50% de todos os produtos no mercado. No meu caso, nunca tomo pequeno-almoço, praticamente como uma vez por dia”.

Indocumentados

Para piorar a sua situação, diz Paulo Gomes Tavares, estão sem documentos, porque decidiram enviar os passaportes para a embaixada de Cabo Verde que fica mais próxima, neste caso em Brasília, mas não lhes devolveram os documentos e nem receberam qualquer comunicação da secção consular a confirmar a recepção dos mesmos. “O assunto da embaixada também é outra coisa que eu não consigo entender. Pediram-nos para enviar os nossos documentos, nós enviamo-los há muito tempo pelo correio. Mas agora eles não nos respondem nem para nos dizer se os documentos chegaram ou não à embaixada em Brasília. Ninguém comunica connosco”, desabafa o estudante, já desanimado.

Questionado sobre como consegue frequentar dois cursos no meio de tantas dificuldades, Paulo Gomes Tavares afirma que o facto de serem oriundos de famílias com fracas condições financeiras sempre os obrigou a fazer sacrifícios e a agarrar todas as oportunidades para estudar. “Faço os cursos de Licenciatura em Turismo e em Engenharia Agro-alimentar. Decidimos fazer dois cursos porque somos ambos filhos de famílias pobres e aqui o ensino universitário é gratuito. Por isso estamos a aproveitar ao máximo esta oportunidade”, afiança.

Situação política e económica na Venezuela

A inflação, a insegurança e a escassez de produtos básicos já eram realidade na Venezuela em 2014, quando eclodiram as manifestações de estudantes e dos opositores do governo de Nicólas Maduro, as quais acabaram em confrontos violentos e várias mortes. A situação agravou- se recentemente, depois de o FMI classificar a inflação na Venezuela como a “maior do mundo”. A falta de remédios levou o Parlamento a decretar crise humanitária no país. Além disso, a Venezuela lida com o racionamento de energia, com protestos sociais e saques às lojas, devido a falta de produtos básicos, e com o aumento da criminalidade.

A crise social, política e económica agravou-se ainda mais com a alta dependência da importação de bens, a queda do preço do petróleo (maior fonte de divisas na Venezuela) e o controle estatal da produção e distribuição de produtos básicos.

DGES nega abandono

A Direcção Geral do Ensino Superior (DGES) nega ter abandonado estes estudantes porque as instituições responsáveis estão a acompanhar o caso de forma atenta para evitar que haja duplicação de auxílios já que os recursos são escassos. Por outro lado, sublinha a instituição, é importante saber que tipo de ajuda esses estudantes estão a solicitar e quanto tempo falta-lhes para terminarem os respectivos cursos.

“A DGES, assim como a Fundação Cabo-verdiana de Acção Social Escolar (FICASE), estão a acompanhar o caso. Não há abandono. Como há-de imaginar, pedidos há vários. Importa analisar caso a caso, para que não haja duplicação dos apoios, que são escassos”, diz José Mário Correia, o director, para quem os dois estudantes que permanecem na Venezuela estão lá por meio de um “gentleman’s agreement”.

“Não creio que haja um protocolo de envio de estudantes para a Venezuela. Importa saber em que ano de estudo estão, quanto tempo de estudo lhes falta, que tipo de subsídio lhes interessa. Até agora não responderam a estas questões”, alega o director da DGES. Quanto aos colegas destes dois “resistentes” que regressaram ao país-natal, Correia informa que são hoje bolseiros do governo de Cabo Verde na UNICA e na Uni-Mindelo. Já estão no Terceiro ano”

Correia garante ainda que a FICASE, que é provedora dos fundos, já propôs um trabalho conjunto FICASE, embaixada de Cabo Verde no Brasil e DGES e que o dossiê está já sobre a mesa. Brevemente, este deverá ser entregue à Ministra da Educação, que vai deliberar sobre o assunto. “Uma solução imediata, tendo em conta a instabilidade político-social na Venezuela, seria regressarem para estudar em Cabo Verde, tanto mais que esses cursos existem também aqui no país. Mas isso eles já disseram que não querem. Vamos abrir agora em Setembro o concurso nacional de bolsas de estudo, que pode ser uma solução”.

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