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O "imparável" mecânico cabo-verdiano, triste com fim de ligações inter-ilhas da TACV 01 Agosto 2017

Com quase 60 anos, a história da companhia aérea pública cabo-verdiana TACV enche a população de orgulho mas hoje é um símbolo de tristeza e resignação no dia em que deixa de operar as ligações domésticas.

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Nascido no concelho de São Domingos, em 1937, Vítor Lopes é conhecido em Achada Grande Frente, onde mora, e um pouco por toda a cidade da Praia, por ’Vitor Mecânico’, o funcionário mais antigo e um dos históricos dos Transportes Aéreos de Cabo Verde (TACV).

Os seus cabelos brancos expõem o peso da idade. Com 80 anos, já tem alguma dificuldade em andar, mas brinda todos com uma simpatia, hospitalidade e memória inigualáveis.

Quando percebe que vai falar da TACV, os olhos enchem de água e a memória recua no tempo, ao longínquo ano de 1957, quando, com apenas 20 anos, começou a trabalhar na então Aero Clube de Cabo Verde, dirigida pelo falecido Joaquim ’Quinquim’ Ribeiro.

Um ano depois, recordou à Lusa, ajudou Quinquim Ribeiro a fundar os TACV, ainda no tempo em que o país era colónia portuguesa, de quem se tornou independente a 05 de julho de 1975.

’Vítor Mecânico’ contou que sempre trabalhou na cidade da Praia, recordando orgulhosamente que, depois de Joaquim Ribeiro, ele foi o "funcionário número dois" da companhia.

Concluiu só a terceira classe da época e na adolescência trabalhou como carpinteiro na primeira oficina do Estado, afirmando que foi "Deus" que lhe deu o dom da mecânica.

Até 2001, ano que se aposentou, foi o "homem das máquinas" na companhia aérea pública cabo-verdiana, tendo viajado muitas vezes às ilhas como o "estafeta" para reparar aviões.

Ao estrangeiro, disse que foi poucas vezes, mas lembra como se fosse hoje quando foi aos Estados Unidos no voo inaugural da TACV entre Sal e Boston, em 1987.
Casado e pai de 17 filhos, três deles já falecidos, o senhor Vítor também consertava motos, carros, bicicletas, mas o seu fascínio eram os aviões, sublinhando, vaidoso, que em 60 anos a companhia nunca teve um único acidente.

A TACV é considerada uma das companhias aéreas mais seguras do mundo, a única dos países africanos de língua portuguesa com autorização para voar para os Estados Unidos e sem qualquer restrição para escalar os aeroportos europeus.

"Eu era imparável", completou, enumerando outros feitos na companhia com mais idade do que o Cabo Verde independente: formou muitos outros mecânicos, apadrinhou um dos aviões, foi capa da revista de bordo, recebeu prémios e foi homenageado pela empresa.

Quase 20 anos após se aposentar, Vítor Mecânico não esperava ter surpresa tão grande e não esconde a "tristeza" pelo fim dos voos domésticos da empresa onde "deu" a sua juventude.

Com a voz embargada e semblante carregado, o octogenário tem dificuldade em expressar sobre o assunto.

"Não podia ser assim. Não concordo", manifestou, não querendo se intrometer no negócio, mas lembrando que a TACV é um "património do Estado" que não pode enfraquecer.

"É algo que lamento muito, mas não consigo dizer nem fazer nada", prosseguiu, resignado.

"Não chores", pediu a mulher e uma das filhas, enquanto decorre a entrevista à agência Lusa na sala de casa e a televisão pública dá precisamente notícias da TACV.
"Sinto uma grande tristeza ao ver aquela companhia em baixo. Isso dói-me muito", mostrou Vítor Mecânico, limpando as lágrimas que escorriam soltas cara abaixo.
Conhecida também como Cabo Verde Airlines, a TACV foi fundada em 1958 e até 1984 operou apenas nas ligações domésticas e no ano seguinte iniciou as ligações internacionais.

Até há menos de um ano como a única transportadora inter-ilhas, a empresa pública começou há alguns anos a enfrentar vários problemas financeiros e operacionais, cancelamentos e atrasos recorrentes nos voos, provocando muitas reclamações.
O Governo do Movimento para a Democracia (MpD) avançou para um processo de reestruturação da empresa, que culminou com o fecho das operações domésticas, que passam a ser asseguradas pela Binter, em cujo capital o Estado entrará com 49%.

Durante mais algum tempo, a TACV vai assegurar as ligações regionais, e o atual Governo está em negociações para encontrar um parceiro para privatizar a parte internacional. Fonte: Lusa

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