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Reportagem do Público: “Ser africano em Cabo Verde é um tabu” 04 Janeiro 2016

Uma reportagem do Jornal português "Público" aborda a questão de ser africano em Cabo Verde é um tabu, onde adianta que "Cabo Verde não é África, os cabo-verdianos são ’pretos especiais’ e os mais próximos de Portugal. É o país da mestiçagem, a “prova” da “harmonia racial” do luso-tropicalismo. Durante anos esta foi a narrativa dominante. Ser ou não ser africano ainda continua como ponto de interrogação”. O jornal procura analisar as questões raciais no país e saber até que ponto os cabo-verdianos se consideram africanos ou não. A jornalista Joana Gorjão Henriques percorre os caminhos do colonialismo português nos países africanos em busca de respostas relativamente ao facto de se os portugueses foram mais brandos e menos racistas e as marcas que ficam deste tempo. Em Cabo Verde as entrevistas incluíram historiadores, políticos, sociólogos, músico, estudantes universitários como também jovens.

Reportagem do Público: “Ser africano em Cabo Verde é um tabu”

De acordo com a reportagem tem existido ao longo dos anos várias definições de Cabo Verde como um país que não está nem em África nem na Europa em que muitos cabo-verdianos incorporaram este conceito, ao ponto de essa ambiguidade fazer parte da definição de identidade que é descrita por algumas pessoas. Com isso vem a questão da mestiçagem, que um dos entrevistados, Jorge Andrade, que dirige um programa na RCV+, define como "uma violência".

"Na hora em que se pensa em mestiçagem, pensa-se automaticamente em violação sexual” de uma africana por um europeu. Na nossa cor de pele é constante a lembrança do impacto do colonialismo e da escravatura”, afirma Jorge Andrade que não tem dúvidas de que a distanciação que os cabo-verdianos têm de África é uma questão racial.

A historiadora Iva Cabral defendeu que não é verdade que “Cabo Verde é uma sociedade mestiça de pele”, tal como muitos pensam. “É uma sociedade mestiça culturalmente, mas em termos de pele não. Quando Cabo Verde nasce, no início do século XVI, havia 200 vizinhos brancos na Cidade Velha e cinco mil negros. Por mais que o português fosse fértil, era muito difícil miscigenar tudo isso. Em finais de século XVIII, havia 2% de brancos.” Depois da independência “houve uma saída do fundo do poço de toda uma população negra que estava escondida” — o lado africano foi sempre silenciado, reforçou.

A dona da obra "A Primeira Elite Colonial Atlântica” diz que é difícil falar actualmente em relações raciais em Cabo Verde. “Historicamente em Cabo Verde a cor da pele depende da posição social. À primeira elite endógena chamava-se ‘brancos da terra’. Não diria que há racismo, o racismo é de classe. Depende da situação social em que a pessoa se insere. Em Portugal, quando ando no autocarro, nota-se a dicotomia branco-negro, a pessoa é julgada pela cor.”

O diplomata e ex-combatente do PAIGC, Corsino Tolentino lembra que “a teoria colonial era muito baseada nas relações raciais”, mas hoje acha que Cabo Verde é “das nações mais integradas do mundo”. O ex-ministro da Educação é dos que defende que existe uma noção de cabo-verdianidade em que todos sentem que pertencem a uma comunidade. Mas, discorda da ideia de que o arquipélago está entre a Europa e a África. “Se formos ver a geografia e a evolução sociológica, vamos ver que fica sim entre África e a América do Sul, e humanamente tem Portugal na sua composição, isso é que criou este caso singular”.

Já o sociólogo e deputado Abraão Vicente diz que, olhando para o contexto dos outros países africanos lusófonos, “ser africano em Cabo Verde é um tabu”. “Como Nação ficamos com esta nostalgia um pouco idiota de acharmos que somos mais próximos de Portugal que os outros porque somos clarinhos, somos mestiços, não temos propriamente uma cultura africana enraizada.” Ora isso “é uma mera ilusão”, disse.

A reportagem do Jornal Público ouviu a jovem antropóloga Eufémia Vicente Rocha, que publicou uma tese sobre xenofobia e racismo em Cabo Verde, onde ela afirma que foi ficando óbvio o tal imaginário identitário dos cabo-verdianos em que há a ideia de que são superiores aos outros africanos, reclamando por isso uma aproximação à Europa. O fotógrafo e cineasta, César Schofield Cardoso, também diz que a intelectualidade cabo-verdiana, desde os claridosos, é responsável pela propagação dessa ideia por ter vincado esse discurso do luso-tropicalismo de que em Cabo Verde há uma harmonia racial. “Mas estamos a aprender que isto não é bem verdade, principalmente porque na actualidade começamos a ter fracturas. Até onde é sustentável esse modelo de sociedade que vem de antigas relações raciais? Até onde podemos conter uma sociedade que tem divisões profundas entre uma pequena elite e uma maioria que não consegue uma integração plena? Até onde será sustentável a grande desigualdade social?”.

O jornal português questionou o sociólogo Redy Wilson se há racismo em Cabo Verde, onde este foi categórico a responder. “O que muitos defendem é que existe o privilégio branco e é preciso chamar o orgulho negro para colocar África no centro. Isto não é racismo. Aprendemos que somos cabo-verdianos. Cresci com isso. Quando começo a questionar essas coisas e quando vou para a Europa, não sou cabo-verdiano, sou africano. Quando te categorizam como africano, percebes que não tens nada de especial”, finaliza ao desmontar a mitologia nascida de uma história que se conta sobre Salazar, quando alguém perguntou porque é que Cabo Verde não tinha o estatuto do indigenato e respondeu: “Eles são nossos filhos, pretos especiais.”

O historiador António Correia e Silva, actual ministro do Ensino Superior, Ciência e Inovação, tem uma visão mais optimista de Cabo Verde, referindo que "é das poucas sociedades do passado colonial e escravocrata, que conseguiu desmontar, desconflituar a questão racial”. Porém, às vezes, “olhando de África continental, eles acham que Cabo Verde é demasiadamente euro-atlântico para ser África; olhando de uma Europa, é demasiadamente negro-africano para ser Europa. Talvez sejamos todas as coisas, talvez haja várias componentes, mas é uma África de fronteira”, defendeu o ministro.

Ver: Reportagem na íntegra

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