OPINIÃO

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Os Santa-cruzenses têm baixa autoestima 12 Julho 2017

Os governos têm que investir também mais no concelho a fim de evitarem a saída de quadros para as outras ilhas, outros concelhos ou o exterior. Obviamente que é muito mais fácil seguir o caminho da crítica. O discurso de bota abaixo. A diáspora santacruzense tem o mesmo pressentimento. Acham que os outros municipios estão mais avanços do que Santa Cruz. Há que sublinhar que é na diversidade que as coisas se discutem e se resolvem. Se os santa-cruzenses continuarem com esta narrativa e não olharem para as coisas com olhos de ver jamais chegar-se-ão a conclusão de que de facto alguma ou muita coisa foi feita.

Por: Alberto Lopes Sanches

Os Santa-cruzenses têm baixa autoestima

Os que conhecem bem o Concelho de Santa Cruz supostamente já conviveram bastas vezes com alguns Chavões: “algen di Santiagu e so…; so na Santiagu ki kela ta kontise; so pa Santiagu ki ta mandadu pesual diskualifikadu pa ba trabadja la; so pa Santiagu ki ta mandadu produtus bedju e sen valor; Santiagu e disprezadu”. São expressões que nos mostram que alguns munícipes sentem-se abandonados e desprezados em relação aos demais concelhos. A tendência é para focar apenas em aspectos negativos esquecendo-se de lado positivo.

Não é que existem gentes mal-educadas ou gentes que destroem tudo que é feito num concelho e não nos outros. Não é que o Estado sempre faz “coisas boas” num concelho e noutros não. É percepção que se tem e não passa de ilusão de óptica. Naturalmente que esta região do país tem as suas potencialidades e os seus defeitos, a semelhança das outras. Nós devíamos ser realistas e optimistas, aliás devíamos aproveitar desta baixa autoestima para saber tirar proveito. O movimento cívico nesse concelho tem que ganhar dimensão para levantar a voz e chamar atenção aos políticos. Não numa perspectiva de beneficiar o seu concelho em detrimento dos outros, mas no sentido de garantir a igualdade de oportunidades. Para que isso aconteça é imperioso que se reforce a amizade, o amor e a unidade entre os concidadãos. Há que se exigir mais, também às nossas próprias cabeças, à nossa comunidade, aos nossos serviços de modo a resgatar a autoestima desejada. As coisas não poderão continuar na base da conveniência. O medo tem que ser posto de lado. Só teremos uma autoridade responsável se tivermos um cidadão responsável, pois no fundo as autoridades competentes na matéria somos nós os cidadãos e não o Estado. Já dizia o actual Presidente da República de Portugal – Marcelo Rebelo de Sousa que “o povo pode mudar-se de políticos, mas os políticos não podem mudar de povo”.

Enfim as pessoas têm que se entregar à causa e a participação cívica tem que falar mais alto. É necessário ser grande. E ser grande pressupõe defender a causa.

Pelos nossos cálculos, o Concelho de Santa Cruz é um dos concelhos mais rico do país e tem beneficiado de algumas infraestruturas fantásticas. A título de exemplo: é o maior produtor agrícola do país, beneficia atualmente de duas barragens, um Túnel, um Palácio de Justiça, um Centro Comercial e um Paços do concelho modernos. Por outro lado, possui uma extensa e linda praia de areia preta. O concelho tem todas as condições para se incrementar o turismo histórico-cultural, o turismo de sol e praia, o turismo rural e de montanha e ainda o de ambiente. No campo artístico tem duas das vozes mais apreciadas de actualidade em Cabo Verde-Elida Almeida e Lejemea. Pese embora nunca devemos esquecer das referências incontornáveis: Nha Nacia Gomi, Sema Lopi, Antão Barreto e Katxaz. Tem três grandes estrelas de futebol que militam no campeonato mexicano e português respectivamente. Estamos a referir ao Djaniny (Santos Laguna), Gelson Martins (Sporting), Eliseo (Benfica). Este último filho da Dona Néné, uma senhora activista social radicada a largos anos nos Açores. Convém salientar também o internacional cabo-verdiano Lito, que muito deu à nossa selecção nacional de futebol e hoje é treinador do Sporting da Praia. O jovem ativista social Emanuel Ramos é um caso paradigmático, por ser uma pessoa muito dinâmica e que se debruça bastante sobre matérias que afligem a juventude, a formação pessoal, o ambiente, a cultura e a identidade. A ONG-Tendas All Shadai que funciona neste concelho e que tem estado a levar a cabo um trabalho brilhante em prol dos toxicodependentes. Este município dispõe também de uma localização geográfica privilegiada por se situar no litoral e praticamente no centro da região santiaguense, fazendo a ponte com a Cidade da Praia, São Domingos, São Lourenço dos Órgãos, São Miguel e São Salvador do Mundo. Os santacruzenses não se acarinham e nem se rendem homenagens às suas figuras de sucesso. Nota-se até um défice no que tange a camaradagem, pois há filhos de Santa Cruz que ocupam altos cargos no Governo e na Administração Pública e não fazem qualquer lóbi para ajudar os seus conterrâneos. Algo um tanto ou quanto ridículo, na medida em que se lutarmos para estar na fila da frente ninguém vai fazer isso por nós.
Élida Almeida cantou e disse na sua música Nos Rikeza:
Tudu bes ki N lembra
Cezaria ku Bana
Lagua ta baza-m

Tudu bez ki N pensa na
Nha Nasia Gomi, na Katxas, Kode di Dona
Tanbe ta da-m gana txora

Nhos ki kanta dia ku noti
Pa mostra nos grandeza
Un alma di pais pikinoti
Pa es ba konxe nos rikeza…

Significa dizer que os munícipes têm que seguir as pesadas destes ilustres que muito têm batalhado para levar bem alto a nossa cultura e o nome de Cabo Verde, através da música. Os governos têm que investir também mais no concelho a fim de evitarem a saída de quadros para as outras ilhas, outros concelhos ou o exterior.
Obviamente que é muito mais fácil seguir o caminho da crítica. O discurso de bota abaixo. A diáspora santacruzense tem o mesmo pressentimento. Acham que os outros municipios estão mais avanços do que Santa Cruz. Há que sublinhar que é na diversidade que as coisas se discutem e se resolvem. Se os santa-cruzenses continuarem com esta narrativa e não olharem para as coisas com olhos de ver jamais chegar-se-ão a conclusão de que de facto alguma ou muita coisa foi feita.Não podemos ignorar de forma alguma os excelentes traços que identificam e muito esses cidadãos. A hospitalidade e a harmonia que eles têm para com quem chega ao seu concelho. É algo que eles sabem fazer e bem. Não é por acaso que o velho ditado diz que: “Kenha ki ba Santiagu, ka ta kre ben mas”.

De maneira que é incalculável a beleza e a riqueza que este concelho dispõe. Os santacruzenses ão de saber que “um povo com honra não morre nunca”- já dizia alguém. O não vangloriar os seus campeões significa que estão a passar um atestado de pobreza às suas próprias cabeças, pois a pobreza pode ser definida como a incapacidade de saber tirar proveito dos recursos que têm.

Julho, 2017

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