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Paparazzi: Do 31 de agosto fatal a Diana, de Macron e da lei 17 Agosto 2017

Os paparazzi têm, regra geral, uma conotação negativa na nossa cultura neolatina, onde o direito à privacidade é muito valorizado, bem acima do direito à informação associado à cultura anglossaxónica.

Por: A. Teresa Pires Paulo

Paparazzi: Do 31 de agosto fatal a Diana, de Macron e da lei

Se fizermos uma busca por “Paparazzi”, verificamos que, regra geral, a definição dada pelos motores de busca em inglês difere substancialmente daquela que surge em português. Se em inglês a definição não envolve juízos de valor negativos, pelo contrário em português define-se realçando os traços negativos desta profissão sui generis.

Em inglês: Fotógrafos independentes que, regra geral, fotografam “os famosos”: pessoas com grande relevância social como atletas, gente do espectáculo, políticos, outras celebridades.

Em português: Fotografam pessoas sem a sua autorização, expondo em público as suas atividades privadas, do dia a dia.

Em França, a lei proíbe “a intrusão na vida privada de quem quer que seja”. Assim, prevê-se punições a quem, “através da publicação de imagens sem prévia autorização ou da publicitação de ligações entre pessoas, em relatos de cariz real ou imaginário”, atentar contra “a vida privada de quem quer que seja”.

Ambiguidade entre famoso fotografado e fotógrafo

Os famosos fazem-se fotografar no tapete vermelho: isso faz parte do establisment (foto). É inimaginável um autêntico ou apenas pontual famoso sem o tapete vermelho, como vimos nas últimas edições do CVMA. A fama …tão perseguida. Mas o preço da vitória é amargo: com a mira de fotógrafos assestada sobre si todo o tempo, o famoso sente tombar sobre os ombros o insuportável peso da fama.

Lembro uma noite do 31 de agosto de 1997. Discutíamos o grande caso do dia: a morte, nessa madrugada, da “princesa do povo”, Diana de Gales, num acidente que se atribuía em grande parte à perseguição por paparazzi.

Alinhávamos quase todos pelo mesmo diapasão: a condenação aos paparazzi. Daí a indignação que todos sentiram perante a tentativa de um de nós para racionalizar o facto mostrando a relação ambígua entre a fotografada-perseguida e os fotógrafos perseguidores.

Uma semana depois, uma crónica no New York Times assinada por Roger Cohen dava conta de um ponto de vista similar ao que a maior parte condenara nessa conversa informal de amigos.

O cronista apontava que “Diana, a Princesa de Gales, tinha ao longo desse verão entretecido com os fotógrafos uma “dança de atração e repulsa que atingiu o seu limite fatal” nesse 31 de agosto.

Os paparazzi tinham-se tornado veiculo, dizia o cronista, da mensagem que “a mulher mais fotografada do planeta” queria enviar ao ex-marido: que também ela tinha ultrapassado a dor e era feliz. Em apoio da tese, o cronista citava um paparazzo da agência Angeli: “Para nós todos era claro que ela queria mostrar ao establishment britânico que ela agora era livre”.

Segundo esse fotógrafo, “ela sabia que estávamos lá e não procurou evitar-nos. Nós éramos os meios que ela escolheu para oficializar a sua nova união”.

Macron processa ultra-paparazzo

Em França, pois, a justiça é muito severa em casos de violação da privacidade. Mas para isso é preciso que o perseguido faça queixa.

Observemos então o que se passou no último decénio com os ocupantes do Eliseu. Sarkozy foi pródigo em pôr os paparazzi na cadeira do réu. No polo oposto, de Hollande igualmente caçado pelos fotógrafos perseguidores não há registo de que tenha alguma vez acionado os tribunais.

E agora Macron? O que se segue ao período em que os paparazzi estiveram à vontade perseguindo Hollande, após a era sarkoziana marcada pela perseguição aos perseguidores?

Pois é! Será que Macron vai reeditar a era de Sarkozy no que diz respeito à relação com a imprensa que não respeita os limites da vida privada? Esta é a pergunta que se faz em França porque Macron fez entrar no Tribunal de Marselha, esta semana, um processo contra um paparazzo que ultrapassou todos os limites, como se deduz do comunicado do Eliseu a seguir.

O serviço de comunicação do palácio presidencial francês emitiu esta terça-feira, 15 uma nota a explicar as circunstâncias do caso, pouco frequente, de um presidente acionar o tribunal devido ao assédio de jornalistas.

“Um fotógrafo-jornalista seguiu, de moto, (o presidente) por diversas vezes. A segurança por diversas vezes pediu-lhe que se afastasse, mas ele continuou”.

O presidente e a primeira-dama de França estão de férias em Marselha, na residência oficial do ‘prefeito’, o equivalente a presidente local.

"No domingo, (o paparazzo) invadiu a propriedade privada". Foi a gota de água e na segunda-feira, formalizou-se "a queixa (que) foi apresentada em nome do presidente", lê-se na nota do Eliseu.

Fontes (sobre Macron): AFP. Cartoon in ’Getty Images’: Flashes sobre o tapete vermelho: os bons paparazzi.

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