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Suspeitos da operação “Perla Negra” interrogados pelo MP: Ex-director da PJ de São Vicente constituído arguido 19 Abril 2015

O inspector André Semedo, ex-director da PJ em S. Vicente, foi constituído arguido no processo de tráfico internacional de droga “Perla Negra”, uma operação desencadeada pela Polícia Judiciária na cidade do Mindelo em Novembro passado e que resultou na detenção de nove suspeitos e 521 quilos de cocaina pura apreendidos. O insólito é que o então director da PJ na ilha surja agora como arguido num caso que foi desencadeado pela própria Polícia Judiciária em território sob sua jurisdição. Na altura, repórteres deste jornal já haviam notado que André Semedo estava praticamente à margem da operação “Perla Negra”, que foi todo o tempo coordenada por inspectores vindos da Cidade da Praia. Chamado na passada semana a depor perante os magistrados Vital Moeda e António Sebastião, o ex-director da PJ em São Vicente entrou testemunha e saiu arguido. Semedo, que dirigiu a Inspecção da PJ em S. Vicente por quatro anos, vê-se agora a braços com a Justiça num processo que parece comportar os crimes de tráfico de droga, associação criminosa e lavagem de capital.

Suspeitos da operação “Perla Negra” interrogados pelo MP: Ex-director da PJ de São Vicente constituído arguido

Esta reviravolta pode ser um mau prenúncio para André Semedo, é um sinal de que o MP suspeita que tenha algum envolvimento ilícito no caso. Fonte deste jornal acredita que a conhecida relação de amizade que Semedo mantinha com o comerciante Alexandre Borges, mais conhecido por Chand Badiu, em cujo carro foram encontrados mais de 400 quilos da droga apreendida, possa estar na base dessa decisão do Ministério Público. Na perspectiva desse jurista, só o facto de o ex-director da PJ ser arrolado como testemunha já é algo embaraçoso, quanto mais passar a arguido na sequência de um interrogatório.
“A relação de amizade entre Semedo e Chand Badiu era do conhecimento de muita gente, em S. Vicente. O próprio André Semedo não escondia isso de ninguém. Mas, com a detenção de Chand Badiu na operação Perla Negra, houve quem começasse a questionar se o director da PJ não estaria a par do envolvimento desse seu amigo com o tráfico internacional de droga e que só não agiu, enquanto agente da autoridade, para protegê-lo”, especula o jurista que vimos citando, para quem o MP não iria constituir arguido o ex-director da PJ do Mindelo por “dá cá aquela palha”. “Há algo mais que escapa a quem esteja fora do processo”, aponta.

Ademais, numa retrospectiva àquela madrugada de Novembro, a nossa fonte lembra que todo o esquema policial foi coordenado a partir da cidade da Praia, sem conhecimento do próprio André Semedo, por ordens da Direcção Central da PJ. Um facto que o nosso interlocutor considera grave, pois revela uma profunda falta de confiança da cúpula da Judiciária na pessoa do então responsável da Judiciária em S. Vicente, quando, pela lógica, deveria ser ele a comandar os seus inspectores nessa investigação.

A revelada intenção do MP de levar Semedo a julgamento pode agora dar espaço a muita especulação. Porém, André Semedo nega que já seja arguido no processo. Abordado por este jornal, o inspector da PJ confirma que foi ouvido enquanto testemunha, mas afirma que ainda não foi constituído arguido no caso Perla Negra. “Fui arrolado e ouvido como testemunha, mas ainda não sou arguido porque não me foi comunicada oficialmente essa mudança pelo Ministério Público nem assinei os autos”, explica o ex-director da PJ do Mindelo, que foi entretanto substituído no cargo esta terça-feira pela colega Jacqueline Semedo, transferida da Praia. Esta medida administrativa coincide praticamente com a notícia da sua inclusão na lista de arguidos, mas Semedo garante que foi ele quem pediu, faz algum tempo, a sua saída, depois de quatro anos à frente da Judiciária em S. Vicente.

Desde Novembro passado, data em que a PJ levou a cabo a operação Perla Negra, o número de arguidos nesse caso de tráfico internacional de droga não pára de aumentar. Foi impossível a este jornal saber quantos são e quem são os outros novos suspeitos. O certo é que nas duas últimas semanas passaram pela Procuradoria da República várias testemunhas. O Ministério Público também ouviu durante largas horas dois dos seis arguidos detidos em flagrante delito e que aguardam julgamento sob prisão preventiva: o cabo-verdiano Chand Badiu e o espanhol José Villalonga, proprietário do restaurante Perla Negra, nome que serviu de código à operação da PJ.

Chand foi interrogado durante quase um dia inteiro na semana passada e Villalonga no período da manhã desta quarta-feira. A audição dos restantes suspeitos está agendada para os próximos dias. A par dos interrogatórios, o MP fez buscas nas residências de um amigo de Chand Badiu e de um Oficial de Justiça.

“Dada a complexidade deste caso, e porque há réus presos, o MP pediu a prorrogação do prazo de instrução do processo de quatro para seis meses. Ora, isto significa que a acusação terá de ser formalizada, o mais tardar, no mês de Maio”, comenta um jurista, lembrando que a operação Perla Negra foi consumada a 5 de Novembro de 2014 pelas bandas do Lameirão, na estrada que liga a cidade do Mindelo à Baía das Gatas.

Nesse dia, a PJ acompanhou um desembarque clandestino na praia da Salamansa e surpreendeu um grupo de narcotraficantes, quando estes se dirigiam para a cidade do Mindelo em três viaturas, com um carregamento de 521 quilos de cocaína. Seis indivíduos - cinco estrangeiros e um cabo-verdiano - caíram num cerco preparado pela polícia científica na estrada do Lameirão e que resultou na apreensão da droga, armamento de guerra (metralhadoras G3) e quase quinze mil contos em euros e outras notas, estes últimos descobertos em buscas às casas dos suspeitos.

Além de Chand Badiu, que conduzia um hiace carregado com mais de 400 quilos de droga, as autoridades deitaram mão aos espanhóis José Pratz Villalonga, Juan Bustus e Carlos Ortega, ao cubano Ariel Benitez, ao suíço Patrick Komarow e a mais três tripulantes do iate usado no transporte da cocaína. Do grupo, apenas seis aguardam julgamento em prisão preventiva, na cadeia de Ribeirinha.

Os estrangeiros residiam em S. Vicente e na Boa Vista e costumavam encontrar-se no restaurante Perla Negra, junto à Praça Nova do Mindelo. Todos os envolvidos neste caso de tráfico internacional de droga incorrem ainda nos crimes de associação criminosa e lavagem de capital. A droga era proveniente da América Latina e tinha como destino a Europa.

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