OPINIÃO

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Reafricanização dos espíritos!? 15 Junho 2017

É necessário pedalarmos mais rápido para que possamos alcançar o grande desenvolvimento africano que todos almejamos. África precisa-se projectar mais. Têm recursos naturais e humanos suficientes que podem perfeitamente contribuir nessa trajectória. Não devemos concentrar apenas no passado e lembrar da África apenas no dia 25 de Maio.

Por: Alberto Lopes Sanches

Reafricanização dos espíritos!?

Nos últimos tempos verifica-se uma forte preferência pelas criações e produções africanas. Quer do ponto de vista artístico, com destaque para a música, dança Afro, Batida, kuduro, Kizomba, a moda e os trajes coloridos, os penteados Afro, dreads, os cortes dos cabelos, os objectos de decoração etc. São gestos que nos regozijam e nos enchem de orgulho.

Os géneros musicais africanos estão cada vez mais a subir os grandes palcos internacionais. Fala-se até em aulas de dança Kizomba e outros géneros africanos no além-fronteiras. O que nos leva a afirmar que há um despertar de consciência pelas coisas boas que se fazem ou existem no continente africano. É o que o pai da nação cabo-verdiana-Amílcar Cabral denominou de reafricanização dos espíritos. Um conceito empregue na década de 50 do século XX, justamente numa altura em que ele e os demais membros do PAIGC estavam a engajar-se na consciencialização dos povos da Guiné Bissau e de Cabo Verde para a necessidade de luta pela independência. Segundo ele o primeiro passo rumo a independência seria a “reafricanização dos espíritos”, isto é o retorno às fontes africanas. O que pressupõe dizer que o africano tinha que redescobrir a sua verdadeira identidade, a sua cultura e as suas raízes africanas. Dessa forma acabaria por resgatar o seu sentimento patriótico e saberá orgulhar da sua África e defende-a com unhas e dentes.

Lembramo-nos de uma notícia veiculada alguns anos atrás, num dos canais da rádio de França que nos dava conta de que as raparigas francesas já adoptaram um hábito de namorar com os rapazes pretos. Muitos são os estrangeiros que ao pisarem os pés no solo africano já não querem abandonar a África, porque encantam demais com as múltiplas belezas paisagísticas africanas, a sua selva e as suas espécies e claro está as suas gentes acolhedoras. Alguém ainda se lembra da declaração da cantora colombiana Shakira, por ocasião da realização do Campeonato do Mundo de Futebol em 2010, na África do Sul em que se mostrou muito encantada pela beleza natural da África. Já está-se a romper essa ideia nublada que tínhamos do continente africano. A ideia de que a África é um continente feio, horroroso. Nós temos consciência clara de que a África não é só retrocesso, pelo contrário há países que estão em franco crescimento e desenvolvimento a vários níveis, assim como personalidades com grande mérito e com vastas competências académicas e percursos invejáveis.

A cada dia que passa despoletam jovens cheios de talentos, tanto no domínio desportivo, artístico, como no domínio da ciência e da tecnologia. Nem tudo está parado. Este continente tem feito o seu percurso, está conectado com o mundo, os regimes políticos têm sido cada vez mais flexíveis, há cada vez mais promoção de debates e de conferências sobre temas que têm a ver com a realidade africana. Naturalmente que este grande desenvolvimento que todos almejamos para a África só é possível numa relação estreita com os outros continentes, de modo a bebermos das suas experiencias, enriquecermos os nossos conhecimentos e as nossas visões.

Constata-se uma maior aproximação entre os brancos e os negros. Há um contacto mais fluente com a realidade africana. É muito frequente hoje apanharmos europeus a namorarem-se ou casarem-se com jovens africanos. A razão não é para menos, afinal pertencemos a mesma “aldeia” e a mesma raça que é o ser humano, tal como dizia Martin Luther King.
Há sinais claros de que a África é um continente de futuro e começa-se a registar uma procura por tudo aquilo de bom que este continente tem para oferecer.

Embora as estatísticas demonstram segundo o relato do documento da União Africana de 2004 de que dos 48 países Menos Avançados do Mundo, 33 deles se encontram em África.

É necessário rejuvenescer o movimento pan-africanista. Esta é a condição sine qua non para darmos grandes saltos rumo ao progresso. Uma opinião partilhada também pelo investigador Amzat Boukari. Esse movimento político, social e filosófico ergueu, no início do século XIX, no seio das comunidades da diáspora americana descendentes dos africanos escravizados e pessoas nascidas em África a partir de meados do século XX. Tinha um sentimento de solidariedade entre os negros capturados em África e levados para as Américas. Por essa razão trabalhou-se na unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias, separadas pelos colonos. Enfim pretendia-se dar vez e voz a este continente no panorama mundial através da sua autodeterminação.

É necessário pedalarmos mais rápido para que possamos alcançar o grande desenvolvimento africano que todos almejamos. África precisa-se projectar mais. Têm recursos naturais e humanos suficientes que podem perfeitamente contribuir nessa trajectória. Não devemos concentrar apenas no passado e lembrar da África apenas no dia 25 de Maio.

Para que se alcance grandes patamares há que se continuar a dar grande enfoque à educação, há que se apostar também mais na promoção da ciência, da cultura, e incentivar a criação, a inovação e a investigação científica e tecnológica, isto como forma de garantir o sucesso e o bem-estar dos africanos. Várias são as cores, várias são as línguas e vários são os ritmos, mas a África é um só.

Ser africano é ser alegre, é ser vibrante, é ser batalhador e sobretudo esperançoso na vitória. Já imaginemos uma África em paz e em estabilidade social e política e com todos os seus filhos muito unidos?

Junho, 2017

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