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Prostituição masculina: Vender o corpo para viver 19 Outubro 2014

Cresce a prostituição masculina em Cabo Verde, sobretudo nas ilhas mais turísticas. Com idade compreendida entre os 18 e os 30 anos, estes “gigolôs" – homens que são sustentados por mulheres ou indivíduos do mesmo sexo em troca de prazer – não se assumem como tal. Recusam ser catalogados como profissionais do sexo. Preferem falar em troca de favores sexuais com uma clientela seleccionada. A Semana esteve à conversa com “Cuzinha”, um rapaz que conta na sua lista de clientes mulheres e homens de meia-idade com algum poder económico. Gente que não se importa de sustentar e satisfazer os caprichos deste rapaz na flor de idade, em troca de sexo.

Por Vanina Dias

Prostituição masculina: Vender o corpo para viver

“Cuzinha”, 25 anos, não foi além do ensino secundário. Vende o corpo pelas mesmas razões por que o fazem muitas mulheres que estão nas ruas de Mindelo: para ganhar dinheiro. “Estou nesta vida há pouco tempo, desde que concluí o 12º ano. Não tinha condições para continuar a estudar, além disso é difícil arranjar trabalho", conta o nosso entrevistado.

Não foi fácil dar o primeiro passo na indústria do sexo, afirma. "A primeira vez foi difícil, mas depois vi que poderia continuar e ganhar algum dinheiro”, diz com desenvoltura este jovem de corpo “sarado” que frequenta meios selectos à procura de clientes, homens e mulheres bem posicionados que preferem um “affair” às escondidas com medo do julgamento da sociedade.

É nas festas e em lugares públicos que encontra os clientes, a maioria homens com quem tem uma espécie de “contrato”. Pagam-lhe as suas despesas e oferecem-lhe objectos de luxo em troca de sexo. "A época alta é o Verão, quando na ilha estão muitos turistas e emigrantes que procuram um companheiro para curtir as férias. Aproveito para fazer alguns biscates. É um extra que ganho para reforçar aquilo que recebo dos clientes habituais".

Corpo sarado

Ciente de que o corpo é o seu ganha-pão, “Cuzinha” capricha na aparência. "Cuido do meu corpo porque é com ele que trabalho. Estou sempre na Laginha a treinar para tonificar os meus músculos e me bronzear, procuro alimentar-me bem e usar bons produtos. E tenho tido retorno, pois sou bastante assediado”, diz o jovem seduzido por esta vida de glamour.

"Ainda não me arrependi porque as coisas têm corrido bem. Por isso pretendo continuar. Além do mais está difícil conseguir outro trabalho", assinala. Mas, assim como muitos outros cabo-verdianos, aspira sair um dia de Cabo Verde para arranjar um trabalho melhor. "Gostaria de encontrar alguém que me levasse ou ao menos me ajudasse a ir para o estrangeiro. Seria bom. Lá fora terei mais oportunidades, não para me prostituir mas para conseguir um trabalho digno de um rapaz da minha idade”.

É que “Cuzinha” receia também o preconceito ou algum acto de represália da família. “Os meus parentes devem saber o que faço porque não trabalho mas sempre tenho dinheiro. Não comentam nada comigo e eu finjo-me de desentendido, porém tenho receio do dia em que resolverem romper o tabú e me perguntarem onde arranjo tanto dinheiro para pagar as minhas contas e manter um certo nível de vida. Não gostaria de falar sobre este assunto com eles”, confessa.

Teme ainda o julgamento da sociedade. Por isso não se assume como um prostituto. “Não digo o que faço nem desminto. Simplesmente não tenho satisfações a dar a ninguém sobre a minha vida”. Também não revela o valor que cobra por uma noite de sexo. Afinal, o segredo continua ainda a ser a alma do negócio "sobretudo nesta profissão", diz Cuzinha.

Turismo sexual

O turismo em Cabo Verde não trouxe apenas crescimento económico, também despoletou o debate sobre o nosso país ser ou não um destino de turismo sexual. Se não faltam histórias sobre prostituição também não existem estudos que as confimem. No início do "boom" turístico, a procura era por mulheres, mas os homens, sobretudo nas ilhas mais turísticas – Sal, Boa Vista e S.Vicente –, também já entraram neste negócio respondendo à grande demanda.

Homens e mulheres endinheirados chegam a estas ilhas para desfrutar do sol e das belas praias e querem fazê-lo na companhia de “um bom crioulo”. Pagam almoços e jantares e ainda dão presentes. “Hoje vemos muitos jovens com turistas. São os acompanhantes de férias. Ganham algum dinheiro e desfrutam de uma boa vida durante alguns dias. Quando um cliente vai embora, aparecem aqui à caça de outro que esteja à procura de companhia e que não se importa de ´bancar` alguém mais jovem. Por vezes é difícil distinguir se é prostituição ou não”, afirma um barman que trabalha nas noites da ilha do Sal.

Sensações extra-corpo

"Em Cabo Verde a prostituição masculina tem características diferentes. É a chamada prostituição corporativista. Não é uma prostituição directa, não é aquela que é feita nas ruas. Ou seja, não é (algo) óbvio, apesar de não ser crime prostituir-se. É feita por homens que querem subir na vida em troca de favores sexuais”, explica o mestre em sexologia André Bahia Ribeiro, para quem os clientes e os prostitutos procuram nesses momentos de sexo casual um refúgio psicológico.

Segundo este sexólogo, os clientes que procuram este tipo de serviço normalmente são homens e mulheres de meia-idade, bem posicionados socialmente, ou seja, com bons empregos e casados", afirma o especialista, alertando para o facto de "a prostituição poder coexistir com situações de pedofilia, atraindo crianças para essa ratoeira de sexo e dinheiro".

Bahia, que é professor num estabelecimento de ensino superior em São Vicente, acredita que esses clientes sofrem de algum desvio sexual e buscam outros indivíduos para, sem qualquer compromisso, satisfazer os seus vícios. Já os prostitutos são jovens ou até mesmo adolescentes que entram neste mundo para se sustentarem, não porque gostam deste estilo de vida.

Por isso muitas vezes "quando estão com um cliente de que não gostam ou que os maltrata, procuram ter sensações extracorporais. É como se abandonassem o seu corpo momentaneamente. Pensam em outras situações para não sentir dor. Desta forma fica mais fácil envolver-se com o cliente. É uma espécie de auto-protecção”. Também se protegem permanecendo no anonimato e agindo às escondidas porque "há preconceito e homofobia", justifica o sexólogo.

"A prostituição masculina é camuflada e extremamente difícil de se ver. Temos a percepção de que está a crescer por causa do turismo sexual, mas não há nenhum estudo a revelar dados sobre este fenómeno em Cabo Verde. Não é algo visível, comparada com a feminina. Não há homens na rua a prostituírem-se porque a sociedade é muito machista e os prostitutos têm medo de assumir, por exemplo, que têm homens como clientes”.

Para André Bahia Ribeiro a prostituição acaba por fazer parte de uma tríade – dinheiro, sexo e droga – que quase nunca acaba bem, já que a promiscuidade traz as Doenças Sexualmente Transmissíveis. Daí o alerta: todo o cuidado é pouco, já que a sociedade está exposta e o perigo espreita.

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