DESPORTO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Quinze futebolistas suspeitos de falsificação de documento sob investigação policial: Platiny Alves, ex-Gil Vicente, constituído arguido em Portugal 25 Setembro 2016

O futebolista cabo-verdiano Platiny Lopes Alves está a braços com uma investigação aberta pelo Serviço de Emigração e Fronteiras português por suspeita de falsificação de documentos, que pode culminar com a sua expulsão da Europa. O ex-jogador do Gil Vicente terá adulterado o seu registo criminal, forjando digitalmente o carimbo da Conservatória dos Registos de S. Vicente, esquema entretanto descoberto durante uma peritagem ordenada pelo Ministério Público de Portugal. O processo-crime foi aberto em finais de Maio e, conforme apurou este jornal, poderá agora despoletar o esclarecimento pelas autoridades portuguesas e cabo-verdianas de outros supostos casos de adulteração de documentos de atletas “exportados” para o “velho continente”, por agentes desportivos cabo-verdianos. Existe mesmo uma lista com nomes de quase duas dezenas de jogadores cujas idades e apelidos foram mudados, entre os quais um influente futebolista da selecção.

Por: KzB

Quinze futebolistas suspeitos de falsificação de documento sob investigação policial: Platiny Alves, ex-Gil Vicente, constituído arguido em Portugal

O futebolista cabo-verdiano Platiny Lopes Alves foi constituído arguido pelo Ministério Público português num processo-crime de falsificação ou contrafacção de documentos, descoberto pelo SEF (Serviço de Emigração e Fronteiras) a partir de uma denúncia anónima. Platiny, 20 anos, terá manipulado digitalmente o carimbo da Conservatória dos Registos de S. Vicente e apresentado um registo criminal falso no seu pedido de autorização de residência em Portugal para poder continuar a jogar.

Conforme apurou este jornal, o SEF foi alertado da provável irregularidade e efectuou uma peritagem à documentação apresentada pelo ex-futebolista do Gil Vicente, tendo notado pequenas gralhas no registo criminal “emitido” pela Conservatória dos Registos de S. Vicente a 23 de Dezembro de 2013. “Constata-se a existência de diferentes lapsos e gralhas anómalas, destacando desde logo a menção a ‘individo’ e não ‘indivíduo’, bem como ‘verifiquei a autenticidade’ e não ‘verifique a autenticidade”, diz uma nota de serviço da SEF com data de 21 de Abril deste ano, a que tivemos acesso.
Conforme o documento, na sequência de uma determinação do Ministério Público do Tribunal da Comarca de Braga, foi elaborado um relatório pericial ao certificado de registo criminal, que permitiu apurar que o carimbo aposto no documento é uma reprodução digital e não o carimbo a óleo normalmente usado pelo serviço de Registos e Notariado cabo-verdiano. E mais: a assinatura do funcionário surge formatada por “pontos de cor” e não com tinta de uma única tonalidade. Assim, para o SEF, os elementos recolhidos provam que o documento apresentado por Platiny é contrafeito.

Sem clube, depois que o Gil Vicente não lhe renovou o contrato por conta do caso, o jogador encontra-se praticamente preso em Portugal. É que as autoridades portuguesas apreenderam-lhe o passaporte, pelo que está impedido de viajar, pelo menos de forma legal.

Até este momento, Platiny (não confundir com o “Tubarão-Azul” que marcou o primeiro golo pela selecção na CAN-2012, no tempo de Lúcio Antunes) já foi por duas vezes ouvido em declarações pelas autoridades lusas, como ele próprio confirmou ao jornal A Semana. “Foi aberta realmente uma investigação, mas posso assegurar que os meus documentos são verdadeiros”, afirma o jovem natural da ilha do Fogo e que cresceu em S. Vicente.

Sem entrar muito em detalhes, Platiny garante que está por enquanto sem clube, apesar de ter recebido manifestação de interesse de outros emblemas portugueses depois que saiu do Gil Vicente. “Há outros clubes interessados, mas primeiro tenho que resolver este problema”, realça o atleta, que, segundo diz, foi levado para Portugal por um italiano, quando ainda tinha dezasseis anos de idade.

Por aquilo que conta, pouco tempo depois de chegar a Lisboa foi abandonado pelo seu agente. “Ele enganou-me e deixou-me entregue à minha sorte. Desapareceu e nunca mais soube do seu paradeiro”, afirma o jogador, que foi entretanto acolhido pelo Gil Vicente, que o ajudou a obter autorização de residência, mediante um contrato de trabalho.

Conforme nota do SEF, o jogador entrou em Portugal em Outubro de 2013, com um visto de curta duração, de apenas trinta dias. Em Janeiro de 2014 pediu uma autorização de residência, mas que entretanto mereceu parecer negativo, por não apresentar os requisitos legais exigidos.

Logo de seguida, Platiny pediu a reapreciação do seu processo, agora com o suporte do clube português, que garantiu a sua estadia em Portugal e um contrato de trabalho. Desse modo, conseguiu obter uma autorização de residência válida até Março de 2015. Nesta mesma data, pediu a renovação da sua permanência legal em solo português, ainda sustentado pelo contrato que o mantinha no plantel do Gil Vicente. Só que dois meses depois o SEF recebeu uma denúncia segundo a qual o cabo-verdiano teria forjado parte da documentação solicitada por esse serviço para renovar a sua estadia. Logo no mês de Maio, Platiny foi ouvido em declarações e constituído arguido, “por haver fortes indícios da prática do crime de falsificação ou contrafacção de documento, punido pelo Código Penal.” Salienta ainda o SEF que a lei obriga a que o pedido de autorização seja cancelado sempre que for concedida com base em declarações falsas ou enganosas, documentos falsos ou falsificados ou através de meios fraudulentos.

Este incidente, segundo António Fiúza, apanhou o Gil Vicente de surpresa e deixou o clube ficar mal na fotografia. “A verdade é que fomos enganados. Contratámos o jogador pensando que ele tinha a idade que apresenta nos documentos. Ficámos estupefactos e tristes com a situação porque acreditámos nos documentos que ele nos apresentou”, reage o presidente do clube português, que traz dessa forma à baila um novo dado: a questão da idade do jogador. Já que o caso está sob investigação, Fiúza evita entrar em mais pormenores, mas confirma que o Gil Vicente cessou o contrato com o jogador por causa da investigação aberta pelo SEF e o Ministério Público.
Platiny assinou pelo Gil Vicente até Junho de 2018, sem a intervenção de nenhum agente desportivo, e a cláusula de rescisão está avaliada em 2,5 milhões de euros. Resta por isso saber se o clube vai exigir-lhe essa responsabilidade contratual, o que não foi possível apurar junto da direcção do Gil Vicente.

FCF e DGD a leste

O certo é que este caso ainda não chegou ao conhecimento oficial da Federação Cabo-Verdiana de Futebol e da Direcção-Geral dos Desportos, embora já esteja a ser comentado em determinados círculos, por se assemelhar a outras tantas suspeitas de falsificação de documentos de jogadores enviados para o estrangeiro por clubes, agentes desportivos e intermediários. Segundo Vítor Osório, presidente da FCF, nenhuma autoridade portuguesa ou cabo-verdiana ainda comunicou o caso Platiny à Federação. “Se estamos a falar de falsidade de documentos, isso tem que ser confirmado na fonte, ou seja, junto das entidades que emitem esses documentos. A FCF não emite tais documentos, lida, sim, com papéis autênticos (passaporte, bilhete de identidade e certidão de nascimento) que são emitidos pela entidades competentes (conservatórias, registos e serviços de fronteiras)”, enfatiza Osório, reforçando que desde que está à frente da FCF “nunca” a sua direcção foi confrontada com suspeitas de falsificação de documentos de atletas cabo-verdianos.

A transferência de jogadores cabo-verdianos, segundo Osório, é feita através do sistema TMS da própria FIFA. “A FCF emite o CIT (certificado internacional de transferência) com base nos registos dos jogadores, que é solicitado às regiões de futebol. Quando uma federação congénere pede à FCF que emita o CIT de um jogador, a FCF pede às regiões que nos facultem/confirmem os dados do atleta em causa (dados biográficos, histórico de equipas onde jogou e respectivas épocas) para poder organizar e responder à informação solicitada”, esclarece o responsável do futebol cabo-verdiano, enfatizando que a FCF lida com documentos pessoais apresentados pelos próprios jogadores, pelo que “nunca” pode ser responsabilizada por eventuais actos ilegais cometidos pelos detentores. Aliás, salienta, para a Federação, um documento com carimbo da Conservatória ou dos Serviços de Fronteira é sempre visto como um título autêntico.

Todos os processos de transferência que passam actualmente pela FCF, garante Osório, respeitam a legalidade e as regras impostas pela FIFA. No entanto, esse dirigente federativo entende que, se há suspeitas de falcatruas, estas devem ser devidamente investigadas, por poderem constituir crime. Nessa ordem de ideia, Osório garante que se a FCF souber de qualquer situação anómala irá tomar a medida adequada, que é encaminhar o processo ao Ministério Público. Para ele, é fundamental que as autoridades averiguem e apurem essas ocorrências, devido aos problemas que podem acarretar para a credibilidade dos serviços públicos e a imagem de Cabo Verde no exterior.

Outro organismo ligado ao desporto que está também a leste das tantas suspeitas que há muitos anos percorrem as lides futebolísticas é a DGD. Segundo Gerson Melo, em nenhum momento a Direcção-Geral dos Desportos foi formalmente informada dessas situações, inclusive do caso Platiny, cuja investigação foi aberta no mês de Maio.

Os alertas que chegam à DGD, conforme Melo, são os referidos nas palestras e conferências internacionais em que essa instituição participa. “Nunca recebemos formalmente uma denúncia, mas fala-se de transferências internacionais que podem configurar tráfico humano e que estão a preocupar certos organismos. É neste sentido que estamos a desenvolver um trabalho em parceria com a ICSS – Centro Internacional para a Segurança no Desporto -, mas no sentido da prevenção”, diz Melo. Aliás, em 2015, no decurso de uma conferência realizada em S. Vicente, a questão da segurança nos processos de transferência de jogadores africanos e latinos foi amplamente debatida. Nesse encontro discutiu-se um acordo de colaboração entre a DGD, o ICSS e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Portugal. A ideia, conforme Gerson Melo, é defender os interesses dos atletas cabo-verdianos, que estão cada vez mais a atrair a atenção de olheiros e agentes desportivos tanto credenciados como falsos, dispostos a negociar/explorar os seus talentos.

Para Gerson Melo, as suspeitas de falsificação documental extravasam o campo desportivo e devem por isso ser apuradas pelas autoridades com competência criminal. Até porque, salienta Melo, a DGD não se envolve nos processos de transferência internacional de jogadores.

Bomba prestes a detonar

Há mais de vinte anos que pairam suspeitas sobre o envolvimento de agentes desportivos e funcionários públicos na falsificação de documentos de futebolistas envolvidos em processos de transferências internacionais. O primeiro alerta surgiu em S. Vicente, mas agora, conforme apurou este jornal junto de jogadores e dirigentes do mundo do futebol, essa prática alastrou-se por quase todo o arquipélago como um vírus.

“Trata-se de um negócio que envolve milhares e até milhões de euros e quem usufrui da maior fatia do bolo seguramente que não são os jogadores, nem tão-pouco os clubes ou quem teve o árduo trabalho de formar o jogador”, diz um dirigente associativo, para quem as chamadas “equipas de fralda” são as principais vítimas do golpe dos agentes. Por aquilo que sabe, quando um talento desponta, há intermediários e olheiros que fazem de tudo para “colocar a mão” no atleta.

“Há um esquema que envolve vários níveis de interesse. A primeira investida do agente é ‘comprar’ o treinador do jogador. Ele vai sensibilizar o técnico e mostrar que o miúdo tem futuro e que pode colocá-lo num clube na Europa. O passo seguinte é o director desportivo do clube, que fica entretanto encarregue de influenciar, por seu lado, o presidente e o resto da direcção. Uma vez conquistado todo o mundo, inclusive a família do jogador, o agente consegue convencer toda a gente a deixá-lo ficar como ‘dono’ do atleta e negociá-lo para um clube europeu”, revela o dirigente. Por aquilo que diz saber, depois o “bolo” é dividido entre todos, mas a maior fatia fica para o agente, pelo seu “esforço”.

Se for preciso, acrescenta a nossa fonte, o esquema vai mais longe. Pode implicar “pequenos ajustes”, como, por exemplo, a mudança de idade do jogador e até do apelido, para poder facilitar a transacção. Um exemplo chegado ao conhecimento deste jornal faz referência ao filho de um conhecido treinador de futebol, que perdeu o apelido do pai no seu Bilhete de Identidade para poder assinar contrato com um clube europeu de topo.
Este caso, aliás, faz parte de situações suspeitas já listadas que, conforme soube este jornal, podem ser alvo de investigação por parte das autoridades cabo-verdianas e portuguesas. Pelo menos quinze jogadores naturais de S. Vicente, Sal, S. Nicolau, Santo Antão e Santiago e os respectivos agentes estarão neste momento na mira da Judiciária. A maior parte das ocorrências está relacionada com a adulteração da idade dos jogadores. Em média tornaram-se 4 anos mais novos, mas há futebolistas que chegaram a “perder” seis anos num passe de mágica.

“Há jogadores que fomos colegas de escola e de equipa e que agora são mais novos do que eu. Isto é brincadeira”, conta um futebolista, para quem é fácil descobrir os processos de falsificação. “Basta conversar com um irmão do jogador, um vizinho, um colega de turma, um colega de serviço militar, um treinador, uma ex-namorada, uma professora da escola primária, enfim, há uma infinidade de hipóteses de se desmascarar alguém”, elucida o atleta, que se mostra dividido quanto a apoiar ou criticar essa prática. Para ele essa estória tem dois lados: por um a oportunidade concedida ao jovem de realizar o seu sonho e ajudar a família; por outro, a sua desgraça, se não tiver sorte.

São, aliás, conhecidos factos de adolescentes que enfrentaram pesadelos quando perseguiam sonhos, enganados por agentes desportivos. Dados revelados pelo jornal português Expresso dão conta que possam existir entre mil a 1.500 jovens futebolistas abandonados à sorte em Portugal, provenientes do Brasil e Cabo Verde. Muitos, como confirma o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Portugal, vivem amontoados em casas à espera de um contrato milagroso, que tarda a aparecer. E, quando vem a tempestade, nem vale a pena procurar os seus agentes, os mesmos que chegaram a mover montanhas para metê-los dentro da Europa. Quando por sorte o móvel toca, ninguém atende. “Favor deixar mensagem!”

A maioria dos jogadores exportados para os clubes de futebol portugueses costuma sair de S. Vicente. Por coincidência ou não, muitas das suspeitas de documentos falsificados - ou autênticos, mas de conteúdo falso -envolvem também atletas oriundos da ilha do Monte Cara. Do mesmo modo, aparece sempre o nome de um agente mindelense quando o assunto vem à baila. Mas este nunca aceita falar dessas suspeitas com a imprensa. Quanto mais for solicitado a esclarecer a opinião pública sobre o assunto, mais esquivo se torna.

Na verdade, é raro que agentes e jogadores se disponham a dar a cara, cientes das consequências legais que isso pode acarretar. Até mesmo os atletas abandonados à sorte não têm a coragem de abrir o jogo, preferindo muitas vezes enfrentar sozinhos a sua frustração. “É natural que ajam dessa forma, por medo de represálias ou de serem chamados a depor perante a Justiça. Mas aquilo que não entendem é que são vítimas de redes internacionais que exploram os seus legítimos sonhos, a sua juventude e a sua fragilidade económica. Muitos regressam ao país com medo de serem presos e vêem o seu futuro nebuloso”, diz o ex-presidente de uma associação desportiva, que pediu anonimato.

Segundo esta fonte, vários jovens têm estado a regressar a Cabo Verde frustrados porque não conseguiram os prometidos contratos ou por medo de serem descobertos pelo SEF de Portugal, quando têm que renovar documentos. Um deles, conta, voltou recentemente à ilha de S. Vicente depois de uma experiência em Portugal, para não ser capturado pela Emigração e Fronteiras.

O atleta em causa foi abordado pela nossa reportagem, mas negou que tenha regressado por causa de problemas com a sua documentação. Ele deixa entender que decidiu fazer as malas porque quis, porque não se sentia bem em Portugal. Porém, cinco fontes garantiram a este semanário que a sua estória é bem diferente.

Sem uma apurada investigação policial, as estórias em torno desse fenómeno continuam a ser vistas como produtos da “má-língua” de invejosos. Porém, no mundo futebolístico são muitos aqueles que já “souberam” de jogadores que perderam idade legalmente e que hoje ostentam passaportes validados pelos competentes serviços públicos. “Se alguém apresenta um BI emitido pelo Cartório, o Serviço de Fronteira não tem como negar passar-lhe um passaporte. É simples como isso”, comenta um agente da Polícia Nacional. A seu ver, o Estado precisa levar essas denúncias mais a sério porque, se forem verdadeiras, podem colocar em causa a própria segurança nacional.

Aliás, é o que a Europa tem estado a fazer, perante ameaças cada vez mais fortes do terrorismo. Fonte bem posicionada explica que o SEF passou a exigir outros tipos de documentos para renovar a autorização de residência e isso tem colocado problemas incontornáveis àqueles que apresentaram documentos falsos. Além disso, com a informatização dos serviços, ficou mais fácil encontrar a identificação dos cidadãos, logo as incongruências presentes nas falsificações.

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