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O ensinar que ensina 12 Fevereiro 2018

O ensinar que ensina, não é uma projeção do “mestre” em seu “discípulo”, mas sim um caminho tranquilo e sereno que conduz a cada um a ver as coisas sem qualquer tipo de retoque; o ensinar que ensina conduz cada indivíduo a ver com seus próprios olhos, a ouvir com seus próprios ouvidos e a pensar com sua própria cabeça.

Por: José João Neves Barbosa Vicente*

O ensinar que ensina

Ensinar é uma das mais nobres atividades humanas quando cumpre o seu verdadeiro papel; por outro lado, quando isso não acontece, essa atividade pode se tornar algo perigoso não apenas para o indivíduo em particular, mas também para a sociedade como um todo. Assim, para que o ensinar seja uma atividade nobre e cumpra o seu verdadeiro papel, todos os indivíduos que nela estão envolvidos ou fazem parte dela, precisam estar cientes que exercer tal atividade, não significa jamais impor suas ideias e nem controlar ou dominar o outro. O ato de ensinar só faz sentido quando realmente ensina, isto é, quando contribui para que cada indivíduo não apenas pense, mas também permaneça ele mesmo.

O ensinar não ensina enquanto existir alguma crença ou convicção entre aqueles que estão envolvidos com essa atividade, que possa levá-los a admitir que é necessário incutir ideias e opiniões daquele que ensina sobre aquele que é ensinado. Nenhuma imposição, seja de ideias ou vontades, constitui-se em ensinar; esse tipo de atividade pode criar seres obedientes aos seus “senhores”, mas jamais despertará o indivíduo para o pensar livre e autônomo. O ensinar que ensina, não é uma projeção do “mestre” em seu “discípulo”, mas sim um caminho tranquilo e sereno que conduz a cada um a ver as coisas sem qualquer tipo de retoque; o ensinar que ensina conduz cada indivíduo a ver com seus próprios olhos, a ouvir com seus próprios ouvidos e a pensar com sua própria cabeça.

Para que o ensinar ensine realmente, não pode existir nele nenhuma tendência em transformar aquele que é ensinado em um “produto” da vontade daquele que ensina; não permitir que o outro seja livre e ele mesmo, ou querer fazer dele um prolongamento da vontade de alguém, não significa simplesmente não ensinar, significa agir contra o ato de ensinar. A beleza de cada indivíduo consiste, principalmente, em ser ele mesmo e pensar com a sua própria cabeça; isso não deve ser jamais ignorado e nem obscurecido pelo ato de ensinar.

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*Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e editor da Griot: Revista de Filosofia.

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