OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

SAÚDE PSICOLÓGICA DOS BOMBEIROS – Parte 1 30 Agosto 2017

Cuidando da saúde psicológica do soldado da paz, ele certamente estará mais capacitado, primeiramente, para fazer face aos processos transferências e, só assim, aperfeiçoar a honra, a integridade, o decore profissional, o zelo, a verticalidade moral, a eficiência, no fundo, a consciência ética de um profissional que se preze.

Por: Anilton Andrade (Mentor)

(Psicólogo Clínico e da Saúde;Bombeiro Municipal e Aeronáutico)

SAÚDE PSICOLÓGICA DOS BOMBEIROS – Parte 1

Ora bem, o Homem que veste farda de Bombeiro e atua sob a égide do lema “vida por vida”, é alguém que abraçou a nobre causa de salvar vidas, e fê-la um estilo de vida, resultado de uma escolha pela qual se sente vocacionado. Atrás da farda, está um ser humano com a sua estrutura personalística e personalizada: um ser consciente, pensante, com emoções e com capacidade reflectiva; um profissional cuja saúde e bem-estar é imprescindível para fazer face às demandas altamente estressantes e situações traumáticas que vivencia no exercício da sua profissão.

De um modo geral, a realidade da prática dos Bombeiros impõe-se com alguma frieza e por vezes mesmo crueldade. No desempenho das suas funções, estes expõem-se continua e sistematicamente a situações imprevisíveis, críticas, hostis e emocionalmente desgastantes: arriscam as suas vidas para salvar vidas alheias ou o património da sociedade; lidam todos os dias com a dor e o sofrimento do outro; confrontam-se frequentemente com a impossibilidade de salvar vítimas e de evitar a destruição do património social; e vivem constantemente sob pressão em razão da responsabilidade profissional e da consciência de que a mais ínfima falha pode resultar em sérios danos ou perdas.

A exposição repetida a situações adversas, pode constituir, por um lado, uma oportunidade para desenvolver estratégias adequadas para enfrentar os desafios da realidade profissional. Por outro, pode despertar uma malha invisível de emoções e sentimentos com impacto profundo na sua saúde mental, bem-estar e relações interpessoais, eliminando os recursos e tornando os Bombeiros mais vulneráveis e com maior propensão para o desenvolvimento de sintomatologia psicopatológica e doença mental, tais como: dificuldades de concentração; alterações do estado de ânimo; irritabilidade; agressividade; retraimento ou evitamento social; alterações do sono e do apetite; constante estado de alerta e vigia; fadiga; pensamentos irracionais; perturbação pós-stress traumático; ansiedade; depressão; burnout; abuso de substâncias psicoactivas, etc., claro está, com impacto negativo tanto para ele próprio como para o coletivo, bem como na produtividade e rendimento laboral.

- Não vai a tempo de ter gabinetes de apoio psicológico nos quartéis em Cabo Verde?
Se levarmos em conta que a nobre missão dos Bombeiros consiste no atendimento de solicitações da comunidade, envolvendo situações de emergência relacionadas com o combate a incêndio, com buscas/salvamentos, atendimentos pré-hospitalares, socorro e transporte de sinistrados e doentes, socorro a náufragos e buscas sub-aquáticas, em colaboração com a autoridade marítima, socorro em casos de inundações, desabamento, catástrofes, calamidades, acidentes de trânsito, acidente/incidente no meio aeronáutico e náutico, desastres, prestação de serviços de vigilância durante a realização de eventos, colaboração com autoridades sanitárias no levantamento de cadáveres, e em cada missão, levar uma nova esperança, nitidamente percebemos que deverá haver uma visão especial sobre a sua Saúde Psicológica.

É hora, pois, de perguntar: o que se tem feito em prol da saúde psicológica do profissional que lida com o sofrimento alheio?

Cuidando da saúde psicológica do soldado da paz, ele certamente estará mais capacitado, primeiramente, para fazer face aos processos transferênciais e, só assim, aperfeiçoar a honra, a integridade, o decore profissional, o zelo, a verticalidade moral, a eficiência, no fundo, a consciência ética de um profissional que se preze. Pois, este transfere toda a sua energia vital em prol de um trabalho árduo de sucessivas situações traumáticas e incertezas, tudo em prol do bem-estar do outro (população), motivo pelo qual, aos olhos da sociedade, o seu trabalho é visto com um certo heroísmo.

O Bombeiro precisa de bem-estar físico, psicológico e social. Precisa de oportunidade para expressar as suas emoções, elaborar as vivências das situações traumáticas, auxílio para gestão dos incidentes e mobilização de recursos cognitivos e comportamentais adequados para responder e adaptar as situações que a realidade laboral impõe, com vista a diminuir os riscos de desenvolvimento de perturbações psicológicas.

Pelo exposto, urge a criação de gabinetes de apoio psicológico em todas as Unidades de Bombeiros a nível nacional. Admitir que necessitamos de apoio psicológico, não deve ser encarado como sinal de fraqueza nem perda de estatuto. É, sim, promover respostas adequadas às demandas da profissão; é, sim, promover actividades profissionais eficazes e eficientes.

Acredito piamente que, pela manifesta necessidade, está cada vez mais próximo o dia em que os Bombeiros irão ter acesso à avaliação e intervenção psicológica precoce nos seus quartéis, pois, já dizia o ditado popular: “antes prevenir do que remediar”.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau